| Resenha | Cyberstorm, de Matthew Mather

Cyberstorm (detalhe)

Aquela tempestade estava gerando medo nas pessoas, despertando seu instinto de sobrevivência. A lei havia sido infringida, mas não a ordem. Regras eram feitas para manter uma comunidade, e, naquele momento, a comunidade precisava infringir as regras para sobreviver, estava aplicando seus próprios recursos de emergência.
Matthew Mather, Cyberstorm, pág. 153.

Você consegue se imaginar ficando sem internet por um dia? E por uma semana? Um mês? Ou você é daqueles que não está nem aí pra isso? Mas se além da internet, você ficasse uma semana ou um mês sem energia elétrica? E sem água? É a partir de perguntas como essas que Matthew Mather constrói parte da trama de seu livro Cyberstorm, recém lançado aqui no Brasil pela editora Aleph. A proposta do autor para este livro parte da premissa de que estamos todos cada vez mais conectados e dependentes de tecnologias que exigem algum tipo de conexão ou que obedecem a comandos via internet. Isso inclui desde serviços logísticos, como fazer uma compra num supermercado, até os serviços de fornecimento de água, luz, gás, etc., que nas grandes cidades estão cada vez mais automatizados.

A partir desse questionamento, o autor imagina o que aconteceria se houvesse um colapso digital em New York, resultado de um ataque direto aos sistemas da cidade. Como se não bastasse, o ataque acontece às vésperas de uma das maiores nevascas que New York já viu. A trama desenvolvida no livro segue um caminho que envolve teorias conspiratórias e a teoria do caos, também explorada em Jurassic Park, de Michael Crichton. Nessa teoria entrópica, tudo no universo caminha para o caos e para a desordem, assim, tudo que é ruim pode ficar pior. E é exatamente isso que acontece em cada reviravolta do romance. Quando você acha que as coisas começarão a ficar bem, elas pioram. A sensação durante a leitura é angustiante.

Tempestade de neve em New York, 2006.
Tempestade de neve em New York, 2006.

O romance acompanha o protagonista Mike Mitchell e sua família, além de seus amigos e vizinhos. Mike mora em um prédio de apartamentos, assim, acompanhamos como a série de acontecimentos caóticos afetam a ele e aos demais moradores do seu prédio. Mike é casado com Lauren e tem um filho chamado Luke. Seu melhor amigo e vizinho Chuck é casado com Susie e tem uma filha chamada Ellarose. Essas duas famílias, além dos vizinhos que atendem aos mais variados tipos e estereótipos, representam as muitas maneiras pelas quais as pessoas reagem a situações extremas como essa a que são submetidos. Um dos pontos mais altos do romance é o fato de podermos acompanhar o comportamento de cada personagem e de como o meio e o contexto podem afetá-lo.

Acompanhamos tudo sob o ponto de vista e narrativa de Mike. Preferir uma narrativa em primeira pessoa foi uma boa sacada do autor, tanto pela possibilidade de entrarmos no íntimo de um dos personagens, que poderia ser qualquer um, como por nos fazer ver como uma pessoa pode inferir coisas sobre o comportamento dos outros mesmo que não condiga com a realidade. São questões complexas envolvendo a mais complexa das criaturas: o ser humano. Em alguns momentos, tudo parece exagero, mas lá estão os personagens quase que pedagogicamente explicando que tudo pode sim acontecer na vida real. Se por um lado essas “aulas” feitas deliberadamente me incomodam, por outro fazem com que parte da trama se torne crível e assustadora.

Matthew Mather
Matthew Mather

À medida que o tempo ficcional vai passando, somos colocados diante de vários pontos que suscitam discussões. Como se não bastasse uma baixa nos sistemas de abastecimento, comunicação e fornecimento, o pouco que ainda funciona passa a ser usado para instaurar ainda mais o caos. As rádios passam a anunciar um surto de gripe aviária e outras doenças, sem falar nas especulações que ora atribuem os fatos a um ataque terrorista, ora a um contra ataque que marcaria uma guerra entre os Estados Unidos e a China. Em meio a tudo isso, surgem novos personagens que acrescentam mais drama à tempestade, como é o caso do personagem Damon, de longe o meu favorito. Damon é um jovem que consegue lidar com tecnologias de forma excepcional, além de possuir uma mente equilibrada e sensata. Aos poucos, Damon não só se torna uma esperança em meio à desordem como rouba as cenas (e diálogos) em que aparece.

Cyberstorm é um thriller de ficção científica que não deixa em nada a desejar. Lançado originalmente de forma independente como e-book na Amazon, o livro se tornou quase um viral atingindo uma marca de aproximadamente 1500 downloads em um dia. Como não podia deixar de ser, os direitos para adaptação cinematográfica foram comprados pela 20th Century Fox. O livro em si já possui uma narrativa muito visual, com boas descrições de cenários, personagens e boas cenas de ação, poucas mas suficientes. A ideia de personagens presos em um prédio, cercados por muito gelo, me lembrou muito uma parte do filme O Dia Depois de Amanhã (The Day After Tomorrow, 2004). No entanto, em Cyberstorm tudo parece mais palpável e mais desesperador, algumas cenas beiram o bizarro. Vale muito a pena conferir.

Nota: 💚💚💚💚💛

Ficha Técnica

CyberstormTítulo: Cyberstorm
Título Original: CyberStorm
Autor(a): Matthew Mather
Tradução: Carolina Caires Coelho
Editora: Aleph
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2013
Páginas: 368
Skoob: Adicione
Compare e compre: Buscapé | Amazon

2 comments

  1. Quando recebi Cyberstorm em casa eu logo pensei que seria um livro do qual eu gostaria muito, mas muito mesmo. Lendo sua resenha, quase posso dizer que tenho certeza disso rsrsrs. Gosto muito dessas temáticas de sci-fi, sociedades vivendo o caos e, neste caso, a parte da dependência digital. Sempre acabo ficando com várias pulgas atrás da orelha, pensando que tal e tal coisa poderia mesmo acontecer, enfim, viajo muito! Ah, e gostei de saber que tem cenas de ação em quantidade apenas suficiente – por isso é que eu gosto tanto de ler ficção científica, mas os filmes…

    Beijão, Livro Lab

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    • Oi Aline, Acho que você vai curtir sim, além de uma trama eletrizante e bem rápida, o livro traz várias discussões sobre como usamos as redes sociais e as novas tecnologias. Como estamos cada vez mais dependentes e como tudo pode ser ao mesmo tempo um prazer e um perigo. Depois quero ver sua resenha. Beijão!

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