| Entrevista | Traduzindo Philip K. Dick, parte 02: Fábio Fernandes

Fábio Fernandes
Fábio Fernandes. Foto: Ninil Gonçalves

Fábio Fernandes é tradutor, escritor e professor da PUC/SP. Formado em Comunicação, com mestrado e doutorado nessa área, Fábio é um dos mais importantes conhecedores e tradutores de ficção científica para o português. Em seu currículo como tradutor, além de Philip K. Dick (PKD), constam livros de Anthony Burgess, William Gibson, Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Neal Stephenson, Ian McDonald, Terry Brooks, entre tantos outros.

Da obra philipkdickiana, ele já traduziu O Homem do Castelo Alto, considerado a obra prima de PKD, e VALIS. Além disso, Fábio conta com três livros publicados: A Construção do Imaginário Cyber, Os Dias da Peste e No Tempo das Telas, além de contos e outros trabalhos de ficção.

PKD é um dos nossos autores favoritos, além de ser um dos nomes mais importantes da ficção científica norte-americana. Por isso, convidamos os três tradutores (Ludimila Hashimoto, Fábio Fernandes e Ronaldo Bressane) do autor para o português para falarem da experiência da tradução e de sua relação com a obra philipkdickiana. Essa é segunda entrevista da série de posts Traduzindo Philip K. Dick, confira a primeira com Ludimila Hashimoto AQUI.


Cooltural Philip K. Dick (PKD) é um daqueles autores que fisgam logo no primeiro contato. Dificilmente alguém que lê um livro dele não fica com vontade de ler mais. Como foi seu primeiro contato com o escritor?
Fábio Fernandes Meu primeiro contato com a obra do Dick foi com a leitura de O Homem do Castelo Alto, em meados da década de 1980. A tradução da Editora Brasiliense havia acabado de sair, e era basicamente a mesma da Editora Sabiá, na década de 1960 (feita pelo falecido José Sanz, um dos mais competentes tradutores brasileiros, especializado em ficção científica e organizador do Simpósio de FC no Rio de Janeiro em 1968, que trouxe ao Brasil nomes como Arthur C. Clarke e Robert Sheckley), só que atualizada. Eu já tinha ouvido falar dele através do livro Ficção Científica: Uma Épica da Época, de Raul Fiker (L&PM, esgotado), justamente por conta do Castelo Alto.

Cooltural – PKD é um autor que não apenas aborda temas complexos, futuristas e existenciais, como possui uma narrativa por vezes não linear. Qual a maior dificuldade ao traduzir Philip K. Dick?
Fernandes – As referências. Dick escreveu das décadas de 1940 (final) a 1980, e hoje algumas das coisas que ele menciona referentes à contracultura dos anos 1960/70 são obscuras. Mas é sempre um desafio instigante procurar essas referências e aprender mais sobre o zeitgeist no qual ele estava imerso.

Fábio Fernandes e Neil Gaiman
Fábio Fernandes e Neil Gaiman

Cooltural – Por tratar de temas complexos, muitos deles de interesse sobre a relação do homem com a tecnologia. O que você aprendeu com PKD e que ficou marcado?
Fernandes – Com relação à tecnologia eletrônica, computacional ou congêneres, para ser bem franco, nada. Já em química e farmacologia…

Cooltural – Qual sua obra favorita do autor? Porquê?
Fernandes – O Homem do Castelo Alto. É o livro que define o conceito de História Alternativa – e ninguém escreveu uma obra ficcional tão importante sobre a Segunda Guerra Mundial. Em apenas uma página, Dick oferece um vislumbre aterrorizante do que aconteceu com a África nas mãos dos nazistas – e isso foi muito mais eficiente do que centenas de páginas de estudiosos da guerra ou de outros ficcionistas que vieram antes ou depois dele.

Cooltural – Qual obra ainda não adaptada de PKD você gostaria de ver no cinema ou como série de TV?
Fernandes – Eu gostaria muito de ver a trilogia VALIS. Embora seja uma trilogia temática, ou seja, suas histórias não se ligam diretamente, acho que nas mãos de um bom roteirista (Jonathan Nolan, por exemplo, ou melhor, Charlie Kaufman), essas três histórias poderiam ser amarradas e compor um belo mosaico da mente de Dick.

Cooltural – Um livro philipkdickiano ainda inédito no Brasil e essencial? Porquê?
Fernandes – A Exegese. É um livro único, pois apresenta uma espécie de “filosofia selvagem”, além de oferecer um enorme conjunto de dados da biografia psicológica do autor. Ele foi publicado em 2011, com mais de mil páginas – e não está completo (Jonatham Lethem, que assina o prefácio, ajudou a selecionar as partes que entrariam nesse volume, e disse que podemos esperar um segundo volume – só não se sabe quando).

