| Conto | Só o que a morte escreve pode ser verdade (ou Não existe wi-fi no inferno), de Raimundo Neto

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Photo: Henry Lockyer

Os gestos largos de Angëline abarcam todos à sua volta; um clima de despedida. O ar da partida rarefeito, o peso da distância concentrado nos pulmões. Ele respira fundo, e, lá, não encontra resposta alguma, mesmo assim resolve ficar. As mãos saem colhendo contato com todos na mesa; consegue alcançar todo mundo que está ao redor. Sei o nome dele porque o sigo no Instagram. Ele não me segue de volta. Sei disso porque o acompanho todos os dias. Acompanho também todo check-in que ele faz no Facebook. Um homem destemido que anda muito e conhece muitos lugares, é o que parece. Ou alguém assustado e imaturo demais para aproveitar a vida sem precisar expô-la.

Temos colegas-conhecidos em comum. Pessoas que conheço frequentam Angëline; as portas de casa estão sempre abertas e o chá sempre servido. Nas fotografias postadas no Instagram eles estão no quarto de algum deles, abraçados, ligados por uma intimidade que costura o sorriso-de-um-à-mão-fina do-outro-ao-joelho-escuro-de-um-à-caveira-colorida-no-rosto-da-Frida-tatuada-na-perna-do-outro-aos-olhos-focados na cama que tem uma colcha com temas primaveris.

Os amigos (parecem amigos) de Angëline levantaram todos de uma vez, vinte minutos depois da minha chegada. Não por mim. Eles nem sabem que existo. Mas tenho essa capacidade energética de afastar as pessoas. Papai sempre dizia isso. Alguns dos amigos (Eu acho!) pagam a conta com cartão de crédito. Outros deixam o dinheiro com Angëline. Uma concentração sombria escapa dos olhos, move os dedos da mão direita, que agarra a xícara e força Angëline a levantá-la da mesa sem levá-la aos lábios. Ele olha, anestesiado, ou triste, cansado, decepcionado talvez, para a xícara sem decidir o que fazer com ela. Algum ritual alternativo para exorcizar a solidão. Ou ele não sabe o que pedir: café mais forte? torta de limão? cappuccino menos doce e sem corações de chantilly? A senha do wi-fi? Angëline quer pedir um recomeço, talvez. Tímido, comedido, cauteloso ao ponto de calcular a quantidade de calorias que colorem um cappuccino cremoso, permanece vagando em pensamentos destemidos, e decide: Não quero mais nada.

Eu e Angëline não somos amigos. Também não sou amigo íntimo de qualquer amigo dele. Conheço apenas o Gustavo. Esquisito, como eu; sempre escondido nas próprias fotos, um espectro melancólico que por engano se esqueceu de desligar o botão que ativa as trevas íntimas. Gustavo é um jovem que inventou a própria beleza deixando a barba crescer e colorindo os cabelos de roxo; ele passa de um a dois anos sem um namoro comprometido pela certeza de que qualquer homem pode desistir dele na segunda semana. Ele tem olhos bêbados, duas bolsas de decepção embaixo dos olhos inflacionadas pelo peso de noites insones revirando memórias apavoradas por todas as desistências inexplicáveis que experimentou na vida jovem. Ri sempre muito alto, apesar da abatida existência, e quando eu o conheci, ria até para o vento, que nunca conseguiu assanhar seus cabelos coloridos.

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Photo: Henry Lockyer

Eu só soube da morte de Angëline pelas notícias compartilhadas no Facebook e Twitter. A morte tornava-se cômica em 140 caracteres. Gustavo mostrava-se estarrecido, mas não conseguia soar trágico em poucas palavras. Contar ao mundo a perda de um amigo no Twitter é uma poça d’água num oceano agitado de sofrimento e perda. Ele encharcou a timeline de sofridos resmungos sobre a morte de Angëline. As curtidas que as postagens recebiam revelavam algum elo perdido entre a imperativa necessidade de elaborar intimidade desmedida e o bom-senso de ostentar uma indiferença necessária aos parcialmente desconhecidos feito eu.

