| Resenha | Objetos Cortantes, de Gillian Flynn

Objetos Cortantes, de Gillian Flynn

Frank Curry acha que sou frouxa. Talvez por eu ser mulher. Talvez por eu ser frouxa.
Gillian Flynn, Objetos Cortantes, pág. 08.

Depois de lançar o aclamado Garota Exemplar, Gillian Flynn entrou para a lista das autoras que quase todo mundo pretende ler algum dia. No entanto, Objetos Cortantes é meu primeiro contato com ela. Este é seu terceiro livro publicado aqui no Brasil, apesar de ser seu livro de estreia (e que também possui uma edição pela Editora Rocco, pouco comentada). Por conta da popularidade e do sucesso que foi Garota Exemplar, em especial pela adaptação cinematográfica e pela quantidade de crítica positiva à sua forma de descrever personagens tão humanamente complexos, é quase impossível iniciar uma leitura desta autora sem nenhuma expectativa.

Não é fácil falar sobre os personagens de Flynn, como tem escrito na contracapa “Flynn tem um olhar implacável para a imperfeição humana e para o mal que nos circunda.” (The Washington Post). Assim, esta é a melhor forma de descrevê-los: imperfeitos. Já haviam me avisado que não conseguimos nos apegar com os personagens da autora e que também não podemos confiar neles, mas nada dito pode ser comparado à experiência que tive ao ler esse livro.

Objetos CortantesNarrado em primeira pessoa, temos como protagonista a jornalista policial Camille Preaker. Ela trabalha em um jornal não muito popular em Chicago e seu editor, na tentativa de aumentar o número de leitores, a envia para a pequena cidade Wind Grap, no Missouri, para que ela faça uma matéria sobre um assassinato de uma menina e o desaparecimento de outra, e, se possível, descobrir se existe alguma relação entre os dois casos. No entanto, esse retorno à cidade faz com que Camille relembre como era viver sob o mesmo teto que sua família e de quais as consequências dessa convivência. Enquanto novos fatos sobre os casos vão surgindo, ela acaba se identificando com as vítimas, afetando diretamente na sua relação com a bebida, com sua mãe e consigo mesma.

O que surgiu como uma oportunidade de crescimento e reconhecimento profissional, acabou por colocar em risco a segurança física e mental da protagonista. Mesmo assim, ela decide seguir em frente, acreditando estar preparada para as consequências das suas buscas. Mas mergulhar no seu passado não lhe trará bons resultados. E é basicamente isso que posso falar sobre a história.

Quanto à construção dos personagens, Gillian traz uma protagonista extremamente complexa, mas que de longe é a mais problemática da história. Sua mãe, Adora, é uma das pessoas mais odiosas e cínicas que já conheci, mesmo que na literatura. Mas ela é apenas um reflexo da sociedade em que vive, onde as pessoas preferem fingir que nada aconteceu, à ter que encarar os fatos e suas possíveis consequências. Outra personagem completamente ambígua da narrativa é Amma, meia irmã de Camille. Esta, adolescente, é uma das pessoas mais odiadas e admiradas pelos moradores de Wind Grap, pois aos olhos da mãe ela não passa de uma criança educada e gentil, mas que para os demais, especialmente na escola, é uma das pessoas mais cruéis e frias (além de precocemente sexy), mas que apesar disso é muito admirada. E isto pode ser justificado apenas por pertencer à família mais rica da cidade.

Gillian Flynn

Além dessas reflexões oriundas dos processos de construção familiar (como Adora foi criada e como ela criou as próprias filhas), Gillian Flynn aborda alguns outros aspectos da sociedade que deveriam ser questionados, mas que as pessoas preferem não dar importância. Um dos que mais me chamou atenção diz respeito à profissão de Camille, jornalista. A autora começa como uma leve insinuação, mas evolui para uma crítica direta ao tipo de coisa que esses profissionais se submetem para conseguir uma ótima matéria. Desta forma, fica o questionamento: como pode um profissional só ser bem visto quando consegue “melhor” material sobre a desgraça alheia?

Esta foi uma leitura rápida e me proporcionou um misto de sentimentos conflitantes, pois o leitor se pega questionando algumas atitudes – não só as do livro, mas as nossas próprias – justificadas em nome do amor. Algumas descrições são muito cruas, deixando o leitor nauseado em alguns momentos. O desenvolvimento dos acontecimentos acontece de forma bem linear, apesar de ser crescente. Vi em algumas críticas que as pessoas têm comentado que o final foi corrido, mas eu senti que ele foi necessário, pois a narrativa possui um nível evolutivo. Você se pega buscando por mais e mais, até se deparar com uma torrente de informações. Isso funcionou para mim.

Por conta disto, ainda estou tentando ganhar um pouco mais de fôlego para ler os outros dois livros da autora. Coincidentemente, comecei lendo pela sua estreia, assim, quero continuar lendo na ordem de lançamento original, para que possa acompanhar o crescimento da escrita de Flynn.

Vocês já leram algum dos livros dela? O que acham dos seus personagens? Comentem!

Nota: 💚💚💚💚💛

BookTrailer

Ficha Técnica

Objetos Cortantes, de Gillian Flynn
Clique para ampliar

Título: Objetos Cortantes
Título Original: Sharp Objects
Autor(a): Gillian Flynn
Tradução: Alexandre Martins
Editora: Intrínseca
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2006
Páginas: 256
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
Compare e compre: Buscapé | Amazon

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s