| Resenha | Dois Irmãos, de Fábio Moon e Gabriel Bá

 

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Imagem: Conexões Itaú Cultural

Alguns de nossos desejos só se cumprem no outro.
Os pesadelos pertencem a nós mesmos.

Olá, pessoal! Antes de tudo, eu gostaria de confessar um crime. Eu ainda não li a obra Dois Irmãos, de Milton Hatoum. Um dia, porém, quando eu me tornar um mago (qual o feminino de mago?), eu terei lido todos os livros (bons), inclusive essa obra-prima da literatura brasileira contemporânea. Mas enquanto esse dia não chega (risos), resolvi saciar um pouco da minha curiosidade com essa adaptação da obra Dois Irmãos para graphic novel.

E não é que essa obra em quadrinhos me conquistou de tal forma, que a li numa sentada! E olhem que eu sou uma leitora tartaruga, por mais que o livro seja bom ou breve, eu darei um jeito de passar dias no seguimento da leitura. (cada leitor com sua mania rs)

Essa obra em quadrinhos, no entanto, é capaz de tragar o leitor com ondas enormes de catarse para as profundezas de sua narrativa. Isso se deve principalmente pela força do tema e pela excelência do tratamento literário que recebe. A história trata sobretudo da tirania com que lidamos as relações humanas. Além disso, expõe a crueldade e a incapacidade de compreensão existentes nos laços mais íntimos, as relações familiares.

IMG_20150716_140351308Em Dois Irmãos, é narrada a conturbada relação de ódio entre Omar e Yaqub, dois irmãos gêmeos, de descendência libanesa, que viviam em Manaus com a família. A história se passa no contexto da Segunda Guerra Mundial, marcado pela ascensão econômica e cultural brasileira decorrente da chegada de imigrantes ao Brasil, e sua posterior decadência. A obra recebe um tom solene de tragédia pelos traços angulosos dos artistas Fábio Moon e Gabriel Bá, dois talentosos quadrinistas brasileiros, que, por grande coincidência, também são irmãos gêmeos, mas seu relacionamento é baseado numa amigável e bem-sucedida parceria profissional de longa data. Sua obra mais conhecida é o fanzine independente 10 pãezinhos.

O delineamento das personagens com ângulos bem acentuados evidencia as arestas que precisam ser aparadas, ou nesse caso, os pontos de desacordo e conflito que geram os problemas de relacionamento entre elas. Além disso, o estilo representa bem a dureza e a tragédia da existência humana, que não nos poupa de nenhum sofrimento ou dissabor.

E a grandeza de Dois Irmãos se deve ao fato de tratar-se de uma tragédia familiar; sobre dois irmãos gêmeos, Omar e Yaqub, que se odeiam desde a infância. Tudo começou quando os dois se apaixonaram pela mesma garota, Lívia, e competiam por sua atenção. Até que um dia, por conta de uma falha elétrica numa sala improvisada de cinema, Yaqub e Lívia beijam-se. Quando a luz se acende, e Omar vê a cena, é tomado pela fúria e rasga o rosto de Yaqub com um caco de vidro de garrafa. O ato de violência do irmão marca o rosto de Yaqub com uma cicatriz em forma de meia-lua que o acompanharia pelo resto da vida.

Após tal acontecimento, Yaqub é enviado para estudar no Líbano, enfrentando a rigidez e as agruras da guerra. Enquanto isso, Omar é criado aos caprichos da mãe, Zana, como se fosse seu filho único, sendo amado, mimado e protegido em excesso pelas mulheres da casa. Zana nutria um amor e cuidados doentios pelo filho, o que lhe traria sérios problemas no futuro, em consequência dessa superproteção. Omar é ainda amado secretamente pela irmã, Rânia, beirando um amor incestuoso. Ambas o chamavam de Caçula. Essa criação é reprovada apenas pelo pai, Halim, que pouco tem voz na casa e guarda dentro de si a frustração de não querer ter tido filhos.

