| Conto | Quando tudo chega ao fim, de Lucas Benetti

Thatched Cottages at Cordeville by Vincent van Gogh, 1890
Thatched Cottages at Cordeville by Vincent van Gogh, 1890

Ela olhou pela janela ao ouvir a porteira abrir. As dobradiças estavam enferrujadas havia alguns anos e estalaram com vigor, anunciando a chegada da visita.

A moça, trajando seu longo vestido de montaria, desceu a encosta pelo caminho de terra, demarcado por rodas de grandes carroças, logo depois de fechar a porteira. Suas botas iam silenciosas na terra seca, e as pontas de seus cabelos roçavam e grudavam na nuca suada. O chapéu, azul como o vestido, ia em uma das mãos. E durante todo o tempo em que caminhou em direção ao grande casarão de madeira, foi observada com curiosidade por olhos um tanto abatidos e marcados pelo tempo.

O sol do começo da tarde preparava sua descida do céu sem nuvens quando a dona da casa viu a visitante subir os degraus da varanda e cruzar a cortina de fios de pano coloridos que pendia do lintel, e embora o reflexo do dia estivesse espelhado no chão – emoldurado pela porta – o interior da casa permanecia na penumbra.

— Dona Maria! — saudou a anfitriã, se aproximando claudicante. — Eu não esperava vê-la novamente tão cedo. Por favor, sente-se, sente-se — disse a mulher, indicando o caminho até a mesa da cozinha sombria.

Dona Maria seguiu até a cadeira enquanto afagava os próprios braços na tentativa de trazer de volta o calor que seu corpo sentia antes de cruzar a porta.

— Chegou em boa hora. Estava terminando de passar o café. É a senhora que gosta de café fresco, não é?

— A senhora, por acaso, estava me esperando? — perguntou dona Maria, surpresa, tentando enxergar a mulher do outro lado da cozinha, além das sombras e da luz forte que saltava janela adentro.

— De forma alguma, dona Maria. De forma alguma. Prever os acontecimentos não é um tipo de habilidade que eu domine — explicou a dona da casa enquanto a visitante colocava o chapéu sobre a mesa.

— Não me admiraria…

— É claro que não. Isso é algo que muitos esperam de mim, afinal — vagarosamente, a mulher de vestido preto se aproximou da mesa segurando duas xícaras de café. A fumaça claramente visível no breu vespertino da cozinha. — Aqui está.

— Muito obrigada.

— Aceita um pedaço de bolo de fubá? — perguntou a anfitriã, removendo o pano branco de cima da forma que estava na mesa. — Assei ontem de manhã.

— Não, não. Muito obrigada, mas não pretendo me demorar.

— Pois a que devo a visita, então, dona Maria? Como disse, não esperava vê-la novamente tão cedo.

— E eu também não esperava ter de voltar à sua residência em um espaço tão curto de tempo.

— Não me diga que…

— Sim. E é por isso que estou aqui. Outro dos meus faleceu agora há pouco.

— Que judiação, dona Maria — embora de certa forma surpresa, a velha de vestido preto, sentada do outro lado da mesa, teve dificuldades em fingir que jamais esperava por aquela notícia.

— Ele trabalhava na lavoura, mas às vezes também ajudava os boiadeiros. Apesar do trabalho extra, ganhava um bom salário. Eu lhe pagava direitinho, mas havia dias estava amuado, de cama. Sua prima, que também trabalha para mim, disse que ele desistiu de tudo, desistiu de viver. Pode isso?

— Ô se pode.

— Pois então estarei arruinada se todos resolverem seguir o caminho desse que acabei de lhe falar — dona Maria bebericou o café enquanto pensava por um instante. — Não tenho dado sorte com meus empregados. Ultimamente só tenho contratado pessoas que não têm disposição para o trabalho. Todas parecem que resolveram, juntas, andar com uma cara sofrida, como se estivessem derrotadas e condenadas.

— Não vejo nada de errado — disse a dona da casa, esticando a mão para pegar um pedaço do bolo de fubá. — Só estão se comportando como o que realmente são.

— Mas a senhora entende que toda essa falta de vontade vai acabar me quebrando? A produção vai cair, não terei quantidade suficiente para vender na cidade de forma competitiva. Terei de aumentar os preços para suprir os custos, e então os compradores vão procurar quem possa oferecer um preço mais em conta.

Coffee drinker by Ivana Kobilca, 1888
Coffee drinker by Ivana Kobilca, 1888

Dona Maria olhou na direção da porta. Para além da cortina e da varanda era possível ver algumas folhas de bananeira a brilhar ao sol. Então, com um semblante perturbado, voltou-se para a mulher do outro lado da mesa:

— Não há nada que você possa fazer?

— Hah! Você está me perguntando se não há nada que eu possa fazer? — o tom de voz da mulher de preto era uma mistura de irritação e deboche.

— Não dá para prolongar a vida deles um pouco, ou algo assim?

— O quê?

— Para eles parecerem mais saudáveis e dispostos, poderem trabalhar mais felizes, para serem mais produtivos — dona Maria tomou um gole de café, agora na temperatura ideal. — Porque eu não suporto ver aquelas caras sofridas andando por minhas terras. Parece até um dos círculos do inferno, cheio de almas pecadoras! — resmungou, e apressou-se em dizer: — Com todo o respeito, claro.

A velha de vestido preto mastigava um pedaço de bolo, impassível.

