| Conto | Sem Lenço, Sem Documento, de Maurício Coelho

Paris 3015 by Maronski
Paris 3015 by Maronski

Os raios solares brilhavam com todo o seu esplendor sobre a cidade de Paris. Grande parte dos franceses usava bermudas e roupas leves; algumas mulheres, de cabelos presos, usavam vestidos e poucas se arriscavam com uma calça comprida jeans, abanando-se com um leque. Não era nem mesmo aconselhável usar maquiagem nesse calor. Rodrigo Leão estava tranquilo quanto a esse clima, afinal havia nascido no Brasil, país de temperatura elevada, principalmente no nordeste, região onde ele nascera. Ex jogador de futebol, Rodrigo Leão se aposentou aos 32 anos. Era negro, lábios grossos, cabelo curto, quase careca. Mudou-se para Europa aos 34 anos e mora em Paris há mais de dois anos.

Esperava seu almoço no Restaurant Polidor, local onde Woody Allen filmara certa vez, mas Rodrigo não tinha como saber disso, pois ninguém mais assistia a filmes ou lia livros. Finalmente o pedaço de carne com um pouco de salada e nenhum arroz chegou, junto com seu vinho branco gelado. Apreciava a boa comida enquanto se admirava com os elegantes passos de uma jovem parisiense. Limpou sua boca com um lenço e tomou um gole do saboroso vinho branco. Venho para França e insisto em tomar vinho nacional, Rodrigo brincava consigo mesmo.

Pagou a sua conta no cartão e estava para ir embora quando um casal de brasileiros o abordou. O sotaque deles de Minas Gerais era reconhecível em qualquer lugar, até mesmo em outro continente.

– Rodrigo Leão! – gritou o marido. – Rodrigo, posso tirar uma foto?

Rodrigo Leão fez que sim com a cabeça.

O marido se virou para um garçom e pediu em francês, com um horrível sotaque se poderia tirar uma foto deles. Por sorte o garçom entendeu.

O casal agradeceu e Rodrigo se retirou.

Grande parte dos europeus não reconhecia o ex jogador da seleção brasileira. Ou sequer reparam em mim, pensou Rodrigo. Por isso era certeza, tão certo quanto uma cena chuvosa em um funeral de filme norte-americano, que toda vez que alguém se aproximava, era brasileiro.

A vida na França é ótima. A saúde funciona, a segurança funciona, até os metrôs funcionava. Se Rodrigo pudesse, teria se mudado mais cedo para Paris. Para relaxar costumava ir ao Center Louvre – local onde ficava o antigo e esquecido Museu do Louvre – comprar roupas e sapatos novos. Ele ainda se lembra de quando era um favelado e um dos seus passatempos era perder tempo no shopping, olhando para as vitrines do quarto andar. Não se atrevia nem mesmo a entrar na loja com medo de ser expulso. Agora se quisesse poderia até mesmo comprar uma loja.

Saiu do shopping com duas sacolas da Oirogerg. Se um trabalhador comum desejasse comprar uma camiseta dessa loja, precisaria trabalhar mais de 200 horas para isso.

– Para onde? – perguntou o tecnotáxi na língua francesa e inglesa quando Rodrigo Leão entrou no veículo.

– Para Avenue Champs Elysées, 8079 – ele respondeu em um tom neutro.

O tecnotáxi alçou voo e em 20 minutos Rodrigo chegou ao local.

Assim que Rodrigo Leão inseriu a chave biométrica em seu apartamento, o robô veio recebe-lo e anunciou que ele tinha uma mensagem de voz não lida.

– Ler – Rodrigo Leão respondeu, em voz alta.

– Oi, Leão – a voz pertencia ao seu irmão Cordero. Rodrigo reconheceu de imediato. – É a mamãe, ela… ela está ruim. O quadro dela pareceu piorar e agora ela colocou na cabeça que em breve irá morrer e quer te ver. Então se você puder vir para cá, tenho certeza que ela irá gostar e você poderá voltar para Europa na mesma semana. Tenho certeza que isso não é um problema, afinal quem tem grana…

– Parar – disse Rodrigo e a gravação cessou.

