| Resenha | Cinzarela e o sapatinho de vidro, de Charles Perrault

Cinzarela

Era uma vez um nobre viúvo que se casou com a mais arrogante e orgulhosa mulher que se possa imaginar. Ela tinha duas filhas do mesmo feitio, que lhe eram semelhantes em todos os aspectos. O marido tinha também uma filha, mas de uma doçura e de uma bondade sem iguais, herdadas de sua mãe, que havia sido a mais admirável das mulheres.
Charles Perrault, Cinzarela e o Sapatinho de Vidro, pág. 7.

Sempre fui fascinado por contos de fadas e fábulas. Embora na maior parte da minha infância e adolescência meu contato tenha sido basicamente através das versões da Disney ou de livrinhos adaptados que eram vendidos aos montes e em conjunto, mas também baseados (e com as ilustrações) nas versões da Disney. Só depois de adulto pude conhecer muitas dessas histórias através de traduções de suas versões originais, Bela e a Fera é um exemplo. Ou ainda, releituras um pouco sombrias das versões originais como João & Maria do Neil Gaiman. Este sobre o qual vos falo é uma nova tradução do clássico conhecido como Cinderela, só que com um diferencial que já começa no nome da princesa.

Assim como a maioria dos contos de fada, este possui diferentes versões desde sua origem. Por serem narrativas provenientes de uma tradição oral, que posteriormente eram transcritas, compiladas e publicadas, torna-se difícil precisar sua verdadeira origem e autoria. A história da pequena Cendrillon, no original, é comumente atribuída ao  francês Charles Perrault, o mesmo de Chapeuzinho VermelhoA Bela AdormecidaO Gato de Botas, entre outros. No entanto, a versão de Perrault é inspirada no conto italiano La gatta cenerentolaque já nos proporcionou traduções populares sob o título de A Gata Borralheira. Há ainda registros de uma versão chinesa, datada de nove séculos antes de Cristo.

CINDERELLA
Cinderela (Lily James) e o príncipe (Richard Madden) em cena do filme Cinderela (2015, dirigido por Kenneth Branagh.

Mas por que a Editora Poetisa relança uma história tão antiga e já tão amplamente conhecida? Talvez seja justamente por isso, pelo fato de ser uma história já muito conhecida, mas em sua maior parte conhecida através de releituras. Mas traduzir não é também um tipo de reescrita? Sim, e aí é que está o diferencial da poetisa, as mudanças não só trazem um elemento novo, mas especificamente traz aquele que faltou em todas as versões anteriores: aqui a princesa tem seu nome modificado numa tentativa de preservar o sentido e a relação nome-personagem presentes no original.

Na citação inicial, que também abre o conto, temos um pequeno resumo do que se trata a história, caso você não conheça, o que acho muito difícil. O resto você já deve conhecer… O filho do rei organiza um baile e as irmãs da pobre Cinzarela estão muito empolgadas para irem, assim como ela própria. Mas como não foi convidada e não tem roupas adequadas, Cinzarela começa a imaginar e a desejar sua ida ao baile, até que sua fada madrinha aparece e realiza seu desejo, com a condição de que ela volte antes da meia noite. No segundo dia, Cinzarela se confundiu em relação ao horário, saiu apressada e perdeu seu sapatinho, que é como o príncipe tenta encontrá-la entre as moças do reino.

Cinzarela?! Mas por que esse nome meio esquisito se já nos acostumamos com Cinderela? A Poetisa explica e justifica: “resolvemos que já era hora de traduzir o nome da personagem principal de um jeito mais… brasileiro! […] Cendrillon, o nome dela em francês, vem de cendre, isto é, cinza. Cinzarela também vem de cinza: Cinza-rela. Afinal, a pobrezinha dorme sobre as cinzas…“. Ponto positivo para editora, pela ousadia e pela criatividade. Lendo, você percebe o cuidado em cada decisão tomada. É muito bom acrescentar algo novo àquilo que já se cristalizou na nossa zona de conforto.

E não é só isso. Como eu já havia falado anteriormente, os livros da Poetisa não são apenas mais uma edição para títulos já conhecidos, são verdadeiras experimentações e aulas de como produzir um livro levando em conta o cuidado necessário em todo o seu processo de criação: tradução, projeto gráfico, edição, diagramação, etc. Esse em questão tem aquele formato tradicional de livro para crianças: grandão, com fontes confortáveis de ler e ilustrações lindas que preenchem toda a página, estas assinadas por Marcela Fehrenbach. É daqueles exemplares que dá vontade de sentar junto para ler com uma criança e ver o encantamento/empolgação nos olhos dela.

Nota: 💚💚💚💚💛

Ficha Técnica

Cinzarela e o sapatinho de vidro

Título: Cinzarela e o sapatinho de vidro
Título Original: Cendrillon ou la Pantoufle de verre
Autor(a): Charles Perrault
Ilustrações: Marcela Fehrenbach
Tradução: Kall Sales
Editora: Poetisa
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1697
Páginas: 44
Skoob: Adicione
Compare e compre: Buscapé | Amazon

 

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