— Eu não sei por que é que eles parecem carregar todo o sofrimento do mundo nos ombros — continuou a visitante. — Pois não têm um trabalho? Pois não pago a todos e não pago ainda mais do que deveria? Não têm, então, dinheiro para comprar comida e cuidar da saúde? Não deveriam estar felizes e saudáveis, trabalhando sempre com o mais belo sorriso que são capazes de fazer? Por qual motivo há de ser diferente? Por que não arrancam do rosto aquelas expressões incômodas de dor e sofrimento? Qual é o problema? Deveriam dar graças ao Senhor por terem trabalho, por terem patrões tão bons e interessados em contratá-los e pagar um salário justo, pois, ao contrário, seriam como os miseráveis e vagabundos a pedir de porta em porta pela cidade durante o dia, e dormirem, depois, amontoados nas escadarias da igreja ou no canteiro da praça.

A dona da casa, que ouvia pacientemente – embora um tanto transtornada –, sorriu, talvez numa demonstração irônica de compreensão, talvez para tentar amansar a raiva que aquelas palavras causavam. Encarou a visitante por um minuto, depois mordeu sua fatia de bolo – as mãos da pele ressecada apertando a massa fofa com certa indelicadeza, enquanto farelos saltavam para a toalha forrada no móvel. Ainda não havia terminado de mastigar quando falou:

— Vocês, humanos, são engraçados.

— Você acha?

— Uns trabalham a vida toda esperando redenção, doando seu tempo em troca de dinheiro pouco para ajudar os patrões a viverem seus próprios sonhos medíocres de ter sempre mais e mais riquezas para poderem se gabar disso…

— Pois não é para isso que trabalhamos? — dona Maria interrompeu a velha do outro lado da mesa enquanto mexia na aba de seu chapéu. — Para termos propriedades, terras, dinheiro; para darmos uma boa vida à família, garantir a educação de nossos filhos e permitir que o nome e tradição de nossa linhagem perdure além dos séculos? Deus dá oportunidade a todos, mas, infelizmente, nem toda criatura faz por merecer.

— O gado não tem muita escolha. E é difícil mudar o rumo de sua vida se já nasceu para ser sacrificado; isso sem falar que eles passam o tempo todo tentando evitar ser devorados por onças.

— O que posso fazer? Cada um que carregue seu fardo.

— Saiba, dona Maria, que alma nenhuma pode carregar qualquer coisa ao outro mundo que não seja o peso do próprio coração — explicou a senhora de preto.

— E daí?

— O conformismo jamais levou alguém a um lugar melhor. Ele não vai trazer salvação aos trabalhadores, e nem deixar mais leve os corações daqueles que os exploraram.

— Quer dizer que você acha que minha alma não terá salvação?

— Se eu fosse você, não teria tanta esperança.

— Como é? — perguntou a visitante, boquiaberta. — Você acha que eu vou para o Inferno?

— Nunca disse que acredito nisso.

— Então diga o que tem para mim! — dona Maria abriu bem os olhos para tentar impor sua ordem, como costumava fazer ao brigar com seus empregados. Estava visivelmente irritada, embora tentasse manter o respeito e educação para com a velha à sua frente. — Vamos, diga! Quero saber o que a Morte acredita ser o destino de minha alma.

— A questão é que todos vocês levam uma vida medíocre: você, madame, por achar que a riqueza vai levá-la a algum lugar, e por achar que sua posição social vai protegê-la quando deixar esse mundo; e seus empregados, que acham que terão salvação depois de sofrer por uma vida inteira. Pois lhe digo que o gado não vai para um lugar melhor depois de ser explorado até a última gota de sua existência, e seus senhores não vão para um lugar diferente depois que dão adeus a essa vida.

Dona Maria tomou o resto do café, agora totalmente amargo e frio como a cozinha: um sabor incômodo que se estendeu por toda a língua e lá permaneceu, até o último dia de sua vida.

All Souls' Day by Jakub Schikaneder, 1888
All Souls’ Day by Jakub Schikaneder, 1888

— E agora você me dá licença, viu? A senhora já fez sua parte vindo me avisar, então eu tenho que ir buscar a alma desse condenado, contar a ele que acabou e fazer tudo o mais que deve ser feito — dizendo isso, a Morte se levantou e, mancando, seguiu na direção da porta, onde a cortina estava brincando com a brisa. — Ah, vocês, humanos. Tão engraçados, tão egoístas — debochou. Então virou-se para a visitante ainda sentada e perguntou: — Escuta, dona Maria, por um acaso já parou para pensar na quantidade de criaturas que sofrem quando alguém se vai?

— Você diz a família do falecido?

— Também. A ida de uma pessoa traz tristeza aos parentes e incomoda até mesmo o mais insensível dos patrões, pelo menos até ele arrumar outro empregado. A Natureza também fica desarmoniosa a cada partida, e eu carrego comigo um enorme pesar.

— Você?

— Sim, eu. Porque o maior sofrimento para mim, dona Maria, não é fazer o meu trabalho. O maior sofrimento para a Morte é ter que dizer a uma alma que sei que não viveu, só existiu, que infelizmente, para ela, tudo chegou ao fim.

Autor Convidado

Lucas Benetti é escritor, roteirista e narrador de histórias certificado pela Prefeitura de SP. Foi um dos vencedores do Prêmio Off Flip de Literatura (categoria infantojuvenil), teve um conto no topo da lista de e-books mais vendidos da Amazon e lançou, em 2014, um projeto inédito de uma websérie onde blogueiros, vlogueiros e autores faziam a leitura de uma de suas histórias. Além disso, já teve um blog onde escrevia contos baseados em letras de músicas; trabalhou como roteirista para uma série animada – contemplada num edital da Secretaria de Cultura de SP; recentemente, uma de suas histórias foi escolhida como o melhor conto de Natal do site Fanfic Addiction; e terá, em 2016, além de seu livro, um roteiro publicado na 2ª edição do Gibi Quântico, vencedor do Prêmio HQ Mix. Nas horas vagas, trabalha com marketing editorial e de conteúdo.
Contato: lucasbenetti.com

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