| Resenha | O Pacifista, de John Boyne

Soldados alemães na I Guerra Mundial comemorando o Natal na trincheira / Imagem: Google

[…] E eu tentei esquecê-lo, tentei me convencer de que era assim mesmo, paciência, mas é uma tarefa difícil já que, enquanto o meu corpo está aqui, a dois metros e meio de profundidade na terra do norte da França, o meu coração continua onde o deixei semanas atrás: à beira de um córrego numa clareira da Inglaterra.
John Boyne, O Pacifista, pág. 167.

Dos períodos históricos mais marcantes, eu sempre sou atraído para as duas grandes Guerras e sua vasta destruição. Desta forma, os livros ambientados neste período sempre são priorizados. Como muita gente já sabe, John Boyne é um dos autores que mais possui romances ambientados nesse período, e o seu mais popular é O Menino do Pijama Listrado, que ainda não li. No entanto, O Pacifista é apenas o segundo livro dele que leio — o primeiro foi Fique onde está e então corra. Diferente da primeira leitura, que é voltada para o público infantojuvenil, O Pacifista possui uma abordagem bem mais adulta e comprometida com os acontecimentos das trincheiras. Isto porque ele é narrado por um dos soldados que vivenciou todo o horror que pode ser uma guerra.

O protagonista de O Pacifista é Tristan Sadler, 20 anos, sobrevivente da I Guerra Mundial. A história é contada em dois momentos: o primeiro, em 1919, quando Sadler decide sair de Londres para Norwich, com o propósito de entregar algumas cartas para Marian Bancroft, irmã de Will Bancroft, que lutou com ele durante a Guerra, em 1917. Este período de guerra, 1917, é o segundo momento da narrativa. É nele que Tristan lembra do treinamento em Aldershot e de como conheceu Will, desenvolvendo aí uma amizade.

Soldados da Primeira Guerra Mundial
Soldados da Primeira Guerra Mundial

Apesar de ser uma informação que só tomamos conhecimento na metade do livro (mesmo com o spoiler do título e sinopse), quando a Guerra se iniciou, Will se declarou um Objetor de Consciência, ou apenas Pacifista, que é quando o soldado não se recusa a ir para a Guerra, mas, mesmo naquele ambiente hostil, se recusa a pegar em qualquer tipo de arma que possa ferir alguém. Essa decisão não foi bem aceita, como já era esperado, e Will foi tomado como traidor, envergonhando e desonrando sua família.

Afinal, para que nós fomos treinados senão para matar outros soldados? A cor da farda não importa. Todas elas são pardas no escuro. (p. 101)

Objetor de ConciênciaMesclando estes dois momentos, John Boyne apresenta de forma magnífica como a Guerra moldou as personalidades dos personagens em questão. Isto também faz com que, ao passar do tempo, percebamos que as cartas são apenas um pretexto utilizado por Tristan para encontrar Marian. Seu principal motivo faz parte do amontoado de segredos presentes na história. Durante esse encontro, o leitor tem a possibilidade de conhecer um pouco sobre a Inglatera pós-Guerra e de como as pessoas estão se adaptando, em especial os soldados sobreviventes. Apenas como adendo: é interessante perceber também a postura dos homens que por algum motivo não puderam participar das batalhas, como eles se comportam perante a sociedade e vice-versa. E isso é muito triste, pois acabamos por perceber que mais valia morrer na guerra que não participar dela.

“A verdade, Tristan” […] “é que seria melhor para todos nós se os alemães matassem você de cara.” (p. 40)

Apesar de ser uma história muito triste, John Boyne mostra que apesar do ambiente em que estamos inseridos, existirá sempre um momento em que poderemos ser felizes. Os personagens mostram, no seu relacionamento, que a autodescoberta e valorização pode, quando reconhecida, superar qualquer sensação de medo, dor ou desespero. Isso já é uma marca do autor: belas lições tiradas a partir de grandes esforços.

John Boyne
John Boyne

Em relação aos personagens, eles são muito bem construídos. O protagonista, Tristan, apesar dos seus conflitos, é esperançoso e decidido na medida do possível, apesar de ser extremamente solitário. Will é um dos personagens mais fortes e bem decididos (apesar de algumas contradições, rs) do livro, sabendo exatamente o que quer, apesar das consequências que suas escolhas possam trazer. Marian é uma mulher muito à frente do seu tempo, que teve sua personalidade moldada por causa dos acontecimentos (guerra e família), isto na tentativa de preservar a memória do irmão, Will. Os demais personagens, mesmo secundários e pouco evidentes, também possuem características marcantes e bem desenvolvidas.

A edição é linda. E, apesar de alguns amigos meus discordarem, achei a capa incrível. Ela representa toda a sensibilidade que a história exige do leitor. Assim, sensibilidade é a palavra que resume tudo que falei acima. Leiam e tirem suas próprias conclusões!

Não esqueçam de comentar aqui sobre o que acharam da leitura!!

Nota: 💚💚💚💚💛

Ficha Técnica

Clique para ampliar

Título: O Pacifista
Título Original: The Absolutist
Autor(a): John Boyne
Tradução: Luiz Antônio de Araújo
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2012 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2011
Páginas: 304
Leia um trecho: AQUI
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