| Entrevista | Traduzindo Philip K. Dick, parte 01: Ludimila Hashimoto

Ludimila Hashimoto
Ludimila Hashimoto

Ludimila Hashimoto é psicóloga, tradutora, mãe e escritora. Formada em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) acabou mudando para as letras se especializando em tradução e interpretação pela Associação Alumni. Começou a traduzir para a editora Conrad. Hoje, ela já passou por um rol de editoras que só atestam a qualidade do seu trabalho: Aleph, Record, Bertrand, Veneta e Pensamento. Em seu histórico de traduções constam autores como Alan Moore, Terry Pratchett, Neil Gaiman (graphic novels), Steve Berry, Hunter Thompson, William Gibson e, especialmente, Philip K. Dick (PKD).

Hashimoto não só é a pessoa com mais traduções de PKD para o português, como foi a opção de escolha para tradução da primeira biografia do autor lançada aqui no Brasil pela editora Seoman. São assinadas por ela as traduções de Ubik; Os Três Estigmas de Palmer EldritchRealidades Adaptadas; Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial e da biografia A Vida de Philip K. Dick: O Homem que Lembrava o Futuro, de Anthony Peake. Além dessas traduções, foi copidesque de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, traduzido por Ronaldo Bressane.

PKD é um dos nossos autores favoritos, além de ser um dos nomes mais importantes da ficção científica norte-americana. Por isso, convidamos os três tradutores (Ludimila Hashimoto, Fábio Fernandes e Ronaldo Bressane) do autor para o português para falarem da experiência da tradução e de sua relação com a obra philipkdickiana. Confira a primeira entrevista da série de posts Traduzindo Philip K. Dick:


Cooltural Philip K. Dick (PKD) é um daqueles autores que fisgam logo no primeiro contato. Dificilmente alguém que lê um livro dele não fica com vontade de ler mais. Como foi seu primeiro contato com o escritor?
Ludimila Hashimoto – Se Blade Runner não conta, foi O Homem do Castelo Alto, na tradução do Fábio Fernandes. Me identifiquei de cara com a linguagem, a visão de mundo por trás do enredo, o modo como ele descreve o comportamento dos japoneses, a busca pela verdade nas suas variações mais sutis. Nesse livro há vários silêncios tensos que foram meus momentos de deleite, daquela felicidade que sentimos ao encontrar um autor que estava faltando. Era como se eu estivesse lendo alguém do século XXI mesmo, alguém próximo, que eu tivesse conhecido num boteco, escrevendo sobre o que me interessa, do quanto tanta gente se engana, da nossa vulnerabilidade ao tentarmos agarrar o real, o autêntico, um autor sensível às mesmas coisas que me comovem. Ele consegue realizar o trabalho de tornar a realidade irreconhecível. A partir daí, inclusive, o I-Ching foi virando meu oráculo de estimação.

Cooltural – PKD é um autor que não apenas aborda temas complexos, futuristas e existenciais, como possui uma narrativa por vezes não linear. Qual a maior dificuldade ao traduzir Philip K. Dick?
Hashimoto – Para a tradução, o maior desafio é respeitar a linguagem clara, direta e simples dele, sem simplificá-la além da conta. E sem mudar o registro, por exemplo, de uma linguagem informal para uma gíria datada. A narrativa de Dick tem leveza e precisão, e tem atravessado décadas sem perder o frescor. Outra questão está diretamente ligada ao conteúdo e é também um desafio ao tradutor: o que deve permanecer ambíguo, aberto e cujo esclarecimento representaria uma agressão à complexidade do verdadeiro tema do livro. É claro que isso depende da proposta editorial. Eu aceitaria bem uma versão de um romance dele que pusesse as ações no centro do século XXI, algo semelhante ao que ocorre nas adaptações para o cinema ou algo como Décio Pignatari fez em Retrato do Amor Quando Jovem.

Tradutores sonham com louças lavadas?
Tradutores sonham com louças lavadas?

Cooltural – Por tratar de temas complexos, muitos deles de interesse sobre a relação do homem com a tecnologia. O que você aprendeu com PKD e que ficou marcado?
Hashimoto – Seriam inúmeros os exemplos. Algo da minha própria área de formação acadêmica: o desenvolvimento dos testes psicológicos. Busquei a história desses testes para entender o contexto do Teste de Empatia Voigt-Kampff, de Androides Sonham. O diálogo de Joe Chip com a porta que exige pedágio para abrir e fechar, em UBIK, é marcante, e me fez refletir sobre tudo que é intermediado pelo dinheiro e que não deveria ser, como beber um copo de água, estar num pedaço de praia que foi dominado por um hotel de luxo. As memórias inseridas na mente, sem a contrapartida da experiência vivida, em Lembramos para Você, me fez entender melhor a natureza das lembranças e o quanto elas podem compor uma personalidade, mesmo estando dissociadas de fatos e reais.

Cooltural – Qual sua obra favorita do autor? Porquê?
Hashimoto – Fluam, Minhas Lágrimas. São muitos os momentos em que Dick consegue brincar com padrões de relacionamento humano de forma pungente. Nas várias personagens icônicas do livro, ele cola personas familiares, arranca máscaras, revira estereótipos do avesso e pontua tudo com uma delicadeza etérea. E, como em O Homem do Castelo Alto, as reviravoltas não têm fim.

