| Resenha | Bela e a Fera, de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont

Bela e a Fera

Pode-se corrigir o orgulho, a ira, a gula e a preguiça, mas seria quase um milagre converter um coração mau e invejoso!
Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, Bela e a Fera, pág. 54.

Contos de fadas são sempre apaixonantes. Poucos são aqueles que não tiveram contato com eles na infância, mesmo que através das inúmeras adaptações ou até mesmo das tão famosas animações da Disney. No entanto, poucos também são aqueles que puderam ter acesso às suas versões originais, ou até mesmo a traduções de suas versões originais. No geral, os contos de fadas são conhecidos por essas adaptações e releituras. Assim, me anima poder vir aqui falar da primeira leitura que fiz nesse ano (sim, estou em atraso): Bela e a Fera, de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, primeiro livro lançado pela Editora Poetisa.

Todavia, ainda que tenha me referido a esta como a versão orginal, é preciso contar um pouco da história do conto de Beaumont, que também não é original. A primeira versão da narrativa da bela e da fera é datada do século XVIII, escrito em 1740 pela Madame de Villeneuve, Gabrielle-Suzanne Barbot (1695-1755). Na versão de Barbot há muitas diferenças da visão que temos hoje do conto, tendo até motivos mais obscuros por trás da maldição lançada ao príncipe transformado em fera. Diz-se que o príncipe era um órfão aos cuidados de uma fada malvada que tentou seduzi-lo sem sucesso, lançando-lhe a maldição, e posteriormente tentou matar Bela, que na verdade era filha de um rei.

Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (1711-1780)
Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (1711-1780)

De qualquer forma, a versão resumida de Beaumont, datada de 1757, é a mais difundida e conhecida, ainda que tenha particularidades que não estejam presentes nas adaptações posteriores. E é sobre esta versão que venho tratar nesse texto. Mais precisamente da edição primorosa lançada aqui no Brasil pela Poetisa. E este é um ponto muito positivo para a editora, porque, qual a vantagem de lançar uma história já amplamente conhecida se não apresentar junto um diferencial? E é disso que se trata, toda a edição da poetisa é diferencial, começando pelo título e indo até a escolha das fontes usadas. Um trabalho muito cuidadoso e caprichado. Mas vamos por partes, a começar pela história.

Não há muita novidade na história de Beaumont, além do que já se sabe. Mas há pequenos detalhes que fazem a diferença. Bela é filha de um comerciante que era muito rico mas que acaba perdendo tudo e se torna muito pobre, não antes de ter dado educação aos seus três filhos e três filhas. Bela era a mais jovem e a mais bonita, motivo de inveja para suas irmãs mais velhas. Certa vez, o comerciante sai de casa para buscar suas mercadorias que chegaram num navio, na esperança de que possa cessar suas necessidades e de suas filhas. No meio do caminho ele se perde e chega ao castelo da Fera, que exige a troca da vida do comerciante por uma de suas filhas. Bela se oferece para salvar a vida de seu pai e passa a viver no castelo da Fera, mas nega-lhe o amor permanentemente, até que a convivência e uma série de acontecimentos faz com que ela mude sua visão sobre a Fera. E o final todos já sabem, ou não.

Ilustração de Laurent Cardon para esta edição.
Ilustração de Laurent Cardon para esta edição.

O diferencial nessa versão da história está no fato de que, além da lição de moral, há certa crueza na narrativa, geralmente ignorada nas animações da Disney. Nem todos os personagem têm sua redenção e terminam bem, assim como nem todas as ações dos protagonistas são isentas de egoísmo ou falhas. Mas o foco está na exaltação da virtude maior, a bondade. Esta imaculada na figura de Bela, e cultivada no coração da Fera. Para além da bondade, o conto nos ensina a olhar além das aparências, de forma que transcenda o externo. Lembro que esta lição é passada de uma forma bem singela, e talvez com inspiração aqui, no livro (e também animação) O Castelo Animado, de Diana Wynne Jones.

Mas preciso falar um pouco sobre a edição da Poetisa. Além do conto, a edição traz apresentações por parte daqueles envolvidos no projeto, uma espécie de making off que só soma ao trabalho. Nos fornece também um tutorial de como fazer um trabalho bem feito que, como eu disse, vai do título à diagramação. A primeira fala, da editora Cynthia Costa, nos apresenta o conto e sua importância na cultura pop da literatura e do cinema, assim como de suas origens com suposta inspiração no mito grego de Eros e Psiquê. Em seguida, temos a fala da tradutora, Dra. Marie-Hélène Catherine Torres, especialista nos estudos da tradução, que nos conta das dificuldades de se transpor uma obra que além de universal é poética: o cuidado com a fidelidade entre o original e o que é universalmente conhecido (o caso das aliterações do título), o cuidado com a sonoridade e o tom da narrativa na mudança de idioma. Como ela conclui: “traduzir não é tarefa fácil” (pág 9).

Ilustrações de Laurent Cardon para esta edição.
Ilustrações de Laurent Cardon para esta edição.