Resolvi perguntar a Gustavo o que aconteceu, via inbox:

— Aquele teu amigo morreu, né?! Que perda!

— Nem acredito!

(Se eu dissesse que estive com Angëline, sem estar com ele, ontem, soaria ofensivo e misteriosamente ridículo.)

— Como está a família dele?

(Como se não fosse muito óbvio. Eu nunca sabia o que dizer. No velório da minha bisavó, há anos, perguntei à minha avó se ela não pretendia comer o bolo de milho que vovô comprara naquela manhã, seu preferido, e que deixara guardado na geladeira. Eu morria de fome. Minha bisavó morrera de verdade. E eu não sabia que as pessoas não deviam sentir fome quando perdem pessoas importantes. Eu amava minha bisavó.)

— Oi?

— A família!

— Estão todos arrasados. A mãe dele está desesperada. Não quer aceitar, não entende como isso foi acontecer.

— E quem entende como a morte acontece?

Ele saiu do bate-papo. Repentino. Ninguém precisa dizer adeus quando perde alguém importante. Não tive tempo de dizer-lhe que o entendia.

Eu não sabia onde Angëline morava. Mas, em um dos seus check-ins, havia uma localização perdida. Não foi difícil descobrir. Eu queria realmente ver como era a sua vida depois da morte. Não estava tão triste assim; eu, não. Comecei a escrever um conto, na tarde em que o vi na livraria:

Angeline levantou da cadeira e se dirigiu até mim, lentificado pelo sorriso camarada que acompanha todos os seus gestos. O sorriso dele prende-se ao corpo, uma paisagem. Veste uma camisa azul que recebe o sol das 16:12 preguiçosamente e quase parece preta. Te conheço de algum lugar, ele diz, revelando que sabe ser clichê e premeditado. Senta-se na cadeira à minha frente, girando a cabeça para encarar a livraria inteira e só depois me olhar com a solidez dos destemidos. A alegria não se desgasta nele. Sigo você no Instragam, gaguejei. Levei dez segundos para pronunciar tudo, quando o adequado para uma frase dessas são três segundos. Ele riu, mais um pouco, encolhendo os olhos, como se faz na China, talvez. Ele não estava mais enxergando, o olhar escondido no sorriso inesperado. Ele é desses homens que mastigam o sol. Sou Angeline, mas isso você já deve saber. O meu nome é… (E se eu inventar o que sou agora?, se ele souber quem eu sou vai saber que sou um cara maçante e extravagante, o mesmo que ele deixou de seguir)… Pedro.

(Ele morreu sem saber que eu era uma mentira).

A mão avançou sobre a mesa, desviou do jarro de vidro com flores de plástico plantadas em seu interior; aquele monstro de cinco dedos sobrevoou o território das miudezas da xícara com café expresso, um cupcake vestido como bolo de casamento, três formigas ocupadas em venerar um fragmento de açúcar, movimentando sua audácia em miniatura ao carregar o pesado totem edulcorado. A mão de Angeline, que se movia com um som de coisas bonitas, estendeu-se por uma brevidade que deve ter-lhe custado um bocado de paciência. Minha mão foi ao encontro da sua, um caminho curto. O toque era quente, firme, apesar da umidade e do frio que se prendia nas colunas da livraria. O prazer é todo meu.

Pensei em contar à mãe que seu filho gargalhava horas antes de morrer, que ele ainda estava vivo em uma folha de papel; precisaria omitir o trecho em que nos beijamos e logo em seguida, com os lábios ainda molhados, Angëline suplicava para passar a língua dentro da minha bunda.

Fui até a casa da família um dia após o velório. Toquei a campainha, inaudível ao visitante. O interfone lamenta sua estática irritada: Quem é? Se fosse o Gustavo, diria: Sou eu, tia! Digo apenas: Aqui é um amigo do seu filho. Menti. Ela ainda não era capaz de acreditar que perdeu o filho, portanto não acreditaria se eu dissesse que não sou ninguém na vida dele.

