| Resenha | Hamlet, de William Shakespeare

vanitas - Philippe de Champaigne - 1671
Vanité, de Philippe de Champaigne (1671)

Ser ou não ser: eis a questão:
Saber se é mais nobre na mente suportar
As pedradas e flechas da fortuna atroz
Ou tomar armas contra as vagas de aflições
E, ao afrontá-las, dar-lhes fim. Morrer, dormir.
William Shakespeare, Hamlet, Ato III, cena I, 56-60, pág. 111.

Aos leitores afoitos, uma advertência (ou antes, uma recomendação!): a leitura reflexiva de Hamlet pode levar a hábitos inquietantes de pensamento e despertar questionamentos essenciais que acompanham desde muito tempo gerações de céticos e zombeteiros acerca da condição humana.

Sou uma leitora meticulosa, admito. Principalmente quando se trata da leitura de autores cânones da literatura universal, busco despender uma atenção especial e cuidado redobrado ao pensar e ousar escrever sobre tal obra, pois considero uma grande responsabilidade acrescentar qualquer palavra a mais a textos literários de tamanha influência na literatura, no pensamento e na história da humanidade.

Nesse intento, discutir sobre Shakespeare não é tarefa simples, visto que esse autor é, por excelência, um dos nomes mais influentes na poesia e na dramaturgia mundial, adquirindo até um caráter mítico no rol de escritores clássicos da literatura ocidental. O Bardo, como também é conhecido, singulariza-se por uma opulência vocabular e agudeza temática difíceis de ser alcançadas.

hamlet  caveira shakespeare

Tais características elevaram-no ao auge de seu talento artístico em A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca, a obra mais enigmática de Shakespeare, considerada a Mona Lisa da crítica pelo poeta e crítico literário T. S. Eliot. Essa importância ou alvoroço atribuído a Hamlet deve-se à profusão de interpretações e análises com base em diferentes ideologias e correntes literárias.

O espectro de meu pai – armado! Há algo errado,
Há um cheiro de jogo vil. E a noite que não chega!
Paciência, minha alma. Ações vis surgirão,
Inda que o chão as cubra pra humana visão.
(Hamlet, Ato I, cena II, 255-258, pág. 66)

A vingança é o principal motivo desencadeador da peça, que a categoriza como a tragédia de vingança mais famosa desse subgênero dramático. Conforme a crítica do século XX apontou, a “tragédia de vingança” era onipresente no teatro elisabetano e jacobino, atendendo ao gosto grotesco do público pela vendeta e pelo sangue. O diferencial de Shakespeare, como enfatiza Lawrence Flores Pereira, tradutor da recente edição lançada pela editora Companhia das Letras (selo Penguin), é ter dado uma dimensão mais humanista ao indivíduo vingador, pois o estratagema da vingança utilizado por Hamlet fez-se necessário por uma questão de honra e fidelidade ao pai e ao Estado.

Ao lado desse tema, cuja função servia para instruir o público e provocar a purificação de sentimentos (catarse), somam-se outros temas igualmente polêmicos, como; a traição, um assassinato premeditado, relações incestuosas, a dúvida, a corrupção do Estado e do indivíduo, a loucura fingida ou real, isto é, os limites entre a sanidade e a manipulação, bem como a metalinguagem no teatro.

Com tal variedade temática, as condições propícias para uma grande tragédia foram preparadas. A trama começa com a visita do espectro do rei da Dinamarca a seu filho, Hamlet. O fantasma clama por vingança e revela ao príncipe Hamlet que fora assassinado pelo irmão, Cláudio, atual rei e marido da rainha Gertrudes, viúva do monarca antecessor. Após tal revelação, o príncipe passa a manifestar um estado de perturbação mental que abala toda a corte.

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Mergulhado em reflexões profundas sobre os valores morais da sociedade em que vive e na tormentosa dúvida sobre a real natureza da aparição e a idoneidade do seu pedido de vingança, Hamlet hesita e retarda o cumprimento da promessa feita ao espectro de seu pai. Durante esse processo de decisão, o príncipe dinamarquês “representa” a figura do indivíduo que perdeu as amarras da razão e passa a agir de modo extravagante, principalmente expressando “as verdades” que não poderia afirmar estando em seu perfeito estado de equilíbrio racional.

Ó Deus, sou o paladino da burla e da galhofa.
Fazer o quê senão se alegrar? Olhe só como
minha mãe parece exultante e não tem duas horas
que meu pai morreu.
(Hamlet, Ato III, cena II, 130-133, pág. 120)

Assim, o príncipe rejeita Ofélia, sua antiga amada, que havia resistido a suas investidas amorosas por aconselhamento moralista do irmão, Laerte, e do pai, Polônio. Essa rejeição acaba por selar o trágico fim da jovem.  E por último, como principal artifício determinante para sua ação final, Hamlet convoca uma trupe de atores e orienta-os a representarem a peça O Assassinato de Gonzago, que era uma imitação do crime cometido contra seu pai, para identificar e revelar o verdadeiro culpado, seu tio Cláudio. Dessa forma, Hamlet teria a certeza de que a realização da vingança seria justa.

Por fim, as ações de Hamlet dão forma a um verdadeiro espetáculo de tragédia, conduzindo a trama a um desfecho marcado por acontecimentos fatais e pelo derramamento de sangue. Tal enredo situa Hamlet como uma peça de complexidade dramática singular na literatura, convidando o leitor a realizar um mergulho reflexivo na história e no drama de seu protagonista e demais personagens. Não é uma leitura fácil, devido à distância que separa o leitor contemporâneo do contexto social da peça (Dinamarca, século XVII). No entanto, é necessário tomar as balsas que o autor nos deixou ao alcance e aprender a enxergar com os olhos da época para compreender os desdobramentos da história e nos ajudar a sobreviver ao naufrágio da consciência humana.

Melhores Citações

Destaquei algumas falas dos personagens que são bastante conhecidas e servem de referência em conversas filosóficas do dia a dia. Você já ouviu alguma delas?

Mas eu tenho algo em mim além da encenação,
E o resto é só cilada e traje de aflição.
(Hamlet, Ato I, cena II, 85-86, pág. 61)

Há algo de podre no Estado da Dinamarca.
(Marcelo, Ato I, cena IV, 90, pág. 75)

Não deixes que o régio leito dinamarquês
Seja um divã funesto de luxúria e incestos.
(Espectro, Ato I, cena V, 82-83, pág. 78)

Há mais coisas no céu e na terra, Horácio,
Do que pode sonhar a tua filosofia.
(Hamlet, Ato I, cena V, 174-175, pág. 81)

E o resto é só silêncio.
(Hamlet, Ato V, cena II, 379, pág. 193)

Ficha Técnica

Clique para ampliar

Título: A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca
Título original: The Tragedy of Hamlet, Prince of Denmark
Autor(a): William Shakespeare
Tradutor: Lawrence Flores Pereira
Editora: Penguin Classics Companhia das Letras
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1599-1601
Páginas: 320
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