| Artigo | As primeiras profissões dos romancistas policiais

O que Arthur Conan Doyle, Dashiell Hammett e Luiz Alfredo Garcia-Roza têm em comum, além de serem grandes nomes do gênero policial? Respondo: todos tiveram outras profissões antes de se dedicarem à literatura. De médicos a investigadores, de psicólogos a professores, o mundo dos romances detetivescos é povoado por várias formações profissionais.

Um dos exemplos mais emblemáticos é Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes e do estereótipo do detetive até hoje. Formado em medicina pela Universidade de Edimburgo, Doyle montou seu consultório na pequena cidade de Portsmouth, em 1882, e no intervalo das consultas passava o tempo escrevendo histórias de detetive na esperança de publicá-las em revistas especializadas. Em 1887, o primeiro conto de Sherlock Holmes apareceu na inglesa Beeton’s Christmas Annual, e o resto virou história.

Raymond Chandler
Raymond Chandler

Dashiell Hammett e Raymond Chandler foram mestres da literatura noir nos Estados Unidos, estilo que surgiu na década de 1930 em resposta aos populares romances de enigma. O detetive particular Sam Spade foi criado por Hammett mas, antes de viver dos crimes da ficção, ele investigou crimes reais na lendária agência Pinkerton durante sete anos. Já Raymond Chandler foi executivo de uma empresa de petróleo em Los Angeles, e só se arriscou na literatura porque perdeu o emprego com 44 anos e aí tomou coragem para perseguir um sonho antigo. Ele logo criaria o icônico private-eye Philip Marlowe no livro O Sono Eterno, de 1939.

Mudando um pouco de escola mas ainda na área dos thrillers, o que dizer de Ian Fleming e do agente secreto James Bond? Antes de criar o espião garanhão salvador do mundo, Fleming foi jornalista da Reuters, bancário, corretor de ações e articulador na Inteligência Naval Inglesa. Com a experiência adquirida na guerra, ele rabiscou uma historinha de espionagem em 1952 que dizia ser “apenas um passatempo”. Casino Royale saiu no ano seguinte, foi um sucesso de vendas e o melhor retrato que Fleming fez dele mesmo para a posteridade.

Patricia Cornwell
Patricia Cornwell

Mais recentemente temos o exemplo da norte-americana Patricia Cornwell, criadora da série com a médica-legista Kay Scarpetta. Patricia aprendeu muito sobre polícia e técnicas de investigação quando foi repórter policial de um jornal na Carolina do Norte, mas também trabalhou no escritório do médico-legista chefe de Virginia e no Departamento de Polícia de Richmond. Isso até conseguir publicar o primeiro romance policial em 1990, após o livro ter sido rejeitado por sete editoras. Atualmente, ela já vendeu mais de 100 milhões de cópias no mundo com a série Scarpetta.

Entre os autores brasileiros temos o carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza. Formado em psicologia e filosofia, ele lecionou por muitos anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro e publicou vários livros sobre psicanálise enquanto acadêmico. Mas foi apenas após a aposentadoria que Garcia-Roza enveredou para a literatura e, aos 60 anos, lançou o primeiro romance policial, O Silêncio da Chuva. Ali nascia o delegado Espinosa, titular da 12ª DP de Copacabana e figura fácil entre os fãs de romances policiais nacionais.

Ian Fleming
Ian Fleming

É claro que há mais autores que eu poderia ter citado, mas esses acima já ilustram a ideia de que nunca é tarde para embarcar em novas experiências, mesmo quando uma vida inteira passa diante dos nossos olhos (o que dizer de Cora Coralina, que publicou o primeiro livro de poesias já velhinha mas dizem ter sido uma doceira misteriosamente maravilhosa?). Além do talento, também a sorte, o timing, a dedicação e principalmente a persistência são combinações que contribuem para alimentar nossos sonhos. Afinal de contas, o que seria da literatura se Arthur Conan Doyle tivesse dedicado seu tempo ocioso às práticas da jardinagem?

Autor Convidado

Ana Paula Laux é jornalista e pesquisadora. Produz conteúdos e faz curadoria de informações para o site e o Facebook do Clube do Crime, da Companhia das Letras. É editora do site Literatura Policial, e sob o pseudônimo Chris Lauxx lançou com Rogério Christofoletti o e-book Os Maiores Detetives do Mundo.

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