| Resenha | A Chegada, de Shaun Tan

Embora as previsões para 2016 não sejam, infelizmente, as mais otimistas, pois enfrentamos problemas de toda ordem; com relação à política nacional e internacional, crise de imigração mundial, crise econômica, além da fome e da violência crescentes que assolam nosso planeta, não podemos perder a fé na humanidade ainda. E a literatura, como toda forma de arte, tem a função de nos fazer refletir sobre essas durezas da nossa realidade, e manter viva a esperança de que é possível encontrar uma saída, ou um alívio, diante de tantas adversidades.

a chegada origamiPor isso, para começar com o pé direito, ou melhor, com a página certa, escolhi esse livro com um título bastante sugestivo para dar início às minhas leituras deste ano. A Chegada, de Shaun Tan, traz uma mensagem de paz e esperança em meio ao caos civil e situações de vida desalentadoras.

A obra retrata de modo sensível e realista a trágica história de imigrantes que foram forçados a deixar seus lares e refugiarem-se em terras distantes, com uma cultura totalmente diferente da sua e idioma incompreensível. Assim, ao mostrar a força e a capacidade de adaptação do ser humano através dessas histórias, Shaun Tan é um desses artistas que acendem a sua lâmpada sobre o mundo, aquecendo os corações dos leitores e, principalmente, dos amantes da 9ª arte (quadrinhos).

O grande diferencial dessa história em quadrinhos, ou graphic novel, por ser mais elaborada, é a ausência de palavras (compreensíveis) ou qualquer diálogo escrito, ou seja, a história é construída apenas com imagens, e as ilustrações parecem mais fotografias antigas, dando ao próprio livro a aparência de um álbum de fotos envelhecido, evocando as memórias e os relatos dos imigrantes do final do século XIX e início do séc. XX.

Pela dedicatória, nota-se uma identificação pessoal do autor com a história narrada, pois ele mesmo é filho de imigrantes. Por isso, Shaun dedica este livro aos pais, que deixaram a Malásia para buscar melhores condições de vida na Austrália e estabelecerem um lar para os filhos. (Outro detalhe interessante é que as feições do personagem principal do livro assemelham-se muito às de Shaun).

a chegada animal

Mesmo sem levar em conta esses detalhes biográficos, a obra não perde o encantamento, pois há leitores e leituras que dispensam tais informações, no entanto, não consigo dissociá-las, pois acredito que enriquecem ainda mais a leitura e interpretação do livro.

Com relação aos aspectos estéticos, a obra é um deleite para os olhos, pois o artista recria minuciosamente os gestos e expressões de humildade, apreensão, frustração e espanto das personagens diante do desconhecido. Além disso, por se tratar de uma distopia, A Chegada extrapola os limites de nosso universo conhecido e cria um mundo fantasioso que, apesar de nos causar um estranhamento inicial, nos faz adentrar em tal universo e embarcar numa viagem que é pura imaginação.

shauntan
Shaun Tan

O enredo desse livro também demonstra um cuidadoso trabalho de elaboração, o que eleva ainda mais a qualidade da criação artística de Shaun Tan, que também possui formação em Literatura. Em A Chegada, acompanhamos a história de um pai de família que abandona sua terra natal, porque estava dominada por uma criatura gigantesca cheia de tentáculos ou serpente monstruosa que invadiu a cidade, e parte para um novo continente em busca de melhores oportunidades.

Nesse novo continente, o personagem enfrenta as dificuldades comuns a todo imigrante, desde a procura por emprego à necessidade de ter que se adaptar a uma cultura distinta, com uma linguagem exótica, culinária excêntrica, fauna e flora extraordinárias e costumes estranhos.

Nessa fase de adaptação, o protagonista conhece outros personagens que também são imigrantes; uma mulher que fugiu de sua terra natal quando era criança por ser vítima de trabalho infantil, um casal que conseguiu escapar de um lugar ameaçado por “gigantes-exterminadores” de seres humanos, um velhinho que teve uma perna amputada na guerra. Todas são histórias comoventes de superação que nos mostram que é possível um recomeço e que uma das principais medidas de reparação dos males da vida é a solidariedade.

a chegada parte III ameaça gigantes

Essa é a grande mensagem da obra, pois apesar de todo o sofrimento e transtorno que esses imigrantes passam, eles encontram força e amparo ao compartilhar suas histórias de vida com outros que também enfrentaram um destino similar, ajudando-se a atenuar as cicatrizes deixadas pelo passado.

