| Resenha | João & Maria, de Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti

Joao & Maria (ilustração 02)

Neil Gaiman é um dos autores mais multifacetados que eu conheço. E um dos mais talentosos também. É ainda um daqueles que mais sabe vender seu trabalho. Sabe aproveitar uma ideia nada original (tome adaptação de contos de fadas como exemplo) e torná-la algo encantador e renovado. Já contei aqui meu processo de redenção com o autor, cujo primeiro contato que tive não foi nada satisfatório. Desde a minha primeira incursão com alguns contos do autor, eu pude ir vendo como Gaiman consegue transitar confortavelmente da história em quadrinhos para o romance adulto, passando por livros infantis e infantojuvenis, adaptações e até mesmo sobre o fazer do seu processo criativo.

Antes de criar essa versão para o conto originalmente atribuído aos irmãos Grimm, Gaiman se inspirou nas ilustrações de Lorenzo Mattotti. Um caminho inverso, se considerarmos o que geralmente acontece: de histórias serem ilustradas posteriormente. Lorenzo Mattotti havia criado as ilustrações presentes no livro ainda em 2007, para uma exposição com curadoria de Françoise Mouly, que celebrava a encenação de Hensel & Gretel exibida pelo Metropolitan Opera. Baseado nas representações de Mattotti, Gaiman escreveu sua própria versão sombria dos pequenos irmãos assolados pela fome e abandonados pelos pais. O texto de Gaiman se encaixa perfeitamente aos traços de Mattotti.

Françoise Mouly, Neil Gaiman e Art Spiegelman
Françoise Mouly, Neil Gaiman e Art Spiegelman

João e Maria (Hänsel und Gretel no original) é um conto de fadas de tradição oral, coletado e difundido pelos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm. Por isso, e a exemplo de outros contos de fadas como Bela e a Fera, a história possui várias versões que iam se modificando à medida que iam sendo recontadas. Numa das versões mais conhecidas, João e Maria irritam sua madrasta e como castigo eles são enviados para a floresta. Eles fazem uma trilha com migalhas de pão, mas ao retornarem percebem que as migalhas foram comidas por pássaros e vagam perdidos até se depararem com a casa de doces da bruxa que devora criancinhas. Assim como outros contos, esse originalmente possui uma temática sórdida e assustadora.

Em outra versão, a ideia de levar as crianças para serem abandonadas na floresta vem da própria mãe. Isso partindo da lógica de que em um ambiente assolado pela fome extrema é melhor morrerem dois do que quatro. Talvez seja essa a mais aterrorizante, já que a mãe geralmente se manifesta como o símbolo da proteção. Na versão de Gaiman, o autor prefere trilhar por esse caminho e traz à tona os temas mais pesados do conto de uma maneira que permite o diálogo com vários públicos. Um olhar atento vai se deparar com uma história macabra que trata não só da miséria e da fome, mas do canibalismo como forma de lidar com ela, do instinto animalesco do homem, do egoísmo se sobrepondo à moral, e principalmente do abandono.

Joao & Maria (ilustração)

As crianças do conto de Gaiman não temem o mítico e desconhecido, nem mesmo o sofrimento físico, mas a solidão e o abandono. Quando se deparam com uma casa de doces, eles não hesitam diante do desconhecido, vão logo saciar a fome. Quando a bruxa se mostra uma ameaça, eles tampouco se dão por vencidos ou realmente apavorados. A bruxa da versão de Gaiman não parece ter nada de sobrenatural, além da casa de doces, e se manifesta mais repulsiva por querer comer as crianças, numa representação mais humana do que mítica. As crianças, mesmo cientes do propósito de sua mãe, tentam retornar mais de uma vez para casa. Mesmo com o abandono da mãe, a ideia de um lar mantém viva a esperança de proteção e superação do medo. O pai com seu coração benevolente é a redenção e a mãe é quem recebe a expiação por ser má.

A adaptação de Gaiman não é uma incursão pelo desconhecido. O autor sabe exatamente o que está fazendo, sabe o que colocar e o que deixar de fora. Oferece sua visão do conto na dose certa. Esta não é a única adaptação de contos de fadas feita por Gaiman em parceira com grandes ilustradores. Recentemente foi publicado aqui no Brasil o livro A Bela e A Adormecida (Ed. Rocco) com ilustrações de Chris Riddell. Ambos os trabalhos são certeiros tanto na proposta como pelas sacadas do autor e dos ilustradores. Vale a pena conferir ambos.

E vocês, gostam de contos de fadas? O que acham dessas adaptações? Consideram positivas, por renovar as narrativas clássicas, ou negativas, por inserirem novas perspectivas distintas da proposta original? Comentem!

Nota: 💚💚💚💚💚

Neil Gaiman fala sobre o livro

Ficha Técnica

João & MariaTítulo: João & Maria
Título Original: Hensel & Gretel
Autor(a): Neil Gaiman
Ilustrações: Lorenzo Mattotti
Tradução: Augusto Calil
Editora: Intrínseca
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2014
Páginas: 56
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
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2 comments

    • Oi querida,
      Eu também curti muito o trabalho dele nesse conto. O moço sabe fazer as coisas. Eu estou curioso para ler “A Bela e A Adormecida”, me parece que ele tomou mais liberdade nesse, né? Você já leu?
      Eu achei muito bacana o que ele diz no vídeo sobre a história, e sobre como somos um pouco hipócritas às vezes. Achei que cabia colocar aqui.
      Obrigado pela visita.
      Beijos :-*

      Curtir

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