Ele detestava ir para o Brasil. Só de encontrar novamente com todas aquelas pessoas. Pessoas ignorantes, pessoas fanáticas por ele que tiravam fotos com ele ou de qualquer coisa que ele estivesse fazendo. Rodrigo até estava prevendo a notícia nos homeojornais:

EX JOGADOR DA SELEÇÃO BRASILEIRA RETORNA AO SEU PAÍS DEPOIS DE MAIS DE QUATRO ANOS.

Ele suspirou. O que poderia fazer? Não poderia recusar o pedido da sua mãe, era egoísmo. Acessou o Li-Fi no seu handnote e descobriu um avião com voo direto para Natal disponível somente no dia seguinte às 11h.

– Ligar para Cordero – ele ordenou para o robô.

– Ligando para Cordero – o robô repetiu e logo em seguida ouviu o som monótono da ligação sendo realizada.

Em linhas gerais ele perguntou como estava a situação com Cordero e a mãe deles. Perguntou como seu irmão estava lidando com a situação, ele respondeu que estava fazendo o melhor do possível e havia se apegado muito a Deus. Rodrigo respondeu que isso era bom, apesar de ser agnóstico. Quis saber sobre a namorada de Cordero, ele respondeu que haviam terminado há um mês. Por fim, ele falou sobre o voo e disse que chegaria ao Brasil por volta das 18h. Cordero iria buscá-lo e Rodrigo desligou com um neutro “até logo”. Não esperou pela resposta de seu irmão.

***

Futuristic Paris by Ken Lebras, France
Futuristic Paris by Ken Lebras, France

Rodrigo Leão mostrou o seu voucher da passagem que comprara online para fazer o check-in. O leitor da máquina leu o código e ele seguiu para entregar as malas.

O relógio holográfico indicava 09h15. Ele ainda iria esperar por quase duas horas. Pelo menos fiz uma boa refeição antes de sair, ele pensou. Não comprava nada para comer no aeroporto por causa dos preços absurdos e sempre trazia um lanche consigo antes de embarcar. Ele nunca gostou da comida do avião. Até um papelão é mais gostoso do que isso, ele brincou certa vez ao viajar.

Dentro do avião, ele se agasalhou confortavelmente na cadeira de primeira classe. Estava para entrar no mundo de Wonderland se não fosse pelo toque de uma mão gelada no seu pulso.

– Desculpe – a velha senhora que tocara no seu pulso disse. – Posso tirar uma foto com você?

Rodrigo apenas balançou a cabeça em afirmação.

A velha senhora posicionou a câmera frontal do aparelho e tirou uma foto.

– Obrigada – disse, por fim.

Só espero que possa dormir agora, pensou quanto fechava os olhos.

Abriu os olhos graças ao aviso do piloto de estarem quase aterrissando no destino final. Pela janela, Rodrigo Leão avistava os enormes prédios da cidade de Natal.

Ele se levantou e saiu apressadamente do avião. Ainda teria que apresentar o passaporte novamente à polícia federal e perder grande tempo em uma fila quilométrica. Se Rodrigo conhecesse Darwin através de leituras, certamente iria citá-lo: o homem que desperdiça uma hora de seu tempo não descobriu o verdadeiro valor da vida. Mas não era culpa dele passar por aquilo, ele era obrigado.

– Veio fazer o que no Brasil? – perguntou o policial de meia-idade e bigode natural, semelhante ao de Stalin, analisando os documentos dele. Ele não parecia reconhecê-lo.

O ex jogador havia tirado nacionalidade francesa, a pergunta feita pelo policial era incomum, mas não improvável. Rodrigo achou estranho ter que se justificar no seu próprio país.

– Eu vim ver a minha mãe. Ela está doente. Ficarei poucos dias. Ainda não comprei a passagem de volta, mas provavelmente voltarei na terça para França – Rodrigo respondeu, tranquilamente.

O policial se virou e falou algo no seu walkie-talkie. Rodrigo não conseguiu compreender. O policial analisou mais uma vez os documentos e o liberou, mas não sem antes mostrar o aviso:

SEM DOCUMENTOS VOCÊ NÃO É NINGUÉM. ANDE SEMPRE COM ELES.

– Obrigado – Rodrigo respondeu, guardando seus documentos.

***

Natal, RN, Brasil
Natal, RN, Brasil

– Leão! – gritou Cordero assim que avistou o irmão saindo do desembarque. Cumprimentaram-se e Cordero continuou. – Gostei dessa tua roupa nova.

