| Conto | A Desgraçada da Lucidez, de Elvis Gomes

Ponte surrealista

Dentro de um sonho, um homem tenta compreender tanto a si mesmo quanto o que significa a realidade dos despertos.

Você se lembra da última vez que sonhou lucidamente? Eu lembro. Para ser sincero, lembro tão claramente que é como se vivenciasse isso agora. E, no caso, estou vivenciando. Surpresa!

Sim, é exatamente isso que você está pensando. Estou lúcido enquanto observo uma dimensão composta por fronteiras ilusórias e galáxias surreais — e tudo isso dentro da minha cabeça.

Van Gogh invejaria os milhares de quadros que poderia pintar com as coisas vistas aqui dentro. Oscar Niemeyer rabiscaria, desenharia e esculpiria Brasílias inteiras infinitas vezes em poucos segundos. Ayrton Senna pilotaria uma Formula 1 curvando entre os planetas e faria o pit-stop numa nas luas de Júpiter. Beethoven forjaria sua audição de volta enquanto seria o maestro da Orquestra Sinfônica do Universo.

As possibilidades são infinitas. Aliás, até o infinito é questionável por aqui.

Quanto a mim, não sou exigente. Não estou construindo cidades, voando entre prédios ou seduzindo as mulheres mais belas da história. Nada disso.

Infinite Dreams by RHADS
Infinite Dreams by RHADS

Estou preso aqui há tanto tempo que nenhum dos meus antigos desejos me voltam à memória. Esqueci de qualquer coisa que possa ter importado para mim um dia. Esqueci de como o tempo passa lá fora. Esqueci meu nome.

Você com certeza já tentou lembrar freneticamente de um sonho, mesmo sendo momentos depois de acordar. E nada retornava, apenas fragmentos de imagens e pensamentos soltos. Nada concreto, nada sólido.

Pois bem, esse é meu dia a dia aqui. Conviver com uma multiplicidade de opções tão vasta e infinita que meus pensamentos se tornam vagos, confusos e delirantemente perdidos no tempo. Por isso, escrevo minhas Memórias Oníricas de Brás Cubas.

Nesse momento, equilibro-me numa corda bamba que une duas montanhas acima das nuvens. Abaixo de mim, um abismo profundo. Eu controlo as rédeas da gravidade; e mesmo assim, cá estou eu, tentando atravessar todo meu caminho em frente sem cair — como um palhaço, só que sem o monociclo. Estou aterrorizado com a possibilidade de cambalear por um segundo e dar adeus à vida, por mais que isso não faça sentido algum.

Penhasco

Existe uma pequena curiosidade sobre as horas nos sonhos: os relógios são enganadores. Você olha uma vez e faltam quinze minutos para as onze. Você olha de novo e são cinco horas e treze minutos. Você olha mais uma vez e tudo o que vê são hieróglifos. Então, esqueça pontualidade — você não vai chegar cedo nem atrasado em suas festas oníricas.

Antes que eu divague ainda mais, gostaria de me explicar melhor. Minutos ou séculos atrás, tentei retomar minhas memórias. Ou seja, relembrar onde morava, quem conhecia, o que fazia para viver, qualquer coisa. Tenho certeza de que esse é o tipo de coisa com que eu me preocuparia enquanto estivesse desperto; ou seja, lá fora.

Contudo, nada é familiar. Viajo entre composições de cenários, diferentes personagens e suas conversas loucas, os mais variados roteiros oníricos. E mesmo assim, nada disso desperta sequer uma ligeira sensação de familiaridade com o exterior. Com o passado.

A questão é: eu não nasci aqui, mas eu passei a pertencer aqui. Caso você esteja familiarizado com imigrações, você poderia dizer que ganhei meu direito de legítimo cidadão Sonhador.

A outra questão é: eu não quero pertencer aqui. A única lembrança que tenho do exterior — da suposta realidade — é a sensação de lucidez. Essa que me traz aqui, nessa declaração de angústia consciente e auto-declarada. Essa, tenho certeza que herdei de fora — que não pertence a esse mundo. A desgraçada da lucidez é uma estrangeira quando se trata do onírico — e ter consciência no interior dessa dimensão é quase uma blasfêmia, é o mesmo que brincar de Deus.

A Desgraçada da Lucidez
Capa: Felipe Ribeiro

Por isso, me equilibro na corda bamba e tento não cair, ao mesmo tempo que aguardo ansiosamente a minha queda. Da mesma forma, tento não cair lá fora. Ou seja, tento não morrer: sinto o imparável respirar exterior que flui o oxigênio responsável por mover todo esse universo. Aqui, desejo descontroladamente que meus pés falhem e o abismo me consuma por completo, contanto que isso signifique dar adeus à claustrofóbica ilha dos sonhos.

De um lado, minha queda aterrissará no consciente. Do outro, posso simplesmente mergulhar num oceano ainda mais melancólico do subconsciente.

Quem saberá o futuro? Nesse momento, estou no ponto mais profundo e íntimo da única certeza que posso ter de tudo: minha própria mente. E mesmo assim, não tenho resposta alguma acerca de nada.

A verdade “penso, logo existo” continua sendo verdade dentro de um sonho? É possível existir no mais intrínseco estado de inexistência? A resposta é tão desconhecida quanto o destino da minha próxima ação.

Paro de me equilibrar e deixo meu corpo ilusório tender para qualquer um dos lados. No segundo seguinte, sinto o vento, a gravidade, a minha queda.

Todos sonham com quedas.

Todos acordam logo em seguida.

E eu?

Autor Convidado

Elvis Gomes nasceu no Rio de Janeiro, em 1997. Atualmente, vive uma bipolaridade entre cursar Psicologia ou Filosofia. Gasta a maior parte do tempo – incluindo os horários recomendáveis de sono – submetendo-se à ficção literária, desfiando sua mente em histórias que deviam ser queimadas como os livros de Fahrenheit 451.
Contato: Facebook | elvisxgomes@gmail.com

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s