| Resenha | O Último Policial, de Ben H. Winters

O último policial (detalhe da capa)

– Não entende, filho? Se alguém faz qualquer coisa, não importa o que seja, há um motivo. Nenhuma ação é divorciada do motivo, nem na arte, nem na vida.
Ben H. Winters, O Último Policial, pág. 113.

A primeira vez que ouvi falar de Ben W. Hinters foi em 2014. Na ocasião, ele disputava como finalista do Philip K. Dick Award com o livro Countdown City. Fiquei bem curioso para conhecer seu trabalho, em especial por ter sido ele a ganhar o prêmio. Como grande fã de Philip K. Dick, gosto de acompanhar a competição para conhecer um pouco mais do que tá sendo produzido de ficção científica atualmente. Mas antes mesmo de flertar com a ficção científica, Winters já havia sido publicado por aqui com sua paródia Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos (Ed. Intrínseca, 2011).

Ben H. Winters é um escritor versátil e com interesse nos vieses especulativos da ficção. Com isso, quero dizer que ele não se limita apenas a um gênero ou público, nem demonstra pretensões de se especializar em um ou outro. Não obstante, seu trabalho na literatura é composto por peças de teatro, obras infantis, romances adultos de ficção científica, paródias de clássicos e até poesia. Obviamente meu olhar estava para a incursão dele pela ficção científica. Felizmente, o primeiro volume da trilogia O Último Policial chegou ao Brasil esse ano pela editora Rocco. Os outros dois volumes, Countdown CityWorld of Trouble, ainda não foram lançados por aqui.

The Last Policeman (Detalhe da capa 02)

No romance, passamos a acompanhar o policial Hank Palace, recém promovido para o cargo de detetive. Essa promoção daria uma grande guinada na vida de Palace, não fosse por um problema. Ele a conseguiu não por ser um dos melhores no que faz, mas por falta de alguém mais competente pra ocupar a vaga. Isso porque a maior parte das pessoas está desesperançada. O motivo? Um asteroide se encaminha para a Terra com previsão de destruição total. A colisão se dará em seis meses. O que fazer até lá? Continuar a rotina e fingir que nada vai acontecer? As questões que tal especulação suscita são muitas, mas vamos por partes.

Embora haja uma catástrofe iminente, a vida continua, pelo menos por enquanto. E o romance tenta imaginar o que as pessoas fariam com uma notícia dessas. Como a sociedade, para além da individualidade de cada um, funcionaria nesse período? Haveria uma crise de histeria coletiva? Como você lidaria com isso? Cometeria suicídio ou aproveitaria a vida ao máximo nesses seis meses? Coloco aqui a opção do suicídio como alternativa, pois essa é uma decisão tomada por muitos dos personagens do romance. Eis que Palace precisa checar um suposto suicídio, mas ele vê algo estranho que faz com ele passe a considerar a possibilidade de assassinato.

Hank Palace não recebe o apoio dos colegas profissionais, que acham uma perda de tempo uma investigação mais aprofundada. Já que mesmo que seja assassinato, em breve todos irão padecer, culpados ou inocentes. Para a maioria, muitas convenções só permanecem em funcionamento para manter uma aparência de que a humanidade sabe lidar com todas as situações, até mesmo com a destruição total. Mas, aos poucos, as pessoas vão sucumbindo à pressão e ao suposto caos e vão tomando atitudes extremas ou fora do que é convencionado pela moral. Enquanto uns tentam ficar próximos daqueles que amam, outro se adiantam ao fim e se suicidam.

Mas Hank não vê a coisa dessa forma. O protagonista é a personificação do ditado que afirma ser a esperança a última a morrer; ou apenas a de alguém que acha que devemos seguir em frente em meio as adversidades. De uma forma ou de outra, Hank é uma daquelas pessoas que tentam se manter na sanidade enquanto tudo ao redor conspira contra. É a mão que traz esperança ao condenado. Dessa forma, ele faz de tudo pra investigar o suposto crime que aparenta suicídio. Ao longo dessa tarefa vamos nos aprofundando na complexidade do personagem, nas suas motivações, o que faz com que haja assim, além de ver como as pessoas ao seu redor estão reagindo: seus colegas, família, amigos, conhecidos, estranhos. Vamos tendo vislumbres de como pessoas diferentes reagiriam a uma situação em comum.

The Last Policeman (detalhe da capa)

O Último Policial não chega a ser uma obra prima, tampouco tem pretensão de se aprofundar em suas duas vertentes: a ficção científica e a literatura policial. Os cenários e ações que se desenvolvem são apenas cenários possíveis usados para discutir o ser humano a partir de um personagem e de como ele lida com determinadas situações em relação aos demais. E até mesmo nesse ponto, o livro não entrega tudo de uma vez, toda a coisa fica dada meio como superficial. Se de um lado isso decepciona, por outro nos impulsiona a continuar lendo para ver aonde tudo isso vai dar. Ou simplesmente para aprender um pouco mais com Hank sobre como nadar contra a corrente.

Não quis falar muito mais do que trata o livro, nem detalhar os personagens. Mas prefiro olhar para os questionamentos que a proposição do livro causou em mim e pode causar em vocês. Dessa forma, se vocês já leram ou vão ler, deixem seus comentários, não só sobre o que acharam do livro, mas sobre o que vem à mente quando imaginam uma situação como essa. O livro de Winters vai direto ao ponto, sem delongas, uma leitura rápida e bem introdutória. Por ter ganhado o Philip K. Dick, e pelo autor não ter se aprofundado mais nesse, acabei criando alguma expectativa para o segundo volume. Espero que chegue logo por aqui. Não deixem de dar um play no book trailer abaixo e vamos conversar sobre esse livro. 😉

Book trailer

Ficha Técnica

O último policialTítulo: O Último Policial
Título Original: The Last Policeman
Autor(a): Ben W. Winters
Tradução: Ryta Vinagre
Editora: Rocco
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2015
Páginas: 320
Skoob: Adicione
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One comment

  1. Hey, Ademar.
    Havia um tempo que lia bastante livros policiais (até comecei a escrever uma crônica sobre…) e gostava bastante, no entanto, esse interesse foi ficando de lado quando passei a notar que eram mais livros de entretenimento, leituras não tão essenciais para minha bagagem. O que me chamou a atenção na obra, além de misturar os dois gêneros F. C. e Policial, foi esses questionamentos que o autor deixa sobre essa possível destruição do livro e acho que deve ser o mais instigante da obra, saber o que vai acontecer. Eu sinceramente não sei se cometeria suicídio, sou medroso e não tenho coragem. Talvez seguisse uma vida de quem não se preocupa com mais nada (embora eu ache que iria esbarrar nessas pessoas/autoridades que continuam no sistema como se nada tivesse prestes a acontecer). Enfim, eu acho que leria sim essa obra e adorei a resenha. ^^

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