Assim como esses personagens, milhares de refugiados sírios, afegãos, iraquianos, eritreus, nigerianos, e grupos provenientes de muitas outras nacionalidades, enfrentam atualmente uma situação semelhante de migração forçada. Impulsionados por guerras civis, pobreza, repressão política e religiosa, gigantes tão opressores e tirânicos quanto as ameaças monstruosas de A Chegada, esses grupos de refugiados atravessam o mar mediterrâneo na esperança de refazerem suas vidas na Europa, o que vem se tornando uma das maiores crises migratórias desde a Segunda Guerra Mundial.

As estatísticas e reportagens nos jornais são desanimadoras, isso é fato, mas obras como A Chegada tem o importante papel de nos conscientizar quanto a essas situações catastróficas do mundo e nos inspirar a tentar fazer do mundo um lugar um pouco melhor, pois se todos desistirmos, nas mãos de quem nosso planeta ficará? E cito aqui uma passagem de Érico Veríssimo quanto ao papel do escritor, que aponta justamente essa responsabilidade de não perdermos a fé:

Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto. (Solo de Clarineta, de Érico Veríssimo, 1978.)

Para finalizar esse post que acabou ficando imenso, (vejam a ironia!), para interpretar um livro sem palavras, dou-lhes de presente esse poema que uma amiga querida me apresentou:

Recusa do prêmio Nobel da Paz
Não quero, deusa, o prêmio Nobel, não quero!
Mas, permissão para produzir o arco-íris na terra.
E que depois do meu sinal luminoso,
pequeno cordeiro possa dormir descansado no asfalto
e o modesto piano soe nos logradouros públicos.
Quero a paz dominical para disseminar nos cais
e o consolo perfeito para dar aos suicidas.
Um homem que vi mutilado e infeliz
e outro que perdeu na revolução pai e mãe
durmam tranquilos para reviver com eles.
Quero paz para tornar a vida suportável
e a paisagem da terra menos banal e triste.
E quero ver o mar recusar a morte dos afogados
e o braço do homem recusar-se a matar
e o furor dos elementos se ausentar deste mundo!
Não quero, deusa, o prêmio Nobel! Quero a paz!
(Jorge de Lima. Universidade, Recife, maio de 1937.)

~ Jorge de Lima foi o escritor brasileiro mais próximo de ganhar o Nobel de Literatura.

Referências visuais

Para compor essa obra, Shaun Tan mergulhou fundo em pesquisas de fontes históricas, obras literárias e pinturas para servirem de referência e inspiração. Algumas dessas referências incluem: uma fotografia de um jornaleiro anunciando o naufrágio do Titanic em 1912, postais de NY na passagem do século XIX para o séc. XX e fotografias de rua na Europa pós-guerra.
Uma de suas influências é o ilustrador francês do século XIX Gustave Doré:

a chegada parte I ameaça tentáculosDestruction_of_Leviathan Leviatã Gustave Dore 1865

Teatro

Já foram produzidas duas adaptações de A Chegada para o teatro, além de um musical. Confira um trecho da peça adaptada pela companhia Red Leap Theatre, dirigida por Julie Nolan e Kate Parker (Nova Zelândia, 2011):

Informações extras

Quem estiver interessado em saber um pouco mais sobre o autor e seus próximos trabalhos pode acessar as seguintes páginas:
Site do autor: Shaun Tan
Site da obra: A Chegada
Site da editora: Edições SM
Guia de Leitura da obra: Aqui

Ficha Técnica

Clique para ampliar

Título: A Chegada
Título original: The Arrival
Autor e ilustrador: Shaun Tan
Editora: Edições SM
Edição: 2011 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2006
Páginas: 128
Skoob: Adicione
Compare e compre: Buscapé | Amazon

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s