Além destas, que seriam o básico, a obra traz ainda palavras do ilustrador francês Laurent Cardon. Ele nos conta sobre o processo de criação das ilustrações exclusivas para esta edição, sua tentativa de permanecer entre a originalidade isenta do que já foi feito e a coerência com o sentido e inspirações do conto, tendo como principal referência o ilustrador Gustave Doré. E por fim, mas não menos importante, a fala da responsável pelo design do livro, Carol Cardon, que nos conta detalhes sobre a criação de uma fonte exclusiva para o título, de forma a dosar um equilíbrio entre o gótico e o suave. Ela também relata o cuidado tomado na alternância entre ilustrações e texto, páginas claras e escuras, o espaço ocupado pelo texto e as margens enormes, criando assim um ar gótico e onírico e imprimindo o caráter profundo e leve da narrativa.

Apesar de toda a difusão por meio das inúmeras versões, o conto La belle et la bête tem uma singularidade ímpar. Vale muito a pena conhecer, relembrar e se emocionar mais uma vez. A edição da Poetisa proporciona uma imersão profunda no conto, tanto pela história em si como pelo detalhes, em especial as ilustrações lindas. Recomendo não só para quem é fã de contos de fadas, mas também para os profissionais do ramo editorial em todos os setores citados acima. O livro, além de tudo, é uma aula.

Ficha Técnica

Clique para ampliar

Título: Bela e a Fera
Título Original: La Belle et la Bête
Autor(a): Jeanne-Marie Leprince de Beaumont
Editora: Poetisa
Tradução: Marie-Hélène Catherine Torres
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1757
Páginas: 56
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10 comentários

  1. O que dizer parabéns pelo post como estudiosa da literatura infantil eu digo não é fácil encontrar textos que tragam a veracidade de suas versoes originais. e tambem vale lembrar que a primeira versão é brutal devido ao fato que estes e outros contos até a chegada dos irmãos Grimm eram apenas destinados a adultos. Por isso em todos os contos haviam lições de moral , e ou outras instruções no final..
    Muito bom seu texto .

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    • Oi Klau,
      É verdade, em especial dos contos de fadas, pelas inúmeras adaptações e reformulações que sofrem ao longo do tempo. Legal saber que você estuda literatura infantil, eu já estudo os clássicos da literatura inglesa e americana, mas tenho um apreço especial por literatura infantil enquanto leitor. Sim, eu fiquei ainda mais curioso por conhecer a primeira versão, me parece bem brutal mesmo.
      Obrigado pela visita e pelo comentário. 💚

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      • Eu faço especialização em literatura infantil e tenho a maioria dos contos em suas versoes originais inclusive na linguagem pois muito se perde nas traduções tambem .

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        • Que bacana, Klau.
          Como disse, adoro literatura infantil enquanto leitor. 💚
          É verdade, tradução é sempre complicado. É ótimo ler em nosso idioma pelo prazer de uma leitura mais facilitada, mas ao mesmo tempo é ótimo conhecer algumas obras em suas versões originais.
          Beijos

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  2. Que primor essa resenha Ademar! Cuidado em pesquisar e nos trazer todo esse conteúdo, ao invés de apenas passar suas impressões sobre o livro. Gostei muito de conhecer mais sobre essa história e fiquei muito curiosa para ver ao vivo essa edição da Poetisa. Essa semana na vou na livraria procurar! Eu agradeço pela resenha!
    Mas algo q não posso deixar de falar: como assim sua primeira leitura do ano?!? :0
    Kkkk
    Bjs

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    • Oi Mara,
      Primeiramente, muito obrigado. É muito bom ouvir/ler isso.
      Eu gosto sempre de pesquisar sobre as obras após a leitura, para me conectar um pouco melhor com elas. Nessa não precisei ir muito além, por o próprio livro já oferece um material extra interessante.
      Eu acho que você vai amar essa edição da Poetisa, muito bem trabalhada e com ilustrações lindas.
      Sobre sua dúvida: sim, esse foi o primeiro livro que li esse ano, a resenha saiu um pouco atrasada, infelizmente. 😅😅
      Beijão 😍😘

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    • Oi Júnior,
      Muito obrigado, fico feliz que tenha gostado.
      Eu também gosto muito quando sai dessa hegemonia Disney/Hollywood, embora eu goste de muita coisas que eles fazem. Mas é sempre um prazer conhecer as versões originais.
      Abraço 💚👦

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  3. Fiquei apaixonada por essa resenha! Quero esse livro já! Além do conto em si, é bacana saber que tem todo esse conteúdo extra, além do cuidado com a edição (todos os detalhes foram pensados, etc). Fiquei curiosa para ler o conto também porque, além de ser diferente das adaptações já conhecidas, pelo que você descreveu dá para notar que ele se parece à versão da história na recente adaptação francesa para o cinema, que teve Léa Seydoux como a Bela. Nela, o pai da mocinha também era muito rico e perdeu tudo, ela tinha várias irmãs e irmãos, as irmãs invejosas e tal, e o aspecto mais sombrio de tudo.
    Não conhecia esse livro da Poetisa e fiquei encantada, com certeza procurarei vê-lo com meus próprios olhos quando for a uma livraria.

    Beijos, Livro Lab

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    • Oi Aline,
      E eu fico muito feliz por você ter gostado da resenha e pelo comentário.
      Eu acho que você vai curtir o livro sim, por ser uma obra originalmente francesa, só lembrei de você enquanto lia.
      O livro é fininho, mas tem todo esse diferencial que citei no texto. E as ilustrações são lindas demais.
      Eu ainda não vi essa nova adaptação francesa, mas vi fotos na internet, me pareceu muito bacana. Vou tentar ver depois.
      Beijão 😘😘

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