Fábio Fernandes e Timothy Zahn, autor de Star Wars: Herdeiro do Império
Fábio Fernandes e Timothy Zahn, autor de Star Wars: Herdeiro do Império

Cooltural – PKD não só teve uma obra vasta, cuja maior parte ainda permanece inédita, como teve uma vida cercada de fatos curiosos. Qual fato da vida dele mais te surpreendeu ao saber, seja o mais curioso ou o mais bizarro?
Fernandes – As alucinações entre fevereiro e março de 1974 (o evento chamado de 2-3-74). Jamais saberemos se tinham algum fundo de verdade – embora elas sejam explicáveis pela química ou pela psicanálise, eu acho particularmente fascinante a concepção que ele forma (e está exposta toda em VALIS) de que estamos vivendo numa espécie de realidade virtual que oculta de nós o fato de que o Império Romano continua existindo e nos massacra a todos. Pode não ser verdade, mas é uma ideia elegante.

Cooltural – Está traduzindo ou traduzirá em breve algum livro philipkdickano ainda inédito por aqui? Pode antecipar?
Fernandes – Infelizmente não. Fiz uma pausa nas minhas atividades de tradutor em 2015. O burnout está me impedindo de pegar mais trabalhos, e estou me restringindo às aulas (de Narratividade e Roteiro) na PUC-SP. Mas gostaria de traduzir The Transmigration of Timothy Archer, que é o meu favorito depois de O Homem do Castelo Alto.

Cooltural – Qual título você sugere para o leitor que quer começar a ler PKD?
Fernandes – Sugiro começar pelos contos. O volume Realidades Adaptadas, lançado recentemente pela Aleph, contém alguns dos melhores contos dele, como “O Vingador do Futuro” (bem melhor que as duas versões para o cinema) e “Minority Report” (idem). Mas se o leitor realmente quiser começar com uma história longa, então eu recomendo fortemente Os Três Estigmas de Palmer Eldritch. Ou A Invasão Divina. Caramba, é difícil recomendar um só. ☺

Cooltural – Fábio, você traduziu dois dos livros considerados mais complexos de PKD, VALIS e O Homem do Castelo Alto. No entanto, você já traduziu outros grandes clássicos da ficção científica, entre eles Neuromancer e Laranja Mecânica, além de vários outros autores clássicos e contemporâneos nesse gênero. Houve alguma diferença na tradução dos livros do PKD para os demais, em especial com O Homem do Castelo Alto?
Fernandes – Dick não é um autor que ofereça grandes desafios linguísticos, então nesse caso ele foi mais fácil que Gibson ou Burgess. Mas não é um autor simples – VALIS ofereceu desafios bem interessantes em termos históricos, particularmente com relação à cultura californiana dos anos 1960-70.

Cooltural – Você considera esta como sendo realmente a obra-prima dele? Por quê?
Fernandes – O Homem do Castelo Alto é a obra-prima dele, sem dúvida nenhuma. Sem utilizar nenhum dos tropos tradicionais que constituem a maioria dos livros considerados ficção científica, Dick cria uma realidade paralela muito mais forte que qualquer romance distópico mais recente, sem recorrer quase nunca a cenas de violência. Dick quase sempre é metalinguístico nos seus livros: em O Homem do Castelo Alto, ele é de uma delicadeza nipônica ao retratar a obsessão pela perfeição e pelo equilíbrio dos japoneses que invadiram os EUA – bem como o estresse constante dos americanos que são invadidos culturalmente.


Você pode encontrar Fábio Fernandes no Facebook, no Twitter e no blog Different Frontiers.

3 comments

  1. Não entendo essa obsessão que os leitores do K. Dick tem pelo Homem do castelo alto. Com certeza, um livraço. No entanto, identidade perdida, ubik, invasão divina, homem duplo, ovelhas elétricas… e outro ainda, os sobreviventes, que só teve publicação em Portugal, são na minha opinião superiores.

    Curtir

  2. É incrível como essas entrevistas estão aguçando minha curiosidade em relação ao autor. Não conhecia nenhum dos tradutores e nem sabia que na minha estante tinha dois livros traduzidos pelo Fabio, mas estou anotando as dicas dadas e creio que quando for ler algo do autor terei uma “base” melhor. haha
    Esperando a próxima.

    Curtir

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s