O portão pareceu abrir-se sozinho. A mãe usava um vestido florido que se derramava até os pés; pés descalços afundados numa grama verde e molhada. Um colar de contas brancas do tamanho de olhos bovinos combinava com o sorriso que me disse para entrar. Acompanhou-me até a varanda. O vento camarada embalava o sono de ninguém em uma rede armada atrás da cadeira de balanço que abrigou seu corpo leve e enlutado. A morte recente espalhou falta nos porta-retratos, no lugar à mesa, nas cadeiras espalhadas pela casa, e naquela cadeira que ela ocupava. Era a cadeira preferida dele, ela me disse. E começou um embalar displicente, como se tivesse sido impelida por uma vontade metafísica. Se ele estivesse aqui agora diria para eu parar com esse barulho escroto, ela disse. A cadeira rangia fino.

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Photo: Henry Lockyer

Talvez ele estivesse ali, vendo minha mentira com seus olhos de outro mundo e quisesse me seguir até o meu apartamento. Nunca beijei um fantasma antes.

— Você era amigo dele então?

— Não muito. De jeito nenhum, na verdade.

— Ele nunca me falou mesmo de você. Eu o teria reconhecido.

(Eu o seguia no Instagram. Estive com ele sábado à tarde, pensei.)

— Acredito que ele nunca tenha falado mesmo de mim.

A unha do indicador da mão direita pintada de vermelho cutucava vagarosamente o canto do dedão da mesma mão, escavando uma irritação que a perturbava insistente e melancólica. Porque não faria mais diferença alguma deixar para trás qualquer compromisso, perder qualquer outra coisa, ou trabalho, esquecer o nome ou a data de aniversário de alguém, arrancar uma unha inteira, escavacar a pele, o corpo todo, não faria diferença. A falta do filho lhe arrancaria a camada de esmalte que enfeitava seus dedos, delicadeza bem tratada, intacta; a beleza era seu vestígio de desordem. Ela foi ao enterro do filho com as unhas pintadas de vermelho.

Angëline tinha muitos amigos, ela disse isso com os olhos de gato selvagem, atentos e sorrateiros. Aquelas pessoas que estavam com ele na livraria, sábado à tarde, não eram íntimos. Pessoas conhecidas, superficialmente responsáveis por momentos agradáveis que despertam aquela generosa possibilidade de estreitar relações. Sei que ele não esteve com nenhum deles sábado à tarde.

A mãe é concentrada. A tristeza despertara alguma espécie de foco apurado que a permitia gastar pedaços do seu tempo observando detalhes supérfluos da vida. Ela olhava (aterrorizada) havia cinco minutos para meus sapatos pretos, aquela velhice em couro escuro nos meus pés que se renova a cada pano molhado com água e sabão. O silêncio entre nós esticava-se cada vez mais a ponto de poder romper-se e atingir nossa certeza de que ontem não foi mesmo um pesadelo e hoje nunca será uma repetição.

Cristina é o nome dela. Sei disso porque uma moça alta, vestida num vestido longo com estampas floridas passou pela porta que dá acesso ao interior da casa chamando tia Tina, e avisando que Juliana, sua filha, estava precisando dela. Cristina anuncia sua retirada com um sorriso trêmulo, incerto, prestes a despencar da boca e se desfazer nos azulejos alvejados no chão da varanda. Mechas de cabelo loiro caindo e tapando os olhos. Ela os apanha com a palma da mão cheia e os joga para trás. O sorriso desapareceu agarrado aos cabelos. Cristina levanta-se, uma dor imperiosa, a coroa pesando na cabeça, e antes de cruzar a porta, pede que eu a acompanhe e explica que a moça que ficou para trás era amiga de Angëline e de Juliana, que eles tinham os mesmos amigos, que era algo para se orgulhar em qualquer filho. Calça um par de sandálias guardadas atrás da porta, veste-os e arrasta o xiiiiixiiiiixiiii das solas secas, e sem forças para chegar até a filha sobrevivente, leva-me ao antro da juventude criativa do filho.

