| Resenha | A Morte em Veneza, de Thomas Mann [Releitura]

A Morte em Veneza, de Thomas Mann

Parece, porém, que os espíritos nobres, valorosos, imunizaram-se rápida e definitivamente contra o picante e amargo estimulante que é o conhecimento; […]
Thomas Mann, A Morte em Veneza, pág. 21.

Há exatamente três anos eu publicava minhas primeiras impressões sobre esta novela incrível do Thomas Mann (Confira AQUI!). De antemão devo antecipar que foi uma das leituras mais difíceis e incríveis que eu havia concluído até então. Isso já sugere que em algum momento eu precisaria reler e este texto é para dizer de forma bem enfática e feliz que EU RELI! A releitura veio numa ótima fase da minha vida, pois coincidiu com a criação de um grupo de “Leituras Compartilhadas” composto por colegas da faculdade. Outro fator interessante sobre a releitura foi a publicação de uma nova edição, desta vez pela Companhia das Letras, a qual contém não só a novela, mas também um segundo texto do autor (Tonio Kröger, que eu falarei em outra resenha) e, no final, alguns textos de apoio sobre as obras em questão. Mas vamos às minhas novas impressões sobre A Morte em Veneza.

Apenas a título de contextualização, a novela foi publicada originalmente em 1912 e tem como plano de fundo uma Veneza paradisíaca e que, logo em seguida, começa a ser arrasada por uma peste. Mas esse assunto apenas existe para que conheçamos Gustav Aschenbach, um escritor de meia idade, e Tadzio, um jovem garoto de nacionalidade desconhecida. Ambos passam uma temporada de férias nas praias de Veneza e o primeiro se vê (de forma instantânea) enamorado pelo segundo, o qual está sempre alheio a tudo à sua volta. E a história é basicamente sobre isso, no entanto, muitas coisas estão presentes nas entrelinhas o que só vi agora nessa segunda leitura. Para explicar melhor, compararei minhas impressões iniciais com as atuais, isto é, falarei a seguir sobre a diferença da primeira pra segunda leitura, sobre a experiência de reler e das opiniões que permaneceram e mudaram.

A Morte em Veneza (Filme)
Cena do filme “A Morte em Veneza” (1971)

Como pode ser observado na minha primeira resenha, na primeira leitura meu olhar ficou mais voltado para o romance – se o mesmo iria ou não acontecer. Já nessa segunda leitura, dei um pouco mais de atenção ao protagonista enquanto artista. Assim, além das questões relacionadas ao “amor platônico”, algumas outras questões surgiram, como por exemplo: Quem era Aschenbach antes de ir para Veneza? Como era sua relação com seus filhos e familiares? Quais os principais conflitos envolviam aquele sujeito tão misterioso? E ao fazer esse tipo de questionamento percebi que Thomas Mann ao criar um personagem “desconhecido”, como é o caso do adolescente, do qual não conhecemos nem sua nacionalidade (o que é apenas sugerido), desejava “desviar os olhares” para a existência e conflitos do protagonista. Infelizmente ainda não consegui compreender o porquê disso, mas fiquei muito feliz em conhecer – de fato – esse personagem, que além de romântico é um excelente artista.

Outra interpretação que modifiquei com a releitura foi referente ao tipo de sentimento que Aschenbach nutria pelo jovem. Além do amor declarado pelo protagonista, na primeira leitura eu imaginei que Gustav desejava “possuir” a beleza e vivacidade própria da juventude, no entanto, após me atentar mais às entrelinhas percebi que a busca pelo autoconhecimento é bem mais presente por parte do protagonista que a busca pela beleza e perfeição. Em momentos em que o personagem reflete sobre sua existência enquanto artista, percebemos que ele – ao declarar que precisa escrever a “melhor obra de sua vida” – está, somente, procurando descrever-se na mesma e, para tanto, precisa se conhecer o máximo que conseguir.

A Morte em Veneza (Filme  )
Cena do filme “A Morte em Veneza” (1971)

Como já conhecia a densidade do texto do Thomas Mann, a releitura demandou um pouco mais de tempo, pois me permiti analisar algumas situações e fazer algumas conexões com o período histórico em que foi escrito e ambientado. As reflexões e inferências se tornaram mais válidas principalmente por conta dos textos de apoio presentes nessa edição caprichada (e capa dura) da Companhia. Esses ensaios (Thomas Mann e Um Esteta Implacável), assinados por Anatol Rosenfeld, trazem um pouco sobre a vida e obra deste autor que possui grande representatividade na literatura alemã.

Em breve trarei minhas impressões sobre a segunda novela presente nessa edição, Tonio Kröger, e – espero que ainda esse ano – um texto abordando alguns apontamentos sobre minha leitura de Doutor Fausto, que também foi relançado pela Companhia das Letras em edição tão linda quanto a de A Morte em Veneza. E, para quem tiver interesse, a novela A Morte em Veneza, teve uma adaptação homônima para o cinema realizada em 1971, pelo diretor italiano Luchino Visconti.

Quem já leu Thomas Mann? O que acham dessa novela? Quanto as releituras, têm esse hábito? Curtam, comentem!

Nota: 💚💚💚💚💚

Ficha Técnica

A Morte em Veneza e Tonio Kröger, de Thomas Mann
Clique para ampliar

Título: A Morte em Veneza & Tonio Kröger
Título Original: Der Tod in Venedig & Tonio Kröger
Autor(a): Thomas Mann
Tradutor(a): Harbert Caro & Mário Luiz Frungillo
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1912 & 1903
Páginas: 200
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
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6 comments

    • A literatura alemã sempre me agradou muito.
      Acho que todo mundo deveria ler alguma coisa do Thomas Mann, rs.

      Espero que realmente leia e que seja uma leitura incrível!

      Bjs!

      Curtido por 1 pessoa

    • Ler Thomas Mann é um desafio mesmo, mas um ótimo e prazeroso desafio!
      Quando ler, faça o favor de compartilhar sua opinião comigo…

      Beijos!

      Curtir

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