Rodrigo olhou para o que estava vestindo, para se lembrar o que colocara no corpo. Eram as roupas novas da Oirogerg.

– Obrigado. Como está a mamãe?

– Você irá vê-la.

Entraram no tecnotáxi e foram em rumo ao bairro Felipe Camarão. A casa de Cordero não havia mudado nada nos últimos anos. A mesma tinta amarelo-claro continuava empregada nas paredes. As pichações ainda estavam presentes. Apenas a maçaneta foi trocada.

– O que aconteceu com a outra maçaneta? – perguntou Rodrigo. – Quebrou?

– Antes fosse. Fomos assaltados mês passado. O ladrão tinha uma cópia da chave. E o pior que eu tinha perdido as chaves em algum lugar. O jeito foi trocar a maçaneta.

Rodrigo fez uma cara de espanto enquanto Cordero abria a porta à sua frente.

– Ela gosta de ficar no quintal lá de trás, lembra? Deve estar lá agora – disse Cordero.

Passaram pela cozinha e pelo corredor até chegar ao quintal. A mãe deles, Dolores, estava lá. Sentada em uma cadeira de balanço. Ela olhava os pequenos insetos na grande castanhola. Nem percebeu quando seus filhos chegaram.

– Mãe? – Rodrigo perguntou.

Ela virou sua cabeça debilmente para a direção que escutara a voz dele. Ao olhar para o rosto de Rodrigo, Dolores pareceu ter um pequeno vislumbre, mas não o reconheceu.

–  Sou eu. Rodrigo, seu filho – ele disse, agachando-se para perto dela.

–  Ela não irá te reconhecer agora, mas isso não te impede de falar com ela. Pode voltar daqui a uns minutos quando ela tomar os remédios – a fala de Cordero parecia de um enfermeiro.

–  Acho que vou ficar aqui um pouco – Rodrigo respondeu.

***

–  Será que ela vai mesmo me reconhecer? – perguntou Rodrigo enquanto se servia de bolachas.

– Quando ela tomar os remédios. Daqui a pouco ela vai tomar outra dose – respondeu Cordero olhando para um grande relógio digital pendurado na parede.

Quando o relógio digital marcou exatamente às 20h, Cordero levantou-se para dar os remédios à sua mãe. Eram três cápsulas coloridas que Dolores teve que engolir com água. O efeito dos remédios era quase de imediato e o brilho dos olhos dela retornaram.

– Rodrigo? – ela gritou. – Rodrigo Leão? É você? Ah, venha aqui! O que está fazendo aqui?

Ele abraçou sua mãe carinhosamente e disse:

– Você me chamou aqui. Lembra?

– Ah! – fez Dolores. – Na verdade eu não lembro.

– Não tem problema, mãe. Estou aqui agora.

***

Praia da Ponta Negra, Natal, RN, Brasil (Foto: Beraldo Leal)
Praia da Ponta Negra, Natal, RN, Brasil (Foto: Beraldo Leal)

Já eram quase meia noite no handnote de Rodrigo e eles nem perceberam que já era tão tarde. A conversa seguia calorosamente. Dolores perguntava como eram as coisas na Europa e Rodrigo perguntava como estavam as coisas no Brasil. A troca de diálogos fez com que o tempo acelerasse. Quando cessaram a conversa, eles se prepararam para uma boa noite de sono.

Ao despertar, Rodrigo comeu um pão massa grossa com leite gelado. Mal teve tempo de fazer a digestão e Cordero o chamou para ir até a farmácia da esquina comprar remédio para a mãe deles. A farmácia estava com muitas promoções e Rodrigo pensou que talvez estivesse falindo. Ofereceu-se para comprar o remédio, Cordero entregou as especificações e Rodrigo se dirigiu até o balcão.

– Olá. Me vê um Mensoxiphan, por favor? Acho que é assim que se fala.

A funcionária negra digitou rapidamente no computador e foi pegá-lo.

– Trinta reais, senhor.

Rodrigo entregou o dinheiro trocado.

– Documentos, senhor – disse a funcionária.

– Ah, mas eles não são para mim.

– É preciso dos documentos, de qualquer forma, para registrar no sistema.

Rodrigo Leão tateou os bolsos da calça. Não encontrou sua carteira com os documentos, apenas alguns trocados. Será que se esqueceu em casa?

