| Resenha | Onde Cantam os Pássaros, de Evie Wyld

Onde Cantam os Pássaros (Banner)

Outra ovelha, mutilada e coberta de sangue, as vísceras ainda frescas e o vapor subindo dela como um pudim recém cozido. Corvos esvoaçam e crocitam, com os bicos reluzentes, e quando agito meu cajado eles voam para as árvores, observando, abrindo suas asas. Cantando, se é que pode dizer isso.
Evie Wyld, Onde Cantam os Pássaros, pág. 07.

Evie Wyld era uma desconhecida para mim até bem pouco tempo atrás. No entanto, três coisas me motivaram a ler Onde Cantam os Pássaros: (a) ela ter sido incluída pela revista Granta na lista dos melhores jovens romancistas britânicos; (b) os comentários de alguns leitores que se disseram decepcionados; e (c) o fato de ter sido lançado pela editora DarkSide® Books, que sempre publica edições incríveis. A revista Granta é a mesma que escolheu o Daniel Galera como um dos vinte melhores novos escritores brasileiros, cujo talento literário pude atestar com a leitura de Barba Ensopada de Sangue. Saber que Evie Wyld estava na lista britânica da revista, que lança um olhar para o futuro da literatura dita pela crítica como literária, foi motivo de sobra.

Onde Cantam os Pássaros é o segundo romance da autora, que já havia ganhado o prêmio John Llewellyn Rhys pelo seu livro de estreia, After the Fire, a Still Small Voice, ainda inédito por aqui. Apesar do catálogo da DarkSide® Books focar mais em livros populares do terror, fantasia e ficção científica, foi uma escolha muito acertada a publicação deste, que mesmo tendo esse caráter mais literário não foge do escopo de publicação da editora. E quando digo caráter mais literário, me refiro àquela literariedade que alguns críticos exigem, aquele trabalho mais cuidadoso com a escolha e o uso das palavras. Mas esse é um tema que divide opiniões e não vem ao caso aqui.

Evie Wyld
Evie Wyld

Logo de início somos apresentados à protagonista Jake White, que observa os restos mortais de uma de suas ovelhas. Algo vem matando-as cruelmente. Aos poucos o cenário no qual Jake está imersa vai se desenhando. Uma velha fazenda em alguma ilha britânica não nomeada, um lugar bucólico e ermo, onde sua única companhia é seu cachorro, Cão. Seu único “amigo” na redondeza é Don, antigo dono da fazenda onde Jake vive. Certa ocasião uma das ovelhas se atola na lama e Jake recebe a ajuda de Lloyd, um estranho que aparece do nada e com ares de perdido. Sob a ameaça de uma tempestade, ele recebe um abrigo temporário e a contragosto sob o teto de Jake. Junto com Lloyd, vamos entrando na vida dessa mulher misteriosa, solitária e marcante.

Um dos maiores diferenciais do livro é a narrativa peculiar, que se dá de forma não linear e se concentra em três momentos na vida da protagonista. Os capítulos se alternam continuamente entre esses três momentos, vamos nos aprofundando na vida da protagonista aos poucos, como uma dose de whisky puro tomada em pequenos goles.

No tempo presente, conhecemos uma Jake soturna, marcada por um passado cruel e desolador, uma mulher que não só desistiu do convívio humano como não vê mais prazer nas pequenas coisas, nem mesmo se dá ao trabalho de nomear o seu Cão com um nome menos óbvio. Em seguida, conhecemos uma jovem em fuga, que vai parar num ambiente majoritariamente masculino e cuja aventura vamos acompanhando numa narrativa às avessas que caminha para o passado. E por fim, uma garota que vai crescendo num ambiente familiar decadente e que conhece desde cedo o lado mais visceral e cru da vida, nada apropriado para alguém da sua idade.

Evie Wyld cria uma protagonista marcante, propositalmente superficial, dona de um mistério que só pode ser desvendado pela vontade do leitor. O livro é cheio de metáforas e críticas que justificam qualquer aposta que se coloque na autora como alguém capaz de manipular as próprias palavras. Enquanto Jake ajuda Lloyd a se encontrar, ela mesma consegue vencer sua sensação de estar perdida. Se de um lado as cicatrizes em suas costas insistem em lhe lembrar de um passado insólito, Lloyd é a representação de que o ser humano não é só crueldade, e que podemos encontrar esperança nos lugares mais remotos e desesperançosos.

Além de todo esse drama, há uma presença aparentemente sobrenatural e cósmica rondando a fazenda de Jake e matando suas ovelhas. A fera que não é especificada (me lembrou muito do mito do lobisomem) é não só um elemento do real maravilhoso como também é mais um chamado para aqueles que carregam traumas nas costas para enfrentarem os monstros ao seu redor. Após a leitura, não é difícil entender porque o livro pode não agradar a um público específico, contudo não é um livro ruim. É preciso se doar, ter estômago e ir além. Dispa-se dos pudores e vá em frente, Evie é uma autora para ler e ficar de olho.

Nota: 💚💚💚💚💛

Book trailer

Ficha Técnica

Onde Cantam os PássarosTítulo: Onde Cantam os Pássaros
Título Original: All the Birds, Singing
Autor(a): Evie Wyld
Tradução: Leandro Durazzo
Editora: DarkSide® Books
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2013
Páginas: 240
Skoob: Adicione
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