Cooltural – Qual obra ainda não adaptada de PKD você gostaria de ver no cinema ou como série de TV?
Hashimoto – UBIK daria um bom filme, mas eu só ia gostar se mantivessem o tom cotidiano dele, sem pirotecnia. O importante seria a química entre os atores e o ritmo da narrativa. Seria um filme curto.

Cooltural – Um livro philipkdickiano ainda inédito no Brasil e essencial? Porquê?
Hashimoto – Eu não saberia dizer, mas talvez The Divine Invasion. Porque VALIS. Sem trocadilho.

A narrativa de Dick tem leveza e precisão, e tem atravessado décadas sem perder o frescor.

Cooltural – PKD não só teve uma obra vasta, cuja maior parte ainda permanece inédita, como teve uma vida cercada de fatos curiosos. Qual fato da vida dele mais te surpreendeu ao saber, seja o mais curioso ou o mais bizarro?
Hashimoto – São inúmeros também, curiosos, bizarros, absurdos, comoventes, basta ver a quantidade de biografias. O grau de pobreza material por que ele passou, chegando a comer ração de cachorro, segundo pelo menos uma de suas biografias, e acredito. Uma história que me arrepia é a da sua irmã gêmea que morreu bebê, num clima inóspito e numa situação de fome e tristeza aos quais ele sobreviveu, dando margem a especulações, por exemplo, a consequente necessidade dele de entender que papel Jane passou a ter na sua vida, o que levou a temas recorrentes na sua obra, como a questão do duplo, do contraste entre vida e morte, da busca pelo Outro oculto, dos paradoxos que nunca se resolvem ao tentarem se fundir, como no caso dos irmãos Felix e Alys, personagens complementares e conflitantes de Fluam, Minhas Lágrimas.

Cooltural – Está traduzindo ou traduzirá em breve algum livro philipkdickano ainda inédito por aqui? Pode antecipar?
Hashimoto – Não estou, e estou num período sabático de abstinência tradutória no que se refere a ficção.

Cooltural – Qual título você sugere para o leitor que quer começar a ler PKD?
Hashimoto – UBIK, porque o enredo me parece o mais linear, a narrativa é clara, e, ainda assim, o efeito é perturbador e sedutor.

Cooltural – Ludimila, você é a que mais traduziu obras do autor aqui no Brasil. Foram quatro títulos (UBIK, Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, Realidades Adaptadas e Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial), além da biografia A Vida de Philip K. Dick: O Homem que Lembrava o Futuro. Entre os que você traduziu, qual apresentou um desafio maior e porque?
Hashimoto – Em termos de trabalho de tradução, todos representaram o mesmo grau de desafio. Posso eleger UBIK, pelo fato de ter sido o primeiro e, portanto, ter tido que assumir a responsabilidade de dar palavras a uma voz já cultuada por fãs zelosos, um autor cult, de clássicos da FC. Ou Realidades Adaptadas, por entrar no terreno poderoso do cinema na sequência invertida, quando os filmes já haviam sido vistos, comentados, interpretados, e trazer aos leitores tudo o que não está nos filmes, tudo o que é Dick e que jamais será Hollywood. Sendo que Hollywood impregna as mentes.

Cooltural – Como você construiu essa relação tão próxima com a obra dele a ponto de ser a opção de escolha na tradução da biografia?
Hashimoto – Pra começar, rolou a identificação logo com a minha primeira leitura dele. Daí, a cada livro eu me aproximava mais do autor. Essa intimidade cada vez maior com o Dick se refletiu nas traduções, e os editores envolvidos e leitores em geral podem ter se sentido confortáveis com o texto resultante, a cada livro, até que o meu nome ficou associado ao do autor, que virou uma espécie de camarada meu. A partir daí, é uma questão lógica: Quem pode traduzir a biografia é, em primeira opção, quem traduziu mais obras do autor.

Cooltural – Depois de quatro títulos traduzidos, você acha que ficou mais fácil dar a voz a uma narrativa de PKD ou é sempre uma experiência nova encontrar o tom de seus personagens e alternâncias de realidades?
Hashimoto – Além dos quatro, fiz o copidesque de Androides Sonham. Não diria que ficou mais fácil, mas o trabalho foi se inserindo num contexto de relação entre autor e tradutor que influencia o resultado. Mas é sempre uma experiência nova, que exige atenção total. Afinal, não tive acesso às mesmas drogas que ele, às mesmas dimensões pelas quais ele transitou. O que ficou mais simples: Criei um relacionamento com Dick, vislumbrei diversos cantos da sua alma multidimensional, deixei que ele me afetasse, passei a evocar sua inspiração quando precisava, e cada vez mais compreendo sua voz.


Você pode encontrar Ludimila Hashimoto no Facebook, no Twitter e no blog Argamassa Gorda.

One comment

  1. Hey, Ademar.
    Não deve ser um trabalho fácil dar voz a um autor já cultuado, e que principalmente têm livros com mais de uma tradução, o que torna uma tarefa com uma baita responsabilidade, já que vem as comparações e tals.
    Achei muito ilustre a entrevista e adorei saber um pouco mais desse processo e da vastidão do mundo philipkdickiano. Não sou ainda leitor do autor em questão, mas vejo aqui um convite a começar a lê-lo

    P.S.: Me vejo futuramente fazendo outra graduação também, talvez letras, não sei. haha

    Até logo. ^^

    Curtido por 1 pessoa

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