– Desculpe, mas não estou achando. Será que não pode deixar essa passar? Afinal, você deve saber quem sou – ele disse brincando, mas a funcionária permaneceu séria.

Cordero apareceu logo atrás do seu irmão e ele lhe explicou a situação. Cordero entregou os documentos dele e Rodrigo pagou.

– Devo ter esquecido os documentos. Aquela mulher nem me reconheceu – comentou Rodrigo para seu irmão.

– Nem todo mundo gosta de futebol, irmão – respondeu Cordero.

***

– Quem é você? – perguntou Dolores, vagarosamente, igual a Lagarta Azul.

– Tenho que mostrar os documentos para você também, mãe? – brincou Rodrigo.

– Vou preparar um cocktail com mais esses novos remédios e dar para ela – disse Cordero.

– Acha mesmo que ela já irá morrer? Ela parece tão bem para mim.

– Não sei, mas é verdade que ela pareceu mais viva quando ela te viu, porém não sou Deus para saber do futuro.

Depois de Dolores ter tomado o cocktail, novamente os irmãos aproveitaram para dialogar com sua mãe. No entanto, não demorou muito para que Rodrigo lembrasse de verificar seus documentos. Não poderia perdê-los. Pediu licença e foi procurá-los.

Meia hora depois de uma busca em vão, Rodrigo ainda não tinha encontrado nada e estava desesperado. Pediu ajuda do seu irmão e ele rapidamente os encontrou atrás da cama. Rodrigo guardou-os no bolso e não ia tirá-los de lá jamais.

Rodrigo Leão pegou um tecnotáxi para ir até o Aeroporto Internacional Governador Aluízio Alves comprar uma passagem de avião, pois Cordero não tinha nenhum ponto de acesso Wi-Fi. Menos da metade do trajeto, um ponto policial obrigou o tecnotáxi de Rodrigo a aterrissar. O policial Anderson pediu os documentos de Leão que os entregou de imediato. O policial foi  conferir os seus dados dentro de um veículo da polícia.

– Senhor, saia do veículo, por favor – disse o policial ao retornar para o tecnotáxi.

– Sim? – perguntou Rodrigo ao sair do transporte.

– Você está preso – o policial disse sem cerimônias e obrigou Rodrigo a se virar para colocar as algemas.

Na delegacia da Rua Campo Maior, Rodrigo tinha direito a uma ligação.

– Eles me prenderam, Cordero. Disseram que meus documentos eram falsos, disseram que não era meu nome, algo com a foto errada. Não sei. O que está acontecendo? Isso só pode ser pegadinha. O SBT está sem audiência de novo e fica fazendo isso? Venha até aqui me buscar. Deve ser financiável com certeza, de qualquer modo venha até aqui, por favor – Rodrigo desligou o telefone abruptamente.

O mesmo policial que o prendera, veio buscá-lo para levá-lo até sua cela.

– Você não me reconhece? Sou um ex jogador da seleção brasileira.

– Ex jogador? – perguntou o policial Anderson.

– Sim! Ex camisa nove…

– Ei! Vocês ouviram essa? – interrompeu o policial, gritando para seus colegas de trabalho. – Esse sujeito diz ter jogado na seleção!

Todos os policiais e funcionários riram em uníssono.

– Isso é uma piada? – gritou Rodrigo Leão.

– Só se você for a piada – respondeu o policial.

Uma hora havia se passado e nada do seu irmão aparecer. Rodrigo estava angustiado. Estava em uma cela sozinho. Se estivesse com uma bola de tênis, provavelmente já estava louco.

Outra hora se passou e sem nenhum sinal de Cordero. Rodrigo chamou pelo policial Anderson.

– O que é? – perguntou, irritado.

– Eu não sei – Rodrigo respondeu, apreensivo. – Posso ligar novamente?

– Deixa que eu ligo para você. Qual o número?

– 32720388. Obrigado.

Rodrigo calculou que o tempo de nove chamadas havia se passado e nada de atenderem.

– O número chamado não existe – disse o policial imitando a gravação telefônica.

– Tente de novo. O número está certo.

– Meu amigo, eu já tentei várias vezes. Esse número não existe. Não acredita em mim, disque você mesmo. – O policial encaminhou Rodrigo até o telefone para que ele pudesse ligar.

