| Resenha | O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry

Gostaria de ter começado esta história à maneira dos contos de fada. Eu gostaria de ter dito: “Era uma vez um pequeno príncipe que morava num planeta pouco maior do que ele e precisava de um amigo…” Para quem compreende a vida, pareceria muito mais verdadeiro.
Pois não gosto que leiam meu livro superficialmente. Sinto tanta angústia ao contar estas lembranças! Já faz seis anos que meu amigo se foi com seu carneirinho. Se estou tentando descrevê-lo aqui, é para não esquecê-lo. É triste esquecer um amigo. Nem todo mundo teve um amigo.
Atoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe, págs. 22-23.

A minha relação com O Pequeno Príncipe é semelhante à sensação da lembrança de um sonho depois que acordamos, não lembro bem como tudo começou. Quando percebi, já tinha virado paixão. E confesso que escrever sobre algo que tem um significado pessoal tão importante e íntimo para mim, intimida um pouco. Entretanto, acredito que não sou a única a sentir essa ligação onírica com a obra, e isso é o que me encoraja a depositar minhas reflexões sobre ela por aqui.

Antes de ler O Pequeno Príncipe, podemos suspeitar tratar-se “apenas” de uma história para crianças com uma mensagem poética e metafórica acerca da valorização da amizade e de valores humanos, tipicamente lida por candidatas de concursos de beleza. Todavia, o próprio autor da obra, Antoine de Saint-Exupéry, nos adverte por meio do livro o quanto as histórias e atividades que carregam o designativo “para crianças” são subestimadas e ignoradas por grande parte dos adultos. Dessa forma, nossa cegueira é revelada a partir daí, para nos iniciarmos num processo de recuperação, ou melhor, reaprendizado do verdadeiro sentido da visão e da percepção das coisas.

o pequeno principe jiboia elefante chapeuApesar dessa grande lição e de muitas outras que podem ser apreendidas de O Pequeno Príncipe, a obra não funciona como mera fábula moralizante ou com fins didáticos. O que o autor tentou realizar por meio desse livro para crianças ultrapassa os limites de gênero literário, de forma, função e temática para uma determinada faixa etária de leitores.

A obra-prima de Saint-Exupéry, com traços de conto de fadas, fábula e mito, é narrada por um aviador que sofre um acidente no meio do deserto do Saara por causa de uma pane em seu avião. Durante oito dias de isolamento, na tentativa de consertar o seu avião, enfrentando a escassez de água, a solidão e o medo da morte, o aviador encontra-se com o Pequeno Príncipe, uma aparente criança de cabelos da cor do trigo, com vestes magníficas, que veio de uma estrela, o asteroide B 612. A criança pede-lhe então que desenhe um carneirinho. O narrador toma consciência de que essa é uma experiência extraordinária, como afirma: “Quando o mistério é impressionante demais, não ousamos desobedecer.”.

Contrariando o pedido do Pequeno Príncipe, o aviador faz um dos únicos desenhos que sabia fazer, pois fora desencorajado ainda na infância a explorar suas habilidades artísticas, e desenha uma jiboia fechada digerindo um elefante, a qual as pessoas adultas confundiam com o desenho de um chapéu, o que sempre gerou frustração ao narrador. O Pequeno Príncipe reconhece a jiboia empanturrada e rejeita o desenho do aviador, devolvendo-lhe, no entanto, a esperança e a reconciliação com a criança que outrora abandonara os desenhos por conta da incompreensão dos adultos.

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Estrelas espalhadas, de Bettyhorror (Deviantart)

Desse modo, o aviador procura cumprir o pedido da criança. Após três tentativas descartadas pelo Pequeno Príncipe, o aviador desenha uma caixa e diz que o carneirinho desejado está lá dentro, a criança aceita e firma uma amizade com o piloto. A partir desse ponto, a narrativa nos revela a jornada do Pequeno Príncipe por seis planetas até chegar ao planeta Terra.

O pequeno viajante deixou seu asteroide por causa de desentendimentos com uma rosa a qual ele amava, mas não compreendia, e partiu para conhecer novos mundos. Conheceu habitantes excêntricos em cada um dos seis planetas; solitários e obsessivos, seres alienados em seus próprios vícios e ocupações. Ao chegar a Terra, o encontro mais significativo do pequeno explorador é com a raposa, que lhe faz perceber o verdadeiro valor de cativar os seres, e a importância de sua rosa. Assim, o Pequeno Príncipe compreende o ensinamento mais valioso de sua viagem e o verdadeiro sentido da vida, que é aprender a enxergar com o coração, pois o essencial, que é cultivar os laços afetivos, “é invisível aos olhos”.

raposa o pequeno príncipeDepois dessa grande revelação, o Pequeno Príncipe ainda deve passar por uma última provação, que é a mais assustadora e que lhe exige muita coragem, para retornar à sua estrela.

O sucesso extraordinário de O Pequeno Príncipe se deve a tantos fatores, que cada nova edição lançada só acrescenta mais valores e informações que complementam a compreensão do leitor. Essa última edição que li, da Editora Companhia das Letrinhas, traz um posfácio com diversas informações sobre a vida do Exupéry e suas inspirações para a criação dessa obra, interpretações dos símbolos, personagens e ilustrações do autor.

Todos esses elementos explicativos descortinam os mistérios subentendidos nesse clássico atemporal e ampliam nossa percepção da profundidade dessa obra, apontando a necessidade de abrirmos os olhos, numa era que cultua que sejamos cada vez mais egoístas, vaidosos e materialistas, e passarmos a valorizar as coisas que realmente importam, que é tolerar as imperfeições, respeitar as diferenças e cuidarmos das pessoas que mais amamos.

Guia de Leitura

A Editora Companhia das Letras lançou recentemente um guia de leitura de O Pequeno Príncipe que está disponível em pdf no site, com a biografia do autor e a gênese do livro, uma análise profunda de uma das obras mais importantes da história da literatura mundial. Baixe e leia: AQUI.

Ficha Técnica

Clique para ampliar

Título: O Pequeno Príncipe
Título original: Le Petit Prince
Autor(a): Antoine de Saint-Exupéry
Tradução: Mônica Cristina Corrêa
Editora: Companhia das Letrinhas
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1943
Páginas: 176
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3 comments

    • Obrigada, Carol!
      Adoro informações extras e materiais que complementares à leitura. Sempre que possível, compartilho aqui! Beijos, e volte sempre ;*

      Curtido por 1 pessoa

  1. Obrigado e parabéns por disponibilizar em seu blog a resenha de uma obra-prima tão fantástica e imortal como O pequeno príncipe. Sempre que alguém me falava sobre essa história, pensava que era apenas um conto para fazer crianças dormirem, pois então, depois que li a história, percebi que era muito mais do que isso. Com certeza a história não foi feita apenas para o público infantil, mas também sublimemente para jovens e adultos.
    Esta fantástica obra e suas simbólicas e poéticas mensagens exploram um vasto universo de fantasia e infinita magia. O autor Antoine de Saint-Exupér nos ensina mensagens de amor, sabedoria e valores de uma amizade verdadeira, além da pureza e simplicidade de um lindo pôr-do-sol.
    “O verdadeiro amor nunca se desgasta. Quanto mais se dá mais se tem.”
    Parabéns pela resenha!

    Curtido por 1 pessoa

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