| Resenha | A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin

Therem Estraven by Alempe (A Mão Esquerda da Escuridão)
FanArt by Alempe (Fonte: Tumblr)

Considere: não existe sexo sem consentimento, não existe estupro. Como ocorre com todos os mamíferos, exceto o homem, o coito só pode ser realizado por convite e consentimento mútuo; do contrário, não é possível. A sedução é certamente possível, mas deve ser tremendamente oportuna.
Ursula K. Le Guin, A Mão Esquerda da Escuridão, pág. 97.

Atualmente, tenho começado a repensar sobre alguns aspectos da minha vida e, a partir disto, tenho questionado meus principais preconceitos. Durante um destes questionamentos, percebi que eu não lia muita ficção científica – até já li alguns clássicos como Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451 e 1984 –. Mas o meu distanciamento não é por não gostar, mas por imaginar que este não é “meu gênero”. Na busca de quebrar um pouco esses preconceitos, fui atrás de histórias de ficção científica que abordassem temas pelo qual eu me interesso, e foi assim que cheguei ao A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin, e percebi que a sci-fi é muito mais interessante do que eu jamais pude imaginar.

Como esta foi minha primeira leitura “oficial” de sci-fi, a ideia de organização do universo ainda é um pouco confusa, uma vez que não consegui fazer muitas associações com espaços já conhecidos e minha habilidade de imaginar ambientes novos ainda é um pouco limitada, mas acredito conseguir apresentar de forma bem simples como o universo criado pela Ursula é organizado. De antemão, gostaria de pedir que se ficar alguma dúvida ou lacuna, deixem nos comentários para que eu possa tentar completá-las.

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Ursula Le Guin em casa em Portland, Origon, California. December 15 2005. (Photo by Dan Tuffs/Getty Images)

Neste universo, onde uma grande quantidade de planetas é habitada e possuem suas próprias leis, existe uma organização responsável por manter a união entre eles, chamada Ekumen – uma espécie de ONU. Partindo disto, temos como protagonista-narrador o emissário Genly Ai, o qual é enviado para um destes planetas que ainda não fazem parte da organização, a fim de convencê-lo a firmar aliança. No entanto, Gethen, também chamado de planeta Inverno, possui não só leis e normas específicas, mas também uma espécie de humano bem diferente dos demais planetas. Isto é, os humanos (homens e mulheres) são um só e nenhum ao mesmo tempo, não possuindo sexo definido e, como resultado, não há qualquer forma de discriminação de gênero.

Como se a missão de conseguir aliança com um planeta que até então não sabia da existência de vida nos demais já não fosse complicada o suficiente, Genly ainda se depara com uma série de conflitos internos relacionados a gênero e sexualidade que, se não forem resolvidos a tempo, podem colocar sua missão e (como sempre) sua vida em risco. Esse perigo iminente é, em especial, em decorrência das difíceis relações entre as duas principais nações de Gethen – Karhide e Orgoreyn ‑, que estão sempre em conflito e associam a presença de Genly circulando pelo planeta, como uma espécie de ameaça. Isso o coloca em perigo, que é catalisado pelo fato de estar sozinho e sem ter a quem recorrer.

Genly Ai e Therem Harth by Frodo Lives (Fonte DeviantArt)
Genly Ai e Therem Harth by Frodo Lives (Fonte: DeviantArt)

Nesta leitura, podemos perceber como os personagens de Ursula são evoluídos, não só nas suas tecnologias, mas principalmente na sua humanidade. Um exemplo simples, sem spoiler, é a própria forma de contato entre eles, onde, diferente do processo de colonização que conhecemos, o Ekumen busca uma troca igualitária de informações, ideias e valores entre os planetas (leia-se: cooperação interplanetária), e não uma imposição aos nativos. Outro ponto forte é a questão dos costumes de Gethen, que são bem específicos e misteriosos, nos levando a problematizar acerca das diferenças (e da aceitação das mesmas).

Considere: qualquer um pode trabalhar em qualquer coisa. Parece muito simples, mas os efeitos psicológicos são incalculáveis. O fato de toda a população, entre dezessete e trinta e cinco anos de idade, estar sujeita a ficar (como Nim definiu) “amarrada à gravidez” sugere que ninguém aqui fica tão completamente “amarrado” como, provavelmente, ficam as mulheres em outros lugares – psicológica ou fisicamente. Fardo e privilégio são compartilhados de modo bem igualitário; todos têm o mesmo risco a correr ou a mesma escolha a fazer. Portanto, ninguém aqui é tão completamente livre quanto um macho livre, em qualquer outro lugar. (p. 97)

Quando falamos de aceitação, entramos na temática melhor abordada e mais curiosa da história: a questão de gênero. Como citado logo no início, os habitantes de Gethen são andróginos (e hermafroditas), tendo seu sexo definido apenas durante o kemmer, que nada mais é que a fase reprodutiva (semelhante ao cio). Com as mudanças hormonais originais nesta fase, a qual não pode ser prevista, seu corpo é transformado no de homem ou de mulher, permanecendo somente até o final dessa fase, quando voltam a ser andróginos. Esse equilíbrio dos gêneros leva não só o personagem, mas também o leitor a perceber que, apesar da evolução da humanidade nas questões tecnológicas e políticas, essas relações “simples” de gênero ainda precisam ser colocadas em pauta.

Gethen's Map (A Mão Esquerda da Escuridão)
Mapa de Gethen por Milan Dubnicky

Pelo que foi citado anteriormente, o livro já possui ferramentas suficientes para entrar na lista dos favoritos, mas devo mencionar que a autora não para por ai. Para escrever essa incrível história, ela optou por trazê-la na forma de relatórios, de registros de outros visitantes, além de lendas e mitos locais, descrevendo (e justificando) a ambientação e a sociedade criada. Ursula consegue, ainda na década de 1960 – ano da publicação original ‑, criar um universo bastante complexo e completo e ainda assim compreensível sem grandes dificuldades.

Quanto à edição, além de linda, está incrível. E apesar da Aleph já ser uma das queridinhas dos demais membros da equipe Cooltural, só agora ela passou a compor minha lista de “editoras para ficar atento”. Já até criei uma wishlist. Recomendo!

Nota: 💚💚💚💚💛

Indicação da Renata Assis | Marketing Horrorshow

Ficha Técnica

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Título: A mão esquerda da Escuridão
Título Original: The left hand of Darkness
Autor(a): Úrsula K. Le guin
Tradução: Susana L. de Alexandria
Editora: Aleph
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1969
Páginas: 296
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
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