| Resenha | A Dança da Morte, de Stephen King

A Dança da Morte

Mostre-me um homem ou uma mulher solitários e lhe mostrarei como são santos. Dê-me dois e eles se apaixonarão. Dê-me três e eles inventarão essa coisa encantada que chamamos de ‘sociedade’. Dê-me quatro e eles construirão uma pirâmide. Dê-me cinco e eles transformarão alguém num pária. Dê-me seis e eles reinventarão o preconceito. Dê-me sete e em sete anos eles reinventarão a guerra. O homem pode ter sido feito à imagem e semelhança de Deus, mas a sociedade humana foi feito à imagem e semelhança de Seu oposto.
Stephen King, A Dança da Morte, pág. 460.

A citação acima talvez seja um dos momentos mais importantes de A Dança da Morte, aquele em que o autor expõe toda a filosofia que rege os acontecimentos na obra. Não só pelo descrédito que despeja sobre as sociedades organizadas, mas também e principalmente, pelo papel que essas sociedades desempenham nos planos de Deus e do Diabo.

Dividido em três partes, o livro conta a história de uma epidemia de supergripe responsável pela quase extinção da humanidade. Iniciando com a fuga de uma família contaminada da área de quarentena, a obra acompanha uma série de personagens imunes que tem que lidar com seus dramas pessoais à medida que o vírus se espalha. Mais tarde, eles tentam formar uma sociedade, conhecida como Zona Franca, com o intuito de garantir a sua própria sobrevivência. Há também uma outra sociedade criada e governada pelo vilão Randall Flagg, personagem já famoso em outras obras de King, como na série A Torre Negra. Nesta, Flagg é conhecido por ser o anticristo. A história então caminha para uma possível conflito entre as zonas Leste (Zona Franca) e Oeste (Randall Flagg), o qual vai definir o destino de todos.

Detalhe de uma das capas americanas
Detalhe de uma das capas americanas

Como a história é dividida entre vários personagens, é difícil definir os protagonistas, há porém quatro deles que ganham destaque já no início do livro e acabam compondo o comitê que governa a Zona Franca. São eles: Frannie, uma jovem grávida que perde os pais na epidemia, Stuart, um homem comum que tem contato com o primeiro infectado; Larry, um cantor em ascensão; e Nick, um andarilho surdo-mudo.

A Dança da Morte é provavelmente um dos melhores exemplos de como se contar uma história longa e marcante, focando principalmente no desenvolvimento dos seus personagens. São raros os momentos em que o autor se detém a narrar os acontecimentos em si, preferindo sempre focar nas percepções subjetivas dos mesmos sobre aquilo que os cerca. Assim, o leitor é apresentado ao drama de diversos indivíduos que desempenham papéis secundários, quase triviais, apenas para que o autor possa situar a história em um contexto mais amplo, principalmente na primeira parte do livro, onde surge a necessidade de comentar a reação do governo frente a crise.

Stephen King (Photo by Jim Spellman/WireImage)
Stephen King (Photo by Jim Spellman/WireImage)

Vale destacar a capacidade impressionante que King tem para criar personagens complexos, aqui são dezenas de indivíduos perfeitamente críveis, todos com seus próprios dramas e suas idiossincrasias. Personagens do Leste e Oeste contam com arcos dramáticos perfeitamente definidos, onde  alguns coadjuvantes acabam se tornando tão interessantes quanto dos protagonistas. Alias, é preciso dizer que a definição dos protagonistas é minha, neste caso, servindo apenas para um melhor entendimento deste texto.

Outro ponto que não pode ser esquecido é o ritmo que o autor consegue imprimir em uma obra tão extensa como esta. Há, é claro, um ou outro momento em que acaba oscilando, principalmente na sua primeira metade, mas nada que prejudique o conjunto da obra. Quando busca a tensão, o terror psicológico ou momentos de pura ação, Stephen King é certeiro. Sem falar nos insights inspirados quando seus personagens refletem sobre sociologia e política.

Do carta da minissérie The Stand (1994), baseada no livro.
Do carta da minissérie The Stand (1994), baseada no livro.

Contando com uma subtrama religiosa intensa, o livro pode incomodar àqueles que têm uma visão mais secular do mundo, principalmente a partir da segunda parte, quando Deus e Flagg começam a influenciar nos acontecimentos. Aliás, não é nenhum exagero dizer que A Dança da Morte é na verdade uma versão de King para um apocalipse religioso, como foi o dilúvio. Meu conselho é: aproveitem. São poucas as oportunidades de encontrar histórias bem contadas com visões de mundo distintas. Além disso, o autor é inteligente o suficiente para criar personagens céticos e racionais que dão um contraponto à visão religiosa que domina a narrativa.

Contando com um controle absoluto sobre sua história, King nos presenteia com uma obra tematicamente complexa e narrativamente ambiciosa que cumpre bem o seu papel ao longo de mais de mil paginas. É uma das obras mais famosas e elogiadas do escritor que faz jus a sua fama.

Autor Convidado

Naum Celestino  é estudante de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo na Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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Ficha Técnica

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Título: A Dança da Morte
Título Original: The Stand
Autor(a): Stephen King
Editora: Suma de Letras
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1978
Páginas: 1248
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2 comentários

  1. O livro A Dança da Morte é, na minha opinião de leitor da maioria dos livros de King, uma de suas melhores obras, perdendo somente para a série da Torre Negra. Tenho o livro e o filme e a matéria inspirou-me a, assim que sobrar um tempo nessa minha atribulada agenda, usufruir de suas artes novamente.
    A frase citada no princípio da postagem e que fundamenta os erros existentes na formação de uma sociedade, na visão do Mestre, me lembra muito o Gênesis da Bíblia Sagrada: enquanto Adão tudo era bom, depois veio a Eva, tentada pela serpente e o pecado se originou. Expulsos do paraíso, foram necessários somente dois filhos para a “invenção” do assassinato. De fato, existe aí uma correlação interessante!
    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

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