Realmente o número que Rodrigo estava ligando havia saído do ar. Ele estava confuso. Será que isso foi uma peça de seu irmão? Eles nunca se davam bem e viviam se estranhando quando crianças, quase como Thor e Loki, mas aquilo passara. Seria possível que Cordero tivesse trocado os documentos? Não, Rodrigo viu quando Cordero achou os documentos. Não daria tempo para trocá-los. Ou daria? E esse número fora do ar? Leão tinha acabado de ligar para ele e agora nada. Por que estaria fazendo isso com ele? Já estava na hora de parar com as brincadeiras infantis.

***

Rodrigo Leão dormiu na prisão, mas quando acordou teve uma surpresa. O cadeado havia sumido e a porta estava encostada.

– Policial? – obviamente Leão perguntava pelo policial Anderson, mas logo se arrependeu. Sorte ninguém ter escutado.

Leão abriu a porta e fugiu da delegacia. Tinha vontade de sair correndo pela Rua Campo Maior, mas não queria levantar suspeitas, tão pouco chamar a atenção. Tateou os bolsos e ainda conseguiu encontrar alguns trocados. Por sorte iria comer alguma coisa.

Entrou em uma lanchonete pequena e pediu pelo cardápio. Seu pouco dinheiro dava para pedir um misto quente e ainda sobrava troco. Chamou a garçonete e perguntou se ela o reconhecia, mas a moça meneou a cabeça. Fez o pedido e aguardou.

Limpou sua boca e seus dedos com um lenço que estava na mesa. Foi até o caixa para pagar pela refeição. Fez a mesma pergunta. Você me conhece? O homem que estava no caixa também respondeu que não.

Eu enlouqueci? Rodrigo se perguntava enquanto seguia sem rumo. Estou sonhando? Se estiver, é um sonho muito longo, sem dúvida. Ele continuou caminhando contra o vento até encontrar um telefone público. Discou o mesmo número da sua casa. Em vão novamente. Poucos minutos e já estava exausto dessa loucura. Pensou em pegar um ônibus até sua casa, mas ficou com medo de descobrir uma resposta desagradável. E se nem seus parentes o reconhecesse?

Sentou em um banco e observava as pessoas indo e vindo. Nenhuma sequer olhava para ele e as poucas que faziam, não o reconhecia, era só mais um rosto no meio de tantos. Um ônibus parou à sua frente com um cartaz colado nele:

SEM DOCUMENTOS VOCÊ NÃO É NINGUÉM. ANDE SEMPRE COM ELES.

Leão tomou coragem e subiu ao ônibus.

A sua casa ainda estava lá. Será que era mesmo? Rodrigo se atreveu a tocar a campainha e aguardou. Esperou. Um minuto. Dois minutos. Tocou a campainha novamente. Ouviu passos. Era agora. Iria descobrir…

– Sim? – perguntou uma mulher de olhos castanhos e cabelos longos e negros.

– Desculpe, acho que me enganei. Aí mora alguma Dolores com o seu filho? Essa senhora está doente…

– Não. Deve ter sido engano – a mulher respondeu, docemente.

– Tudo bem – retrucou Rodrigo, tristemente.

Será que era isso? Rodrigo deixara de existir? Virara uma não-pessoa? Sentou-se no meio fio, sua mente rodeada de pensamentos paranoicos.

O tempo estava mais lento do que um caramujo, mas finalmente a noite chegou. Uma noite sem lua. Rodrigo se levantou e no alto de um edifício, um outdoor chamou sua atenção:

SEM DOCUMENTOS VOCÊ NÃO É NINGUÉM. ANDE SEMPRE COM ELES. 

Ele fechou o rosto em lágrimas e não tinha como enxugá-los. Estava sem lenço e sem documentos.

Autor Convidado

Maurício Coelho nasceu em Belém, PA, em 1992. Graduado em Licenciatura em Ciências Biológicas, publicou a tradução de The Nursery Alice (A Cuidadosa Alice) de Lewis Carroll. Publicou poemas e contos com outros autores e organiza antologias de modo independente, tendo já lançado a Maravilhosas Distopias, Épicos Homéricos (no prelo) e Seres Amazônicos (no prelo). Também publicou uma coletânea solo de histórias chamada Fogo Fátuo. Contato com o autor: moccoelho@gmail.com

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s