| Resenha | Os Papéis de Aspern, de Henry James

Os papéis de Aspern (detalhe)

Uma pessoa não defende um deus: o deus dessa pessoa é ele mesmo sua defesa.
Henry James, Os Papéis de Aspern, p. 24.

Conheci o trabalho de Henry James com A Outra Volta do Parafuso. Desde meu primeiro contato fiquei interessado em ler qualquer coisa do autor. Lembro que foi uma leitura rápida e que me surpreendeu positivamente a despeito do que eu sabia sobre a obra antes mesmo de iniciar a leitura. A experiência serviu não apenas para me aguçar a curiosidade em relação às demais obras de James, mas também para me introduzir na prática aos elementos usados por ele que eu já havia estudado em cadeiras de literatura americana. Henry James é um autor multifacetado, que trabalhou diversos temas e em vários gêneros. Se em A Outra Volta do Parafuso James explora o horror em uma clássica história de fantasma, no livro sobre o qual falo neste texto, Os Papéis de Aspern, temos uma novela de suspense com boas doses de humor.

Nessa novela, assim como no outro título supracitado, o protagonista não é nomeado na narrativa. O que se sabe é que ele é um editor aficionado pelo poeta americano Jeffrey Aspern. O protagonista e seu sócio, John Connor, também apreciador da obra do poeta, já publicaram tudo disponível de autoria de Aspern. No entanto, eles ficam sabendo que a musa do poeta ainda vive em Veneza, numa espécie de autoexílio, e que possivelmente possui papéis inéditos escritos por Aspern (cartas, poemas, rascunhos, …). Uma tentativa de contato de Mr. Connor originou em certa hostilidade da parte da ex-musa, Mrs. Bordereau, que vive em isolamento com sua sobrinha e não quer nenhum editor revirando seu passado.

The Aspern Papers by the Dallas Opera. (© Karen Almond, Dallas Opera)
The Aspern Papers by the Dallas Opera. (© Karen Almond, Dallas Opera)

Como última cartada para conseguir colocar as mãos nos papéis, o protagonista bola um plano com a ajuda de sua amiga residente em Veneza, Mrs. Prest. Usando uma identidade falsa, o protagonista vai até o casarão habitado pelas duas Bordereau, que fica no subúrbio de Veneza, com o intuito de alugar um quarto para sua estadia. O artifício tem como objetivo se infiltrar na casa e conhecer a tal musa, na possibilidade de descobrir alguma informação adicional sobre o poeta e quiçá conseguir colocar as mãos nos supostos papéis, nem que para isso ele precise roubá-los. Aos poucos, o protagonista vai criando certa relação de amizade com a jovem Miss Bordereau. A idosa que, segundo a sobrinha, já está na casa dos cem anos quase não aparece e vive reclusa em seus aposentos, para tristeza do editor.

À medida que o tempo passa,  Mrs. Bordereau, que já vinha lucrando às custas do aluguel bem oneroso cobrado ao editor, tenta arranjar sua sobrinha para casar com seu inquilino como forma de garantir o futuro da jovem. Contudo, o protagonista só tem olhos para sua idolatria ao poeta e vê a garota apenas como uma possível amiga, já que de certo modo ele a está usando para atingir seus objetivos. Uma das características mais marcantes do texto no que diz respeito às relações das personagens é a sutileza. A admiração do editor pelo poeta é apaixonada demais, abrindo margem até mesmo para especulação sobre homoafetividade. O próprio Henry James recebeu comentários desse tipo, embora ele e seu alter ego nesse livro talvez estivessem apenas se reservando em celibato.

A leitura flui de forma muito natural e divertida. James nos prende em uma trama objetiva, que vai direto ao ponto, estruturada em elementos que mantém o leitor preso a cada virar de página. É difícil começar e não ir logo até o fim. As personagens desfilam pela narrativa deixando a cada diálogo um pouco de curiosidade sobre quem eles realmente são e quais os seus propósitos. A novela é pontuada por cenas e diálogos marcantes, nas quais as camadas de cada um dos três personagens principais vão sendo removidas e assim vamos conhecendo-os cada vez melhor. Aponto aqui como destaque a cena em que o protagonista se vê confrontado pela velha na escuridão do seu quarto, precisei reler para captar a engenhosidade de James que me provocou ao mesmo tempo susto e riso. Há uma dosagem equilibrada de suspense e sarcasmo ao longo de toda a novela.

Outro destaque é o fato de que em Os Papéis de Aspern, Veneza não é apenas um cenário, mas uma personagem imanente. Como acontece em A Morte em Veneza, de Thomas Mann. Embora maior parte da ação aconteça nas dependências e no jardim do casarão, é possível sentir a brisa veneziana, ouvir o correr das águas em seus canais e visualizar a passagem das tradicionais gôndolas. Se Veneza se tornou um cárcere para a velha americana, para o protagonista, assim como para James, é o lugar mágico do Velho Mundo, a que ele de fato pertence, onde encontrará seu objetivo final. Ao contrário do que pensei antes da leitura, Os Papéis de Aspern me agradou ainda mais que A Outra Volta do Parafuso, embora a proposta deste segundo se apresente mais interessante. O próprio James preferia Aspern.

A edição mais recente publicada aqui no Brasil é da editora Penalux, com tradução de Chico Lopes. O trabalho da editora está impecável, além da edição em capa dura, o livro traz ilustrações de Silvana de Quadros e uma apresentação detalhada do tradutor (a propósito, sugiro que leia o texto introdutório somente ao final da leitura). Só posso recomendar amplamente. Leiam e me contem o que acharam.

Nota: 💚💚💚💚💚

Ficha Técnica

Os papéis de AspernTítulo: Os Papéis de Aspern
Título Original: The Aspern Papers
Autor(a): Henry James
Ilustrações: Silvana de Quadros
Tradução: Chico Lopes
Editora: Penalux
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1888
Páginas: 180
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
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One comment

  1. Oi, Ademar. Gostei de tua apreciação. Estou nas sendas da tradução de ficção em Inglês desde 2004, e a primeira tradução que fiz (infelizmente, saiu com erros que não foram de minha responsabilidade) foi exatamente de A volta do parafuso (Landmark, SP). Recentemente, traduzi para a Penalux também um livro famoso ainda um tanto desconhecido no Brasil, O grande deus Pã, de Arthur Machen. Abraços.

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