| Resenha | A Bela e a Adormecida, de Neil Gaiman e Chris Riddell

A Bela e a Adormecida (Ilustração 01)

Neil Gaiman é um autor que foi me conquistando aos poucos. Já contei um pouco da minha relação com o autor ao longo de alguns posts espalhados aqui pelo blog. Depois de uma certa decepção após a leitura do primeiro volume de Coisas Frágeis (algo semelhante aconteceu recentemente com uma leitura de Haruki Murakami), resolvi dar outra chance ao autor e só tive boas experiências a partir de então. Gostei muito do que li em O Oceano no Fim do Caminho e em Os Filhos de Anansi, mas a última obra de Neil Gaiman que eu havia lido e gostado era a adaptação do conto de fadas João & Maria. A adaptação de Gaiman para o conto de fadas funcionou tão bem que só me provou o quanto ele é talentoso e multifacetado. E aquela não era sua primeira incursão nesse tipo de trabalho, pouco antes ele havia escrito este, A Bela e a Adormecida, no qual ele não apenas adapta mas recria dois contos de fadas de uma forma totalmente nova, curiosa e que funciona perfeitamente.

Os contos de fadas nunca foram obras fechadas que devessem permanecer imaculadas. Provenientes, em sua maioria, de uma tradição oral que ganhava ou perdia detalhes a cada vez que eram recontados, os contos continuam até hoje encantando leitores de todas as idades. Se é assim, porque não recontá-los à maneira de cada autor? Porque não contextualizá-los com discussões do presente? A Bela e a Adormecida não é a fusão de dois contos dos Irmãos Grimm, é a versão de Gaiman para duas histórias que já alimentavam o imaginário humano desde bem antes de terem sido registradas por escrito pela primeira vez. Segundo o próprio Gaiman, essa é “a história de uma quase Branca de Neve e um tipo de Bela Adormecida com um toque de magia negra”. Com elementos emprestados de uma e de outra, Gaiman trilha um novo caminho criando assim uma história inédita.

Neil Gaiman e Chris Riddell
Neil Gaiman e Chris Riddell

Na trama, uma rainha (que seria a Branca de Neve) está prestes a se casar e às vésperas do casamento recebe a notícia de que o reino vizinho está sendo assolado por uma praga. Os informantes são três adoráveis anões; a praga é uma maldição que deixou todos os habitantes do reino em um sono eterno (menos um) e o pivô disso tudo é uma maldição lançada sobre a princesa (que seria a Bela Adormecida) na ocasião de seu nascimento. De acordo com a maldição quando a princesa completasse 18 anos, furaria o dedo e cairia em sono eterno até que alguém a despertasse com um beijo. Disposta a quebrar a maldição e impedir que a mesma atinja seu reino em breve, a rainha resolve partir em uma missão de resgate à princesa adormecida.

É sabido que várias pessoas tentaram quebrar a maldição, homens e mulheres. Tudo em vão, ou desapareceram ou morreram ou caíram no sono. Mas a rainha havia passado cerca de um ano dormindo após uma maldição lançada pela sua própria madrasta (uma maçã envenenada?) e, portanto, poderia lograr êxito com uma espécie de imunidade ao sono amaldiçoado. O castelo está coberto de roseiras trepadeiras e o caminho está cheio de perigos, mas a rainha segue em frente na companhia de seus três amigos anões, estes também imunes por possuírem certa magia em sua essência mítica. Ao chegar no castelo, a rainha beija a adormecida (fato que deixou de ser spoiler na medida em que foi amplamente noticiado após o lançamento do livro), mas aí acontece uma reviravolta. Surpresa, a rainha se vê refletindo sobre sua vida e chega a um ponto em que é preciso tomar uma importante decisão. O que acontece? Você precisa ler para descobrir.

A Bela e a Adormecida (Ilustração 02)
Ilustração de Chris Riddell

Mas o que é tão interessante na versão de Gaiman para dois contos de fadas já tão conhecidos? As personagens, as mulheres. Não simplesmente pelo fato de serem mulheres, na maioria dos contos de fadas que já ganharam sua versão pela Disney são com protagonistas mulheres. A diferença está na forma como elas são apresentadas, não como um protagonismo relegado, mas como centro da trama que se desenvolve com base em suas ações e decisões. Nessa versão, não há um príncipe que decide ir ao resgate da princesa, tampouco que decide se casar com ela para tirá-la de uma vida entediante e de solteirona. A rainha é quem toma as decisões, ela vai resgatar a princesa, dá-lhe um beijo, salva os reinos e toma decisões sobre sua própria vida. Uma tentativa de diminuir o papel masculino do príncipe? Talvez não, mas a rainha não se vê obrigada a casar com alguém só porque este supostamente a salvou de uma maldição. A mesma regra não se aplica a ela, tampouco a necessidade do fazer afeta quem ela é.

Talvez eu esteja indo além do que realmente há, e eis aí outro ponto positivo para o Gaiman. O livro não se encerra em si, seria mínimo demais se assim o fosse. É certo que cada leitura resulta numa produção de sentido distinta, mas poucas ou nenhuma encontrará a mesmice à que muitas histórias estão fadadas. Gaiman brinca brilhantemente com discussões atuais possíveis. Isso não elimina equívocos (algo que talvez possa ter acontecido com a minha leitura), mas invariavelmente leva qualquer leitor a reflexões, e nisso o autor atinge seu objetivo. O texto de Gaiman é lindamente ilustrado pelo inglês Chris Riddell. Difícil é não se perder minutos a fio em seus detalhes. A edição da Rocco é caprichada e bem pensada do início ao fim, impecável. Valer muito a pena ler, reler e ter na estante.

Nota: 💚💚💚💚💚

Ficha Técnica

A Bela e a Adormecida
Clique para ampliar

Título: A Bela e a Adormecida
Título Original: The Sleeper and the Spindle
Autor(a): Neil Gaiman
Ilustrações: Chris Riddell
Tradução: Renata Pettengill
Editora: Rocco
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2014
Páginas: 70
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
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5 comments

  1. Olá, Ademar.

    A diagramação da Rocco dessa vez foi caprichada, juntando com essas ilustrações o livro ficou divino. É complicado pensar em contos de fadas de uma forma que não siga a tradição, ou ao menos as lembranças que temos dos contos. Colocar dentro dessa história as rédeas nas mãos das mulheres já é algo bem bacana, tirando esse foco no homem e na “dependência” que induzem a acreditar que elas têm deles. Enfim, gostei de sua resenha, explanou além da conta sobre o que traz essa obra.

    att,
    decaranasletras.blogspot.com

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  2. Para tudo, que eu preciso saber de uma coisa!! Quero incluir esse livro no CdL Saraiva para representar o L de LGBTIQ, serve?! Ou você tem outra recomendação mais interessante?
    Sei que é clichê, mas adorei a sua resenha! Muito bem escrita e eu adoro como ‘navego’ quando estou lendo qualquer texto seu.

    Beijos, May.
    Blog Silêncio Contagiante

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi May,
      Então, ele se encaixa e não se encaixa nessa categoria. Tem esse elemento, mas não é algo tão essencial. Acho que “Carol” da Patricia Highsmith poderia representar bem melhor o L dessa categoria.
      Obrigado, fico feliz que tenha gostado da resenha.
      Beijos

      Curtir

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