| Resenha | A Rainha da Neve, de Michael Cunningham

Central Park, Nova Iorque.jpg
Central Park, New York City

Ainda assim, brota a pergunta: Quem ele era na noite anterior? Terá sido, na verdade, alterado de alguma forma sutil ou simplesmente se tornou mais consciente dos detalhes da própria situação corrente? Difícil responder.
Michael Cunningham, A Rainha da Neve, pág. 49.

Escolher nossas leituras é sempre algo bem gratificante, pois são elas que traçarão o caminho para novas descobertas. Contudo, às vezes essas escolhas são realizadas com base em alguns critérios que não fazem o menor sentido depois da leitura. E foi assim que cheguei nA Rainha da Neve, de Michael Cunningham. Para quem desconhece, Cunningham é ganhador do Prêmio Pulitzer com seu romance As Horas, que ganhou maior visibilidade depois de sua adaptação cinematográfica homônima — As Horas (The Hours, 2002) —, e que por sinal eu adoro. Mas, apesar da relação, e da indicação na capa do livro (que quase nunca leio), eu não tinha feito as ligações. Mas o que importa agora é que li e posso dizer: Ainda estou confuso!

A Rainha da Neve faz referência direta ao conto de fadas homônimo escrito por Hans Christian Andersen. Contudo, a referência é mais especificamente ao lago congelado — chamado “O Espelho da Razão” —, presente no meio do salão, onde a Rainha da Neve se postava às vezes para refletir sobre algumas situações. Acredito que o autor, ao pensar sobre “O Espelho da Razão”, decidiu trazer para seu romance algo que fizesse com que os personagens refletissem sobre o rumo da própria vida. Assim, temos a primeira frase do livro: “Uma luz celestial mostrou-se a Barrett Meeks no céu do Central Park quatro dias depois de Barrett ter sido maltratado, uma vez mais, pelo amor” (p.11).

Nova York
New York City

O romance nos apresenta três personagens principais, de personalidades completamente distintas e com uma grande quantidade de conflitos internos. O primeiro, que acabei por considerar o protagonista, é Barrett Meeks, homossexual que acabou de terminar mais um dos seus relacionamentos rápidos, porém intensos; ele divide o apartamento com seu irmão e a noiva. Tyler, irmão mais velho de Barrett, é um músico viciado em drogas que está tentando, quase em vão, criar uma música de amor para sua noiva; contudo, ele deseja que esta seja a melhor música de sua carreira e não só “mais uma música de amor”. Beth, noiva de Tyler, sofre de um câncer em estado terminal e pretende se casar “antes do fim”. Mas, apesar desses dramas relacionados à doença, esta se mostra a personagem mais forte dos três.

Conhecendo os personagens assim por alto, têm-se a ideia de que muita coisa irá acontecer, mas é aí que entra a principal habilidade de Cunningham: descrever poeticamente (ou filosoficamente?) sobre as coisas simples do cotidiano, por mais complexos que sejam os problemas. E é assim que a história se segue, sem grandes reviravoltas ou mudanças significativas. O autor vai apresentando os personagens, seus conflitos, as possibilidades apresentadas, todas as decisões erradas que são tomadas juntamente com suas consequências, sem grandes desfechos ou soluções incríveis. Até porque, a vida nada mais é que um aglomerado de atos simples (comer, dormir, trabalhar, ler…) que nos levam para um caminho que não conhecemos ou desejamos, mas que apenas aprendemos ou não a conviver.

Michael Cunningham.jpg
Autor Michael Cunningham

Sobre o romance, essas são as principais considerações a serem feitas. Contudo, devo dizer que se o tivesse lido em outro momento, provavelmente não o teria adorado tanto. Isto porque, este é um livro inteiramente desenvolvido para provocar reflexões no leitor, mas as reflexões são provocadas a partir das pequenas coisas vividas pelos personagens. E, se você esperar uma história cheia de mistérios, reviravoltas ou ainda tomadas de decisões impulsivas, este não é o livro certo. Mas ainda assim, mantenham-o na sua lista de livros por ler, pois ele pode provocar uma mini revolução nas suas ideias, em especial naquelas que dizem respeito aos relacionamentos de uma forma geral (amigos, família, amores). E, por fim, vale ressaltar que a edição da Bertrand Brasil está impecável.

Espero que tenham gostado da dica. Não deixem de ler e comentar depois suas impressões. Boas leituras!

Nota: 💚💚💚💚💛

Ficha Técnica

A Rainha da Neve, de Michael Cunningham
Clique para ampliar

Título: A Rainha da Neve
Título Original: The Snow Queen
Autor(a): Michael Cunningham
Tradutor(a): Regina Lyra
Editora: Bertrand Brasil
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2014
Páginas: 252
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