| Resenha | Finn’s Hotel, de James Joyce

Finn's Hotel (detalhe capa)

[…] a única resposta movida por respeito próprio é afirmar que há certas declarações que não deviam ser, e gostaríamos de poder acrescentar, não deviam ter permissão de ser feitas.
James Joyce, Finn’s Hotel, pp. 110-111.

James Joyce é um dos maiores nomes da literatura de língua inglesa e da literatura universal. Sua obra, embora não seja tão vasta em quantidade, permanece até hoje como uma fonte inesgotável no campo dos estudos literários. Quem nunca se sentiu tentado ou nunca foi desafiado à uma leitura de Ulysses? Este é considerado por muitos como o livro de leitura mais complexa e de difícil entendimento da literatura. Para alguns, Ulysses é apenas um livro gigantesco cheio de palavras difíceis (e/ou inexistentes) e que para concluí-lo basta começar. Será? Bom, mas não é de Ulisses que venho tratar aqui. Pelo menos não por enquanto, já que ele está na minha lista para um futuro próximo, ou não. Esse texto é para falar um pouco da minha leitura de Finn’s Hotel, que por sinal se deu já há um tempinho atrás.

Movido pelo mito de que é preciso estar preparado para a leitura de Ulysses, obra mais conhecida do autor, achei por bem ler outras coisas dele antes de partir para a tal leitura homérica. E eis que peguei Finn’s Hotel para ler, ainda no ano passado, achando que seria uma leitura “mais fácil” e proveitosa, ledo engano. Finn’s Hotel não é uma preparação para livros mais complexos de James Joyce e por isso não se faz uma leitura mais fácil. Pelo contrário, o livro é composto por dez pequenas narrativas encontradas entre os escritos de Joyce, supostamente ainda como esboços, o que torna um pouco mais complicado entender qual o propósito e a finalidade de cada narrativa. Mas eu não sou um estudioso do autor, os que o são investigaram e chegaram às suas conclusões, que nunca receberão um veredito do próprio Joyce.

Jaymes Joyce e seu neto Stephen
James Joyce e seu neto Stephen

Os textos que compõem esse volume foram encontrados no início da década de 1990, mas só foram publicados sob o título Finn’s Hotel há três anos atrás (2014 aqui no Brasil) após uma briga judicial que segurou sua publicação por duas décadas. Para o estudioso Seamus Deane, “Finn’s Hotel é tanto uma extensão do Ulysses quanto uma antecipação do Finnegans Wake“. A ideia de que este apanhado de pequenas narrativas seja um rascunho do Fineegans Wake se dá pelo fato de que, entre estas, está presente o personagem Humphrey Chimpden Earwicker, além de um esboço de carta de Anna Livia Plutabelle. No mais, as narrativas que alguns rotulam como contos, por vezes parecem fábulas ou poemas épicos em prosa, que nos contam(?) uma história medievalesca da Irlanda.

E a Irlanda nas obras de Joyce não é só um cenário, mas uma personagem viva. Não obstante, nessas narrativas o autor pincela e romantiza um pouco de sua história. E quando digo, pincela não quero dizer carência de sucesso na empreitada, mas me refiro estritamente à estrutura e natureza das anotações. Não há nada finalizado aqui, ou que talvez Joyce pretendesse olhar como finalizado para possível publicação. Tampouco nego a importância de sua publicação, tal achado é uma forma de adentrar um pouco no processo criativo desse que é um dos maiores escritores do século XX e grande expoente do movimento modernista, tanto na prosa como na poesia. Mesma coisa para com Giacomo Joyce, espécie de poema póstumo encontrado em forma de anotações, e que está presente nessa edição como anexo.

Finn's Hotel, Irlanda
Antigo Finn’s Hotel, onde James Joyce conheceu sua esposa Nora Barnacle e onde teve a ideia para o livro Finnegans Wake.

Finn’s Hotel requer uma leitura cuidadosa, tanto para captar o propósito do autor, levando em conta o contexto em que foi escrito e posteriormente encontrado, como pela linguagem usada. Assim como os demais títulos que compõem sua obra, este traz diversos arcaísmos e neologismos, resultado do jogo com a linguagem pelo qual o autor se tornou tão conhecido. É preciso levar em conta que a leitura em português perpassa todo o processo de metacomunicação intrínseco à tradução, da mesma forma que nos faz perceber o trabalho hercúleo desta tarefa. Se já é difícil traduzir ideias de um idioma para outro usando palavras que já existem, imagine traduzir ideias e construções linguísticas que partem de neologismos.

Por fim, esta não é uma leitura fácil, tampouco é uma leitura empolgante. A não ser que você já seja um estudioso do autor e queira conhecer um pouco mais da sua escrita e do seu processo criativo. Se você quer começar a ler James Joyce e conhecer sua obra, talvez o volume de contos Dublinenses seja a melhor pedida. O trabalho da Companhia das Letras em Finn’s Hotel está impecável: o livro traz um material extra bastante útil, além de belas ilustrações de Casey Sorrow e uma tradução competente assinada por Caetano W. Galindo.

Nota: 💚💚💚💛💛

Ficha Técnica

Finn's HotelTítulo: Finn’s Hotel
Título Original: Finn’s Hotel
Autor(a): James Joyce
Ilustrações: Casey Sorrow
Tradução: Caetano W. Galindo
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1923
Páginas: 160
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
Compare e compre: Buscapé | Amazon

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