| Resenha | O Quinze, de Rachel de Queiroz

O Quinze, de Rachel de Queiroz.jpg

Teve um súbito desejo de emigrar, de fugir, de viver numa terra melhor, onde a vida fosse mais fácil e os desejos não custassem sangue.
Rachel de Queiroz, O Quinze, pág 47.

Neste fim de ano, sempre nos pegamos refazendo planos para o ano que se segue e, na grande maioria das vezes, tentamos dar conta das promessas feitas no ano anterior. E foi por causa dessas promessas que, na minha viagem para Teresina-PI, acabei pegando O Quinze, de Rachel de Queiroz, para conhecer um pouco mais sobre a literatura cearense. Fiquei surpreso com a forma que fui sugado para o ambiente criado pela autora, uma vez que estava numa vibe diferente de leituras. A história tanto me encantou que, nas dez horas de viagem, comecei e terminei essa leitura incrível.

O Quinze é o romance de estreia da Rachel de Queiroz, no auge dos seus vinte anos no ano de 1930. Neste, a autora traz a história de homens, mulheres e crianças na luta com o sertão incendiado pela seca. Ambientados em solo cearense – intercalando entre o Quixadá e suas redondezas, e Fortaleza ‑, temos como protagonistas algumas famílias, uma vez que a proposta da autora era narrar a saga das mesmas em busca de uma sobrevivência. Como na maioria dos interiores, essas famílias são bem próximas seja por vínculos parentais ou não, assim, os núcleos construídos por Rachel de Queiroz se une e se separa ao longo da narrativa.

O Quinze, por Shiko (HQ)_
Ilustração de Shiko, para a adaptação de “O Quinze” para a Coleção de Clássicos em HQ da Editora Ática.

O primeiro núcleo é formado por Conceição (professora na Capital), que está passando férias na casa da sua avó Dona Inácia. Durante esta visita, a neta tenta convencer a avó da importância de deixar o sertão até que a seca termine, o que não é nada fácil. O segundo grupo é composto pela família de Chico Bento, a qual está sendo forçada a deixar o sertão (por terra), uma vez que a patroa do patriarca não conseguirá mais pagá-lo para cuidar do gado (que morrerá em questão de semanas). E o terceiro, mais não menos importante, é formado por Vicente e sua família. Neste, temos uma família mais abastada, onde a grande parte dela já mora no Quixadá. Vicente, primo de Conceição, mora na fazenda e, apesar da seca, decide permanecer e tentar salvar seu gado.

Assim, temos três realidades distintas que sofrem com a seca à sua medida. É claro que a família de Chico Bento é uma das que mais sofre com as consequências da estiagem. Não só ela, mas todas àquelas pelas quais eles cruzam ao longo de sua jornada. Esses três grupos mencionados nos faz refletir como que dinheiro, conhecimento e oportunidade podem interferir no destino de um indivíduo (ou família). O choro foi inevitável, não só pela vivência triste das personagens, mas pela forma crua e objetiva com que a Rachel decidiu narrar.

Rachel de Queiroz.jpg
Rachel de Queiroz

Este é um dos aspectos que faz de O Quinze um clássico: a escrita da autora. O outro ponto, tão importante quanto, é sua importância história, uma vez que a autora traz na sua obra o relato de uma das secas mais intensas do estado do Ceará – segundo alguns textos críticos e análises da obra que tive acesso. Em relação a textos complementares, a edição que eu tenho (Círculo do Livro, 1989) também vem com textos extras, o primeiro deles que apresenta a obra é um ensaio do Adolfo Casais Monteiro; o segundo é de autoria de Marisa Lajolo, o qual traz uma reflexão sobre o contexto de O Quinze e alguns paralelos com a obra de José de Alencar e Luzia-Homem, de Domingos Olímpio.

Rachel de Queiroz foi uma grande surpresa para mim e também servirá como porta de entrada para a leitura de outros romances de temática semelhante que vinham sendo procrastinados há algum tempo. Entre eles estão: Vidas Secas, de Graciliano Ramos; Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; Os Sertões, de Euclydes da Cunha; e Luzia-Homem, de Domingos Olímpio. Vamos torcer para que eu consiga lê-los em breve. No mais é esperar que o número de leitores desta obra aumente. Recomendadíssimo!

Nota: 💚💚💚💚💚

Ficha Técnica

O Quinze, de Rachel de Queiroz (Círculo de Livro)
Clique para ampliar

Título: O Quinze
Autor(a): Rachel de Queiroz
Editora: Círculo do Livro
Edição: 1989 (5ª)
Ano da obra / Copyright: 1930
Páginas: 162
Skoob: Adicione
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5 comments

  1. É com muita vergonha que venho admitir não ter lido nada da saudosa Rachel de Queiroz. Mas eu pretendo conhecer melhor nossos autores(como já venho fazendo)e principalmente a Rachel,que é minha conterrânea. Eu já sabia do que se tratava “o Quinze” mas nunca tinha visto uma resenha. Só posso dizer quero muito! Será certamente uma leitura que me comoverá e isso é bom.
    Amei,amei amei a resenha. A Ilustração postada é incrível.
    P.S: Quando eu for ler quero essa edição que tu postou😛
    Beijo;

    http://estantelivrainos.blogspot.com.br

    Curtir

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