| Teatro | Exercício sobre Medeia

“Ninguém vai sambar na minha caveira/ Não sou das que gozam co’a submissão”.

Essa é justamente a única imagem que podemos distinguir de início no palco, pois, ao adentrar o teatro, a primeira visão que o espectador tem (ou seria uma visagem?) é da caveira de Medeia. O rosto da atriz unicamente iluminado por um foco de luz a transforma numa aparição sobrenatural diante da plateia, já impactada, que tenta recuperar o fôlego e o sentido de localização para tomar o assento e mergulhar naquela experiência de ousadia estética.

O que vemos é a carcaça de um ser aniquilado pela dor, pelo ódio e pela loucura consequente disso, o que ouvimos é nada além do eco de uma criatura que deixou de ser humana, tornou-se espectro, fantasma, uma (sub)existência sustentada apenas pelo sofrimento. Assim tem início o monólogo Exercício sobre Medeia – Tormenta nos Fios Obscuros, uma realização do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, encenado pela atriz Silmara Silva, com a direção de Adriano Abreu, que transporta o espectador para uma das maiores tragédias da Grécia Antiga, em torno do mito de Medeia.

A situação de desconforto imediato a que a plateia é levada reflete bem a perturbação que a história de Medeia sempre alcançou junto ao público, visto que se trata de uma das mulheres mais perigosas da mitologia clássica, que foi capaz de assassinar os próprios filhos para vingar-se do marido infiel. Essa é a versão mais conhecida da história de tal personagem, retratada na tragédia grega Medeia, de Eurípides, de 431 a. C, a qual serviu de inspiração para esta peça.

Foto de Ana Cândida Carvalho

Por esse motivo, a representação de uma personagem dessa complexidade constitui um desafio de peso para qualquer ator, mesmo aos mais experientes. Desafio este que Silmara cumpriu com uma magistral atuação e força cênica, não é à toa que recebe as honras de ser considerada uma das atrizes mais promissoras do teatro piauiense.

Sua atuação é completa, com uma voz que preenche o teatro e consegue ser alterada num momento de transe ritualístico, em que a personagem invoca uma entidade divina, a deusa da encruzilhada e da feitiçaria, Hécate. Além disso, a maneira de se movimentar no palco, a coreografia e a expressão corporal da atriz são dignas de atenção, habilidades que valorizam ainda mais a representação de um papel tão enigmático, e revelam o trabalho sério de toda uma equipe envolvida nessa produção teatral.

Os efeitos de luz são muito bem utilizados, recurso que constrói uma atmosfera de culto pagão, no qual Medeia fica remoendo sua culpa num verdadeiro ritual de expiação pelos crimes cometidos. Outro elemento merecedor de elogio é a composição do figurino da personagem, com o arranjo do cabelo em forma de um moicano ameaçador que lhe concede um ar de réptil ou de animal peçonhento, e a vestimenta feita de cordas e tiras entrançadas que lhe conferem um aspecto aracnídeo, ou seja, todo o conjunto dá forma a uma aparência ameaçadora.

bastidores medeia
Momento tiete

O cenário também foi montado de modo a intensificar uma atmosfera trágica, com o palco cercado por cordas, que parecem grades e sugerem o isolamento ao qual Medeia está condenada. Todos esses elementos associados ao texto dotado de poesia e força dramática tornam esse espetáculo um acontecimento artístico bastante valioso para a vida cultural piauiense.

Contendo ainda trechos da peça Gota d’água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, que é uma adaptação da tragédia de Eurípides para a realidade brasileira, e alguns versos de Cecília Meirelles, Exercício sobre Medeia captou com sucesso essa aura ao mesmo tempo repulsiva e fascinante de uma mulher que se perdeu por amor e deixou consumir-se pelo ódio. Dessa forma, Medeia é, sobretudo, o grito de todas as mulheres traídas que tentam exorcizar essa dor através da vingança, mesmo que esta cause sua autodestruição.

Por fim, compartilho um trecho da defesa final de Medeia, gestada pela própria intérprete, que mergulhou fundo na alma dessa personagem mítica a ponto de nos despertar compaixão por essa mulher capaz de atos tão monstruosos em nome do amor:

“Quando confessei a face oposta para esse amor, para esses tiranos, mostrei a todos um ser divino vingativo, expositor de uma ira sem freios. Fui selvagem, dissimulei, humilhada pela postura do meu marido. Jasão destruidor, causador da minha implosão, vomitada violentamente para o mundo, em forma de fogo, ciúmes, rejeição, morte.”

Vídeo de Divulgação:

Mais informações:

O espetáculo Exercício sobre Medeia foi apresentado no dia 04 de agosto, no Teatro 4 de setembro, como parte da programação do Projeto Terças da Casa, que é mantido pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Cultura. Este trabalho é mais uma realização do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, contando com a direção de Adriano Abreu, iluminação de Pablo Erickson, vídeo de Francisvaldo Sousa, fotos de Ana Cândida Carvalho, textos de Chico Buarque, Paulo Pontes, Cecília Meirelles e Silmara Silva, e atuação de Silmara Silva. Informações: (86) 3222 7100/(86) 99811 6652 (whatsapp Silmara Silva).

Ficha Técnica:

Monólogo: Exercício sobre Medeia
Direção geral: Adriano Abreu
Atuação, concepção e figurino: Silmara Silva
Produção: Piauhy Estúdio das Artes
Resumo: Exercício sobre Medeia reconta a história da mulher-mãe-feiticeira, traída pelo marido Jasão, que num ato premeditado de vingança contra a infidelidade do marido, humilhação do Rei de Corinto Creonte (pai da noiva de Jasão) e de toda a sociedade, assassina sua rival e os próprios filhos.

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