Uma maquete de uma casa de três andares (as paredes da salinha de boneca, todas de vidro, pareciam insustentáveis) plantada em um jardim de grama plástica habitava uma mesa de vidro escuro. É um projeto impossível, pensei. Mas eu não entendia nada de arquitetura/construção civil/decoração/realizações impossíveis. A mãe revelou com um suspiro pesaroso que ele estudava arquitetura. Recompôs seu entendimento da vida como passagem e da morte como inevitável e reproduziu esperança desgastada corrigindo-se: Ele era arquiteto, formado há um ano. Esta aqui é a planta baixa da casa que ele pretendia construir, disse apontando para uma folha estirada na mesa, ao lado da maquete. Uma casa enorme, de muitos compartimentos. Abriu a gaveta de uma escrivaninha de mogno de pernas atadas de fita azul, enfiou a mão lá dentro, mexeu-a como se fuça o fundo de uma panela contendo caldo grosso e a trouxe lá de dentro, pesada de bonequinhos de ferro de calças azuis e camisas vermelhas.

— Ele queria que todos nós morássemos na casa pensada por ele.

Não sei de quem ela estava falando: se ela e a filha, ou se todos os que eu não conhecia, o pai, algum outro irmão, os tios.

— Ele era que boneco?

Ela demorou a processar a pergunta. O filho estava morto, ninguém poderia ensaiar a sua presença.

— O de camisa vermelha, ela disse. E apontou para um dos bonecos que caíra sobre a mesa.

Os bonecos eram uniformes, vestidos com a mesma camisa vermelha, uma mesmice calculada para lotar uma casa em miniatura com uma comunidade de homenzinhos repetidos.

Parece com ele mesmo, eu disse, sorrindo. Embora eu não quisesse inventar alguma esperança ridícula de que eu e Angëline fôssemos próximos e que qualquer palavra teria o poder de resgatar sua presença.

Ele queria ver sua marca no mundo, e agora há uma falta, uma marca ao avesso, na lembrança, na saudade. Angëline construiu uma ausência naqueles detalhes em que ele está presente apenas com a morte. A construção é pura resistência, mas algo ali continua desmoronando, infinitamente.

Eu era um cara de vinte e nove anos que ajudava naquele momento uma mulher de sessenta e poucos a absorver a perda do filho ao falar da ausência impregnada dele. É estranho que quando alguém que amamos morre, quanto mais o tempo se arrasta, mais a presença da falta nos ocupa e sufoca. Eu, que nunca soube confortar minha própria mãe, tentava entender o lugar que o amor redentor ocupou no coração de Cristina. Mamãe não foi vítima de um ato impulsivo, apesar de ter a vida inteira levada embora por atitudes arrebatadas e glutonas. Se eu dissesse que abandonei minha mãe, a ponto de ela resolver concretizar um desaparecimento, emancipando seu sumiço programado, talvez Cristina me desprezasse.

Cristina não é uma mulher repentina, severa; tornou-se uma montanha tolerante através da perda, mas continuava rápida em planejar sua saída de um espaço sufocante. Preciso dormir um pouco, o sono resolveu me derrubar agora, disse olhando para o mural de fotografias na parede; nelas, Angëline aparece agarrado aos amigos, a boca escancarada, mordendo o ar, faz poses excêntricas como um artista contemporâneo que usa os próprios signos do corpo para realizar algum sentido. A mãe, aquela, não se despediu e me deixou sozinho no quarto.

A casa entrou num silêncio ressabiado, fantasmas de vozes que um dia se tocaram, atritaram-se em sorrisos e conversas paralelas; a casa quieta daquela bagunça fumegante e acalorada da cozinha, das crianças que se tornam vultos, as mesmas que estão colorindo os porta-retratos nas paredes da sala. O vento movia os objetos mais frágeis e tocava os mais duros e resistentes fazendo-os vibrar, como um sinal de que nada mudaria a partir de agora, sempre. A mãe dormia em algum lugar que eu não quis descobrir. A filha Juliana, que não conheci, estava guardada no seu quarto. Se existiam outras pessoas naquela casa, a morte de Angëline carregou-as para um espaço reservado a sobreviventes, o lugar nelas que aceita a perda a contragosto. Fazer o quê?, suas bocas diriam soprando um cansaço aturdido por entre os lábios, sem dizer uma palavra.

