| Conto | Coração de Âmbar, de Alex Sens

Monk's House (Virginia Woolf) 02

A sala estava escura e tenra como uma ameixa quente quando foi mordida pelo ar frio do jardim. Uma porta havia sido aberta. Desde os primeiros encontros com Octavia, todas as portas da casa foram gradualmente perdendo sua função – o que para um objeto é como para um escritor perder o polegar durante a criação de um manuscrito. Elas só não eram completamente ignoradas quando — como acontecera naquele momento — estavam fechadas, e se alguém podia atravessá-las sem a polpa fantasmática essencial aos mortos, esse alguém era Virginia com seu corpo esguio de barbante. Só eu parecia sentir: Virginia estava quase morta, com um coração de azeviche no peito, enquanto o meu, de madeira, inchava de afeto e tristeza pela partida tão próxima.

Leonard atravessou o jardim com os mesmos passos apressados que mantinha há semanas. A preocupação era seu lastro. Quando as tábuas do chão rangiam, a casa respirava aliviada: alguém ainda vivia nela. E do meu canto escuro vi adiante a porta do pavilhão aberta, depois um gesto de conforto de Leonard ao colocar uma das mãos no batente como quem agarra o mundo para dele não cair. A mão direita de Virginia soltou a caneta-tinteiro, um gesto oposto ao do marido, com urgência e pânico. Talvez por este motivo tenham saído às pressas do pavilhão (deixando a porta aberta) de braços dados, ela exibindo um sorriso nublado, ele deixando escapar entre suas nuvens um sorriso desconfiado, mas com a postura outra vez relaxada, como se a presença da mulher o envolvesse num abraço. À medida que os dois se aproximavam, o retângulo de luz que invadia o corredor foi diminuindo, coberto por duas silhuetas esticadas e magras, até que a porta foi “esquecida” entreaberta por Virginia — afinal o pavilhão a aguardava, aquelas últimas palavras ainda tinham o rasgo do chamado de Leonard e logo ela voltaria, quando ele não estivesse rondando seu último dia de primavera.

Monk's House (Virginia Woolf) 01

Ao passarem por mim, fui tocada pelo vestido dela. Seus olhos distantes, embora decididos, me encararam; depois se voltaram para o casaco pendurado ao lado da porta e outra vez para o marido, cuja aparência desgastada pedia por mais colheradas do gordo creme enviado por Vita. Embora as bombas viessem desabrochando em terra como flores de fumaça exalando perfume de morte, o creme chegava da fazenda quase sempre fresco, e era derramado sobre amoras e framboesas quando estas também se rompiam nos galhos como contas de vidro a enfeitar o caráter moribundo da guerra.

— Porque precisamos descansar, sobretudo você — foram as palavras de Leonard quando entravam na cozinha.

— Eu sei, mas o dia está bom para trabalhar. Do contrário, você não estaria há tanto tempo cuidando dos seus cravos e dos seus crisântemos. E eu preciso voltar…

A resposta de Virginia se transformou num lamento e entre ruídos de canecas quase trincadas por colherinhas de prata, as rodelas de silêncio foram cortadas por mais murmúrios do marido. Um retalho de luz invadia o corredor através da porta entreaberta. E então um estrondo, escuridão e passos. Louie fechara a porta e parara ao meu lado. O avental alvejado indicava que ainda não havia preparado o almoço. Esperei. Ela também esperou.

Quando a louça foi colocada na pia, a cozinha silenciou. Não vi mais Leonard. Virginia voltou com as mãos dentro dos bolsos, os passos mais ligeiros do que antes, determinados a não fazer um ruído que despertasse a suspeita do marido. Louie sorriu para ela, mas ao descobrir a porta para o jardim fechada, Virginia bufou, abriu-a em silêncio e voltou para o pavilhão.

Louie estreitou os olhos, deu de ombros e foi para a cozinha.

Virginia reapareceu minutos depois inundando a sala de luz outra vez. O vento frio do jardim lambeu seu vestido e a toalha sobre a lareira, em cujo console ela depositou, com mãos trêmulas, dois envelopes. Recolocou as mãos nos bolsos e olhou para a sala como se não reconhecesse o lugar. A mesa de carvalho, encimada por antigas encomendas da Hogarth Press, foi o último ponto sobre o qual seus olhos pousaram com ternura. Quase flutuando, ela se dirigiu à porta de entrada, pegou o casaco de baeta, vestiu-o, calçou as velhas botas de borracha e me agarrou como quem fisga um peixe que salta no ar. Antes de chegarmos ao jardim, vi Louie e seus olhos brilhando como duas opalas flutuantes na escuridão do fim do corredor.

