| Resenha | A Cidade Murada, de Ryan Graudin

Cidade Murada de Kowloon (Hong Kong)
Cidade Murada de Kowloon (Kowloon, Hong Kong)

Não tenho chance. Sou pequena e estou sozinha. Deve ter dezenas de seguidores dele, com outras facas, escondidos no escuro. Mas não paro.
Ryan Graudin, A Cidade Murada, pág. 172.

Perigo, nosso atual e mais forte  rival. Agora imagine uma cidade extremamente caótica, onde o quesito segurança simplesmente não existe? Acrescente extrema pobreza e outras mazelas socais. Consegue pensar em algo? Multiplique isso por 1.000 e talvez consiga imaginar 1% do drama envolvido em A Cidade Murada, de Ryan Graudin. Quando li/assisti algumas resenhas sobre este livro, sempre ficava receoso quanto ao excesso de elogios. No entanto, a autora merece todos eles e mais alguns.

Assim como a cidade real em que foi inspirada, Cidade Murada de Kowloon (Kowloon, Hong Kong), a fictícia Hak Nam (Seng Ngoi) também é uma cidade dentro de uma cidade. Ou seja, ambas são cercadas por muros de concreto onde um conjunto de blocos sólidos estão empilhados em ruínas e cuja administração pública não possui nenhum poder. Não diferente, a população é composta em sua maioria por bêbados, ladrões, prostitutas, assassinos e traficantes, todos circulando por ruas úmidas, estreitas e sujas, na tentativa instintiva de sobreviver, independente de quanto isso signifique. Como a própria contracapa já traz, não é fácil existir na Cidade Murada, para isso, existem três regras básicas que precisam ser seguidas:

  1. Correr muito;
    2. Não confiar em ninguém;
    3. Andar sempre com uma faça. (pág. 11)

Como se não fosse ruim o suficiente, esta história é narrada sob o ponto de vista [intercalado] de uma criança e dois adolescentes. São eles: Jin Ling, uma menina (travestida de menino) que fugiu para a cidade murada na esperança de encontrar a irmã, que foi vendida pelo pai alcoólatra para os Ceifadores (traficantes de pessoas); Mei Yee (irmã de Jin), adolescente que se encontra nas dependências do bordel que pertence ao chefe da Irmandade do Dragão Vermelho, Longwai (grupo mais influente na cidade); e Dai Shing, o outro adolescente que possui um segredo que o assombra e mantém preso à cidade murada. Este último, é o que podemos chamar de protagonista, pois a organização da história é pautada pelo seu segredo, o que dita o ritmo dos acontecimentos. Isto é, a divisão das partes da história dependem da quantidade de dias que ele tem (de vida?), neste caso estou falando que Dai possui apenas 18 dias para salvar sua pele.

Ryan Graudin
Ryan Graudin

Apesar de possuírem histórias separadas, esses três personagens acabam se cruzando — e violando a regra nº02 — porque Dai acaba de se envolver com a Irmandade e precisa de alguém para fazer alguns trabalhos para ele, enquanto tenta escapar. Esse trabalho, também chamado de corres, consiste basicamente em entregar drogas o mais rápido possível e da forma mais segura. E, enquanto se esgueirava pelas ruas da cidade murada, Dai conhece a fama (agilidade e esperteza) de Jin e percebe que ele é o garoto perfeito para os corres. Jin fica insegura quanto a proposta, mas acaba aceitando, principalmente porque os trabalhos são para a Irmandade e o único lugar que ela ainda não teve oportunidade de procurar a irmã foi no bordel de Longwai. Enquanto toda essa ação acontece, Mei Yee permanece ainda mais presa que qualquer outro personagem, pois além de ser propriedade de Longwai, ela também foi paga para ser exclusiva de um embaixador, o que diminui seu contato também com as outras garotas.

E com o passar dos dias, nessa contagem decrescente, o leitor vai mergulhando nos mistérios dos personagens e da própria estrutura política da cidade. Essa decressão funciona muito bem na construção do thriller. Outro elemento narrativo que funcionou muito bem foi os capítulos curtos, com pausas nos momentos exatos — mudando a narrativa de um personagem para outro. Somados a isso, temos eventos bem ágeis, que quando mal construídos podem ser entendidos como excessivos ou não críveis; mas basta lembrar que as pessoas estão confinadas entre muros de concreto, num terreno de menos de meio quilômetro quadrado, cercados por maldade e podridão, e o único objetivo de vida é sobreviver até o próximo dia para continuar lutando, que tudo fará muito sentido.

Cidade Murada de Kowloon (Hong Kong)
Cidade Murada de Kowloon (Hong Kong)

A construção das personagens é algo que me chamou bastante à atenção, pois este é um daqueles livros que já valem só pela ação. No entanto, Graudin conseguiu deixar claro todas as motivações dos personagens, até mesmo dos secundários, de uma forma tão natural que não nos damos conta. Ela não separa capítulos específicos com flashbacks ou algo do tipo, quando percebemos já sabemos detalhes da infância/família dos personagens, como se já os conhecêssemos. E isso foi meio assustador, pois durante a leitura, acabei fazendo várias analogias com nossa realidade *Brasil*. Apesar de não existir muros de concreto específicos que delimitem uma cidade dentro de outra cidade, temos comunidades periféricas cuja realidade é tão cruel quanto, não só no quesito estrutura física (basta comparar as imagens com os morros do Rio de Janeiro e São Paulo), mas também na questão social, onde os traficantes/ladões/assassinos são quem têm voz e poder.

Como falei na TAG dos 50%, Ryan Graudin entrou para minha lista de autores(as) favoritos(as) já no primeiro livro. Isto porque ela conseguiu fazer uma das coisas que mais admiro numa leitura, que é quando um autor transforma um espaço geográfico — neste caso, Hak Nam —, em personagem. Suas descrições são tão precisas que é quase impossível não se sentir pertencente àquele lugar (sentir seus odores, medos e dificuldades). Outro fator que contribuiu foi o fato de ela se utilizar de algo já existente e criar um mundo completamente novo, quase distópico. Esse quê de “irreal” fez com que a história fosse direcionada para o público jovem. No entanto, A Cidade Murada possui algumas *muitas* cenas fortes, nas quais precisamos largar um pouco a leitura para conseguir absorvê-las e só depois continuar.

Maquete da Cidade Murada de Kowloon (Hong Kong)
Maquete da Cidade Murada de Kowloon (Hong Kong)

Como meus amigos costumam falar, A Cidade Murada é um grande tapa na cara da sociedade, só cabendo a mim recomendar ao maior número de pessoas possível. Ademais, parem tudo que estiverem fazendo e leiam já.

Ficha Técnica

Clique para ampliar
Clique para ampliar

Título: A Cidade Murada
Título Original: The Walled City
Autor(a): Ryan Graudin
Tradução: Guilherme Miranda
Editora: Seguinte
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2014
Páginas: 400
Skoob: Adicione
Compare e compre: Buscapé | Amazon

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s