Eu desconhecia tudo que ornamentava o bom gosto de Angëline. Cores em todos os exatos lugares, listras traçando direções coerentes pelas quais deslizavam os olhos de qualquer observador desentendido de decoração, mas capaz de decifrar a lógica do bom senso. Minha admiração dispersa foi interrompida por um pipipipi que soou escondido, um gritinho fino e esganiçado de um bicho miúdo, uma garganta metálica pedindo socorro. O celular de Angëline estava na gaveta de onde Cristina desorganizara a civilização de bonequinhos metalizados daquela pátria secreta e derrotada. Maior que a palma da minha mão, a tela clara reluzia miniaturas de mensagens, pecinhas coloridas que, quando clicadas, projetavam o segredo guardado em seu sistema como o desabrochar de uma flor. Um balãozinho de mensagem verde exibia quarenta mensagens não lidas. O ícone do Instagram dizia que publicações foram curtidas e comentadas. No fundo da tela, Angëline expressava uma máscara vermelha de olhos intrépidos e exibia a língua, que era seu próprio rosto, a caricatura de uma beleza radiante que nunca se assumiu pulcra e ridicularizava suas reservas de vaidade desgastando-as diariamente em caretas e roupas velhas desbotadas.

Cliquei no WhatsApp. Oito conversas não lidas: Tiago, Gustavo, Elisa, Estamos de Olho, ArquiTetas, Leo, +5586890634340998.

Nas conversas, aquelas pessoas reclamavam saudades, recontavam divertimentos, momentos calmos e comuns que os tornaram felizes; elas não seriam lidas ou entendidas, nem sentiriam o lamento de sua culpa como uma profanação do descanso mortificado que assolava o quarto inteiro: Você deveria ter ficado em casa comigo vendo filme. Eu disse que você não deveria ter saído de casa. A culpa é minha que te mandei pra puta que pariu quando você disse que precisava de tempo. A perda se concretiza a cada palavra dita que não traz o morto de volta.

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Photo: Henry Lockyer

Pelo que entendi, ao ler todas as mensagens, Angëline namorava o +5586890634340998. Estiveram juntos na noite anterior, em uma festa (Vamos dançar hoje? \o/ Te pego às 23h.), e na semana passada Angëline dormiu na casa daquele número. Eles se acarinham através de Querido, Amor, Fofão. E figuras de animaizinhos decodificam o afago direto e volúvel que eles alimentam, que é um pouco sacrificado, às vezes (Cadê você? O dia inteiro sem ter notícias tuas. Poxa!, o outro diz. Angëline responde: Como assim? Avisei que passaria o dia inteiro off.)

Para Elisa, Angëline conta que se sente sufocado, que tem sido custoso deixar-se cuidar de alguém:

[Angëline] A ideia de compartilhar uma vida que nem sei se ainda é apenas minha me empertiga.
[Elisa] 
Me o quê?

A Gustavo, ele confessa:

[Angëline] Você já se sentiu obrigado a ter de querer alguém?
[Gustavo] 
Já! Mas eu gostava desse alguém.
[Angëline] 
Eu também gosto, mas não quero me misturar ao que ele pretende pra nós.
[Gustavo] 
E o que ele pretende pra vocês?
[Angëline] 
Sei lá! Ele quer que eu diga o quanto o amor que ele sente é importante pra mim também.
[Gustavo] 
E você nem sabe se o ama.
[Angëline] 
Eu sei que não o amo.
[Gustavo] 
Continua com ele por quê?
[Angëline] 
Porque pensei que amor fosse apenas abraçar aos sábados e partir no domingo.