Bengala

Com a mão livre, fechou a parte de cima do casaco e atravessamos o jardim, ela com pressa, eu presa em sua mão fria e dura, mergulhada com força no charco que se estendia dos fundos da casa até a margem do rio Ouse. O caminho lamacento cobria minha base emborrachada e o primeiro anel do meu corpo. As pontas gélidas dos seus dedos me apertavam como se quisessem encurvar ainda mais meu pescoço talhado. Foi preciso cuidado, mas seus pés também afundavam na lama, cobrindo de marrom o verde-escuro das botas. Ambas tivemos algo como uma ligeira aventura em nosso último passeio juntas, observando ao longe os outeiros irisados e o horizonte cor de leite.

No caminho, segurando-me pelo tronco, Virginia deu início ao plano. Abaixou-se várias vezes e colheu grandes pedras que ia depositando nos bolsos do casaco. Os objetos sólidos caíam como pedaços de um destino incontornável; os bolsos afundavam e a fragilidade de seu corpo lentamente se rendia àqueles passos assertivos em direção à morte.

As águas do Ouse borbulhavam como se alguém o tivesse fervido para receber o corpo. Um dia seco, em que o sol cozinhava fracamente lá em cima dentro de uma poça de luz morna. Longe, os raios sobre a água pareciam derramar cristal líquido e subitamente o mês de março tornou-se a moldura perfeita para aquela pintura suicida. Tropeçamos algumas vezes até chegarmos à margem, pequenas pedras foram engolidas pela água rasa, cujo som afundava no ar para pegar uma concha cheia da essência da vida que ali fluía e então mergulhá-la em seu leito.

Antes de entrar na água gelada, ela abriu a mão, fina, frágil, trêmula, e me soltou. Caí muito perto da correnteza, que numa dança sombria me prendeu a uma raiz pelo pescoço, enforcando a despedida. Vi seu corpo ser levado sem resistência, a parte de trás do casaco inchar e escurecer no meio das bolhas d’água, os cabelos presos num coque malfeito mergulharem junto às pedras; seu espírito liquefeito. Toda aquela poesia encarnada transformou-se em água, retornou lentamente ao reino aquático ao qual ela pertencia. As ondas prateadas do rio então murcharam, soltaram um último sopro de alívio, uma bolha de sonho estourou de encontro ao junco. Sua vida se rompera. Petrificada, minha seiva coagulou a saudade. Em meu novo coração de âmbar ficou preso o toque de Virginia Woolf. No rio, o nanquim vermelho vazou do corpo, escrevendo na água a palavra “adeus”.

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© Estate of Vanessa Bell, courtesy Henrietta Garnett.

Autor Convidado

Alex Sens nasceu em 1988 em Florianópolis (SC), vive em Minas Gerais e é escritor. Publicou Esdrúxulas, livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros e críticas em sites de jornalismo cultural. É colunista do blog da Ateliê Editorial e seu romance de estreia O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica, 2015) venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura.
Contato: sensalex@aol.com

4 comments

  1. Nossa, que escrita, hein?! Uma forma diferente e envolvente, gostei muito, achei único. É impressão minha ou tem algo de poético? Tem umas palavras não comuns e tornou um tanto mais especial.

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  2. Olá, querido e apreciado Ademar.

    Obrigado pela oportunidade de ler tal conto. A principio, estava meio que perdido no conto, não sabia do que se tratava e nem o que esperar dele, apenas que fosse algo muito bem escrito (já que o autor é premiado). Lá pelas tantas quando ja estava envolvido vi que se tratava de um conto sobre a escritora V. W. e o desfeito me fez achá-lo lindo. Gostei muito dessa prosa poética, apesar de ficar voando no início com algumas alusoes usadas,mas acho que foi edtranhamento a uma nova escrito. Enfim, creio que é um autor que eu preciso ler sua obra mais longa.

    Até logo.

    P.S.: Sinto sorry.

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