| Resenha | Reconhecimento de Padrões, de William Gibson

Reconhecimento de Padrões

Minha relação com o gênero ficção científica sempre foi um paradoxo. Embora boa parte dos meus filmes e animes favoritos sejam deste gênero, nunca li nada de sci-fi. Desde que me conheço como leitor, eles sempre tiveram espaço na minha lista infindável de metas de leitura, mas por um motivo ou outro iam ficando abaixo nas minhas prioridades. Por isso, escrever esse texto é de uma responsabilidade imensa, tanto pelo fato de que ainda tenho muito que explorar desse universo, quanto pelo fato de vocês, leitores do blog, estarem acostumados com as críticas escritas pelo Ademar.

Como escritores de ficção científica costumam dar pontapés iniciais em discussões que posteriormente se tornam amplamente discutidas em ramos da Ciência; como é o caso de Gibson, ao cunhar o termo ciberespaço na obra Neuromancer; o livro me despertou atenção pelo título que se refere a um área da ciência muito aplicada em Computação, cujo objetivo é classificar objetos de forma inteligente em padrões comuns.

William Gibson
William Gibson

Em Reconhecimento de Padrões, temos como personagem principal a excêntrica Cayce Pollard, que trabalha como caçadora de tendências de moda. Seu talento em decifrar padrões faz com que ela seja uma profissional muito requisitada por grandes corporações de moda. A grande curiosidade em relação à Cayce é que ela tem uma alergia que a diferencia das pessoas que trabalham com ela. Nesse momento, você imagina milhares de alergias, aí vem o Gibson e constrói uma personagem que trabalha com moda e tem alergia à marcas registradas. Além dessa inusitada característica, Cayce é seguidora de uma espécie de culto na internet, mais especificamente, de uma coleção de fragmentos de vídeo lançados anonimamente intitulada o “filme”.

Inicialmente, esses fragmentos são discutidos apenas em uma cultura de nicho, contudo, o mistério que envolve a disseminação do filme acaba despertando um enorme interesse em milhares de pessoas e, sobretudo, nos que trabalham com publicidade. Como Cayce é uma seguidora e participante ativa das discussões acerca dos fragmentos, ela recebe a proposta de Bigend, fundador da empresa Blue Ant, de desvendar quem está por trás da disseminação do filme.

Pattern Recognition by Mitsuko Yumi
Pattern Recognition by Mitsuko Yumi

A partir desse momento, Cayce terá que lidar com vários perigos e enfrentar a falta de privacidade causada pelo seu trabalho, afinal, o filme é o principal elemento de um culto que desperta o interesse de hackers, fanboys, espiões, grandes milionários e chefes da máfia russa, colocando Cayce apenas como uma parte do quebra-cabeça no meio de tantos interesses, sobretudo, financeiros.

Nesse aspecto, William Gibson conseguiu tecer uma crítica à nossa sociedade de consumo. Em nosso mundo, não é difícil achar exemplos de objetos que são admirados como uma criação divina e nada mais são do que uma forma de ganhar dinheiro e, quando não são, se tornam com o tempo apenas um produto comercial. A crítica é ainda mais efetiva porque o autor situa esse consumismo dentro da própria arte, pois os fragmentos são descritos como belas fotografias de alguém talentosíssimo.

Outra crítica incisiva do autor é em relação ao fanatismo pós-moderno, transformado em apofenia pela nossa cultura, ao cultuar incessantemente percepções e conexões entre fenômenos que não possuem relações nenhuma entre si. Essa apofenia é caracterizada no livro como aguda e se expressa principalmente na mãe de Cayce que, não satisfeita com o desaparecimento de seu marido no atentado às Torres Gêmeas em 11 de Setembro, acredita poder se comunicar com o espírito dele através de gravadores de fita e outros dispositivos eletrônicos.

É muito difícil terminar a leitura de um livro como este e não se questionar em que mundo estamos vivendo. Nesse sentido, o livro também nos traz questões existenciais e nos coloca na situação de sujeitos pequenos e limitados, tanto pelo sistema atual em que vivemos quanto pela nossa condição de ser humano, em que precisamos constantemente buscar explicações para a nossa existência, por mais que elas pareçam banais.

Reconhecimento de Padrões é o primeiro livro da trilogia Blue Ant, continuada em Território Fantasma e História Zero, que traçam um panorama do século XXI. Em obras como Neuromancer, Count Zero e Monalisa Overdrive, da cultuada Trilogia Sprawl, o autor conquistou um legado de fãs e serviu como inspiração para obras como Matrix e Ghost in The Shell, além de ter contribuído para a disseminação dos subgêneros cyberpunk e steampunk.

Ficha Técnica

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Título: Reconhecimento de Padrões
Título Original: Pattern Recognition
Autor(a): William Gibson
Editora: Aleph
Tradução: Fábio Fernandes
Edição: 2013 (2ª)
Ano da obra / Copyright: 2003
Páginas: 416
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
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One comment

  1. Os sistemas de reconhecimento de padrões são cada vez mais importantes, não só na informática mais na industria e as empresas de serviços. O reconhecimento de padrões serve para os sistemas de visão e segurança, mais também para a industria agroalimentar, para a medicina e, além disso, para industria toda. Utilizar os avanços da informática na economia é uma das soluções para o pais.

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