Leo enviara uma fotografia: o homem, que deveria ser Leo, e Angëline abraçados, venerando algum som subversivo, vestidos de preto, olhos fechados escondendo o mecanismo da satisfação. Escrevera: Lembra-se de nós ainda? Mensagem visualizada em setembro de 2014. Estamos em dezembro e Angëline ainda não respondeu. Nem vai responder.

No grupo ArquiTetas (U.U), um grupo de mulheres, mais Angëline, esquizofrenizam banalidades aleatórias sobre suas rotinas ordinárias e kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk pra lá, hahahahahahaha pra cá, a torto e a direito, marcando encontros noturnos para desmarcá-los em seguida; todos eles sabem que não querem nunca mais se ver depois de terem vivido o tédio reservado nos quatro anos de curso.

Digitei o número do meu celular no teclado do celular dele. O meu vibrou. Salvei o número e liguei outra vez. Atendi. Falei Oi e ouvi minha voz dita e ouvida, com um celular de cada lado da cabeça; a impressão de que Angëline escapava pelo ruído ecoado da ligação assustou-me um pouco. Não o pavor do crime cometido, e sim a ansiedade indecente e nauseante de sentir-se ridículo e impotente.

Oi, Angëline. Eu sei que você não consegue me ouvir. Eu já fiz isso uma vez, ligar para os mortos. Ligar para quem não está mais aqui é minha especialidade, embora não seja A Minha Coisa; não sinto prazer, apenas necessidade. Quando meu avô morreu, também fiz isso. Liguei para o celular dele dezenas de vezes. E não foi porque ele não atendeu que deixei de dar meu recado, afirmar minhas declarações de saudade. Sei que você não me conhecia, que não fomos próximos. Observei seu distanciamento no sábado antes da sua morte. Falo da Sua Morte como se ela pertencesse a você, não como um fardo, apenas como uma espera. Porque o que nos espera também já é nosso. Não sei mais o que posso esperar; se desconheço o que está do outro lado aguardando a minha procura, então não tenho mais nada. Deve ser assim com todo mundo. A maioria das pessoas desiste de esperar, pela esperança que envelhece e se desgasta. E quando isso acontece o amor, inquieto e cínico, trancado em algum lugar não mais secreto, mas numa passagem revelada e exposta, torna-se violento e antipático. Fantasiei ridiculamente minhas histórias. Em um momento da minha vida, como agora, passei dias e dias trancado num quarto escrevendo ridicularias mal elaboradas sobre encontros fortuitos que desembocavam, como um rio violento, em rotinas apaixonadas. Mas a escrita não é mágica; ela não faz o futuro se aproximar; ela revela para esconder. Foi o que fiz com a sua morte. Agora você está aqui e nem existe mais.

Já nem sei se falo ou escrevo. As palavras escritas estão impregnadas das palavras faladas. Perdi a decência e o bom senso, minha gramática está ferida, e meus significados sangrando.

Descanse em paz.

Acompanhei todo check-in que ele fez pelo Facebook. Um homem destemido que andava muito e conhecia muitos lugares. Semana passada ele esteve no Chile, em Santiago. Na segunda-feira tomava café numa livraria da cidade, aqui. Hoje, está morto.

Não sei como ele vai fazer para dar notícias agora.

Não existe wi-fi no inferno.


Autor Convidado

Raimundo Neto é psicólogo, escritor e colaborador da SP Review com resenhas de livros e peças de teatro, conto e crônica. Publicou contos na Revista Malagueta, no site da extinta revista Bravo (entre os 10 selecionados do concurso Saideira), e 2º colocado no concurso literário Contos de Teresina. Em 2015, também participou da série de contos “Gerúndio a dois”, organizada pelos escritores Sérgio Tavares e Alexandre Staut, na revista virtual São Paulo Review, juntamente com outros escritores. Possui também contos publicados na edição n° 4 da Revista Parenteses e na na edição nº 4 da Revista Caravela.
Contato: raimundoneto22@hotmail.com

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