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Cinco anos mais tarde, após o fim da guerra, Yaqub retorna a Manaus. O gêmeo exilado aparenta ser uma pessoa calma e discreta, mas no fundo ele oculta um ódio intenso pelo irmão. Yaqub dedica-se com afinco aos estudos, ao contrário de Omar, que é expulso do colégio dos padres e vai parar no Liceu Rui Barbosa, o “galinheiro dos vândalos”.  E cada vez mais o destino dos gêmeos parecia divergir, enquanto Yaqub aparentava ter um futuro promissor, Omar era atraído pela vadiagem e pela boemia.

E dessa forma, cada um cumpriu seu destino; Yaqub foi para São Paulo, casou-se com Lívia e tornou-se um engenheiro renomado e com influência política, já Omar acomoda-se numa rede em casa durante o dia, e gasta as noites em festas e bebedeiras. A mãe, Zana, afugenta todas as namoradas de Omar e acaba por enviá-lo a São Paulo, lá ele descobre que o irmão está casado com Lívia, e novamente deixa-se levar pela fúria, risca as fotos do casal, rouba um dinheiro do irmão e parte para os EUA. Depois que volta ao país, Yaqub arquiteta uma vingança contra o irmão. No período da ditadura militar, Omar é perseguido e preso por estar ligado a um professor e poeta subversivo. A rivalidade dos irmãos segue durante toda a vida, para a infelicidade de Zana, que sempre tenta conciliá-los.

A história é narrada em flashbacks por Nael, filho da criada Domingas, que sempre esteve presente na casa e acompanhou todos os acontecimentos desde a infância, ao final da história sua real origem é revelada ao leitor.

Assim, Dois Irmãos é uma obra grandiosa por destrinchar os caprichos e comportamentos do ser humano, despindo as vestes das aparências e convenções sociais para apresentar ao leitor os cantos mais ocultos dos pensamentos e sentimentos das personagens. É uma tarefa difícil para o leitor não se deixar envolver por um universo de personagens com tantas falhas e conflitos que nos mostram as nossas próprias falhas, desacertos e arrependimentos procedentes dos nossos miasmas familiares.

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A revolta de Omar. (Dois irmãos) #doisirmaos #hq #quadrinhos

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Ficha Técnica


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Título: Dois Irmãos
Título original: Dois Irmãos
Autor(a): Fábio Moon e Gabriel Bá
Editora: Quadrinhos na Cia.
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2015
Páginas: 232
Skoob: Adicione
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8 comments

  1. Adorei a resenha, Vanessa. Eu já li a obra original e pelo visto a HQ conseguiu captar bem o que há no livro e creio que deve ter sido uma ótima leitura. Eu gostei demais da escrita do Milton Hatoum e o contexto histórico brasileiro que ele trabalha, além dos conflitos familiares que você bem citou.

    Att,
    decaranasletras.blogspot.com

    Curtido por 1 pessoa

    • Obrigada, Pedro!
      Eu tenho imensa vontade de ler as obras do Milton Hatoum, e espero fazer isso em breve rs. Meu primeiro contato com esse escritor foi por meio de uma entrevista que ele concedeu à coleção sobre Os Mestres da Literatura e comentou um pouco sobre sua paixão por Graciliano Ramos, desde então busco conhecer mais sobre ele, e a HQ me deu essa oportunidade.
      Boas leituras e volte sempre!

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    • Obrigada, Lili!
      Acredito que essa HQ tem um diferencial por ser a adaptação de uma obra literária bastante aclamada pela crítica e pelo público. Se você curte histórias de tragédias familiares com um fundo histórico bem contextualizado, é provável que você goste dessa! E quem sabe não seja fisgada pelo mundo das HQs?!😀
      Boas leituras e volte sempre! Beijos!

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    • Obrigada, Nathália!
      Tenho paixão por história em quadrinhos e literatura brasileira, imagina as duas juntas então?! Recomendo de olhos fechados e coração aberto!
      Boas leituras e volte sempre! Beijos!

      Curtido por 1 pessoa

    • Obrigada, Pedro!
      Se consegui despertar nos leitores um pouquinho da paixão e inquietação que senti ao ler este livro, então minha resenha cumpriu seu papel! Abraços!

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