| Crônica | Acertando as contas com o Rei dos Sonhos, de Lily Carroll

(Photo by Jeremy Sutton-Hibbert/Getty Images)
(Photo by Jeremy Sutton-Hibbert/Getty Images)

Meus pais nunca tiveram o costume de sentar e lerem histórias para nós. Nada de princesas, bruxas, cavaleiros ou animais falantes. Em vez disso, se punham a contar histórias verdadeiras: acontecimentos e fatos cotidianos. Alguns eram tremendamente banais, enquanto outros eram diferentes e estranhos. Crescendo com esse hábito, logo meus irmãos e eu nos tornamos hábeis na arte de contar nossas próprias desventuras. E nas rodas de amigos, nenhuma das minhas histórias é tão popular quanto O Dia em Que Bati em Neil Gaiman.

Mas estou me adiantando.

Devia ter uns 13 ou 14 anos quando li Sandman pela primeira vez na biblioteca do bairro onde morava. O lugar não tinha um grande acervo e as revistas eram continuamente roubadas e substituídas por outras. Logo não havia garantias que a revista que estava lendo estaria lá no dia seguinte ou mesmo que a sequência da HQ viria aparecer nas prateleiras algum dia. Eu não ligava, contanto que tivesse outras historias daquele cara alto, branquelo e sombrio estava satisfeita. Ele era tão diferente dos super heróis e das crianças da turma do Limoeiro. Sandman era estranho. Um estranho bom.

Outro problema da biblioteca era que os quadrinhos não podiam ser emprestados e quem quisesse ler sem se dar o trabalho de furtá-los, deveria fazer no próprio prédio dividindo espaço com os outros estudantes que estavam fazendo pesquisa.

Então o rei dos sonhos morre. (Longa vida ao rei dos sonhos).

Sandman

Na verdade, o grande problema foi uma edição posterior à morte de Morfeus. A revista em questão mostrava seu funeral e diversos personagens diziam suas últimas palavras a Sonho. Bem, num dado momento, Delírio, a caçula dos perpétuos, com seus balões de fala em arco-íris, faz seu pequeno e desconexo discurso e confessa que Sonho, no fundo, a assustava. Foi algo bobo, mas aquilo me tocou, então comecei a chorar.

Hoje eu não ligo quando começo a chorar em público ao ler algo triste num livro ou numa HQ. Mas ali, em meio aos outros alunos que copiavam mecanicamente textos de livros de história e geografia, sem entender o porquê Sonho morreu (levou muito tempo até conseguir ler a saga completa e na ordem correta) e relendo aqueles diálogos fiquei muito triste. E com raiva. Por que ele morreu? Quem decidiu isso? Não era justo!  Muitas pessoas estão sofrendo com sua morte!

Então procurei alguém para culpar. O autor daquela história. Um cara chamado Neil Gaiman. E fungando e tentando pateticamente secar o rosto, prometi a mim mesma que se o encontrasse, iria bater nele.

O tempo passou.

Estava agora no curso técnico de Desenho de Comunicação (posteriormente ele mudou de sexo e passou a se chamar Designer Gráfico) quando reencontrei o Lorde Moldador. O professor de ilustração me entregou um folder da livraria Fnac com a programação de evento das lojas, com destaque para o lançamento de Caçadores de Sonhos, trabalho em conjunto de Neil Gaiman com o ilustrador Yoshitaka Amano.

“Sei que você gosta desse desenhista”, comentou meu professor antes de se afastar. Sim, eu adorava o trabalho do senhor Amano, mas o que eu via ali era a oportunidade do ajuste de contas. Gaiman viria para uma tarde de autógrafos do livro.

Acredito que todos já ouviram sobre essa tarde na Fnac Pinheiros. A fila gigantesca, a paciência e dedicação dos fãs. Até hoje o próprio Neil comenta sobre aquele dia. Fui uma das primeiras a chegar e estava no auditório durante a leitura do trecho de Deuses Americanos. Confesso que fiquei um tanto perdida e culpava meu inglês “falconico” por não entender como Shadow conversava com a I Love Lucy…

(Photo by Chris Pizzello/Invision/AP)
(Photo by Chris Pizzello/Invision/AP)

E o tempo todo, a única coisa que pensava era se teria a coragem de cumprir aquela velha promessa. Diabos, estávamos falando de bater em um dos grandes nomes dos quadrinhos, admirado por todos naquele prédio. Sem contar o risco de levar uns tapas dos seguranças.

Bem, promessa é promessa e já que estava ali mesmo, então, porque não?

Quando chegou minha vez de pedir um autógrafo, estava muito nervosa, e para evitar mal entendidos pedi para que o intérprete que acompanhava Neil explicasse que eu adorava o trabalho dele, mas que havia ficado muito triste quando o Sandman morreu, por isso, por favor, eu poderia bater nele?

Parecia-me explicação suficiente.

O intérprete achou engraçado e disse tudo isso a Neil. Tudo que falam a respeito da simpatia do autor para com os fãs é a mais pura verdade. E com a providencial ajuda do interprete ele me respondeu:

“Eu precisava matar Sandman porque a história precisava de um fim”. Então mostrou a palma da mão para mim e entendi que poderia dar um tapa em sua mão, como uma professora dando um corretivo num aluno. Eu só podia sorrir.

“Não” respondi. “Assim!” E dei um tapa em suas costas, o abracei e pedi desculpas. Estava feito. Neil autografou minha edição de Morte: O Grande Momento da Vida e mais ou menos envergonhada me afastei da mesa para que outras pessoas tivessem sua chance de cumprir velhas promessas.

Havia entendido há muito tempo que a história de Sandman precisava de um final, e que o rei dos sonhos precisava ter aquela conversa com sua irmã mais velha. Entendia a tristeza estranha e colorida de Delírio e superei há muito tempo as lágrimas na biblioteca. Mas em última análise, a história da biblioteca precisava de um final também.

Autor Convidado

Lily Carroll, tecnicamente é redatora e editora freelancer. Tecnicamente estudou desenho de comunicação, moda, cinema, pintura e ainda mais tecnicamente escreve fanfics, contos e tem como hobby destruir a infância das pessoas. Gosta de animes, quadrinhos, sorvete de menta com chocolate e para comprar um Transformers de pelúcia topou participar da antologia Crepúsculo – O despertar dos vampiros.

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