| Conto | O Poste e a Lua, de Matheus Alencar

O Poste e a Lua
Fonte: Tumblr

Não saberei como iniciar essa história. Era uma vez? Acho que não, muitas dessas histórias que começam com esse início bastante conhecido são com finais felizes. Como pode existir um final feliz? Como sabemos se isso é um final feliz? Quantas perguntas e poucas vidas para contar. Então, vamos mudar o rumo do tabu.

Era uma vez uma rua, mas não uma simples rua, lá vivia nosso incrível personagem, um poste. Sim, um curvo, cinza e brilhante poste. Fornecendo sua luz aos pequenos metros quadrados que poderia alcançar de acordo com as leis da física. Ele era parado, não se movia, não comia, só vivia. Ninguém sabia. Como deverá ser viver e ninguém saber?

Ele era alto, tinha números, marcas e lembranças. Seu nascimento? Nem ele lembrava mais. Só vivia, quer dizer… Ele vivia? Ficar parado em um certo lugar até a sua morte… Se isso pode ser chamado de viver. Seu passatempo favorito era observar o chão, quando tinha sorte, passava alguém que ele achava peculiar.

Numa certa noite ocorreu algo anormal, ele não acendeu, seu primeiro pensamento era a morte. Como ele já tinha imaginado centenas de maneiras de como ia morrer, mas nada se comparava ao seu pensamento maior, e depois da morte? O que ocorre?

Como pode um simples poste pensar mais do que certos humanos?

Seu nome era apagão, ele não sabia. Só sentia uma iluminação forte em cima de si. Ao observar o chão e perceber que ainda o via, não com a mesma iluminação, mas, sim, ele via. E como via. Então, no desespero, sentiu que deveria ver de onde viria esse brilho tão elegante e serena. Começou, desentortando os tortos modos de ser… Como se ele quebrasse as linhas do destino, no meio do processo sentiu que isso mudaria sua vida, coitado, pobre coitado. Como mudaria! A dor era enorme, ele sabia que poderia causar o seu fim. Mas, como impedir um ser determinado? Como deveria ser? Eu? Mudar o destino já realizado? Ou mudar o que vai realizar?

O Poste e a Lua (Imagem)
Fonte: Tumblr

Quando ele pensava que não iria conseguir, quando a gota de esperança restante escorre sobre o corpo, a confirmação ocorre. Ele a vê. Enorme e elegante, como um rio. Serena e serelepe, como uma bailarina. Brilhante como o coração dele. Ai como ele desejou poder ter um desejo. Mas, esse desejo teria que ultrapassar os limites do inexistente. Eu poderia escrever seiscentas palavras dos pensamentos do Poste sobre a aparição do novo. Mas, irei resumir em uma frase que ficou em minha cabeça. “Esse coração de poste foi abastecido pela luz do existente”. Eu queria chorar, queria gritar, queria fazer de tudo para alertar. Porém, continuemos a contar essa história.

O Poste não se sentia mais só. Ele sabia que ela estaria lá. Mas, e se fosse ele? O Poste não ligava a mínima. Era amor. Ou será que era cedo demais para dizer isso? Quem se importa? Ele amava, e como amava. Seus pensamentos de morte eram mínimos aos pensamentos de palavras para definir a beleza do novo ser que ele encontrou. Qual será o nome dela? Será que tenho como perguntar? Quantos anos ela tem? Milhares de pensamentos envolviam esse Poste.

Suas tentativas de perguntar eram falhas, achou que ela devia estar dormindo, já que todos os seres menores que ele, faziam isso… Menos ele.

Como alguém pode amar algo que, de certo ponto de vista, é impossível?

O Poste só tinha a lua. E a Lua só tinha o universo.

Meu bem, você tem que amar corretamente. Mas, quem ama corretamente?

O Poste só conseguiria ver a Lua. Mas, a Lua nem imaginava essa história. E quando voltou a luz, ele ainda sabia que a luz da Lua era maior que a dele. E concordava eternamente. Ele passou a noite inteira observando o luar. Todo momento foi mágico. Será que ela estava lá todo o momento? Como eu não observei-a antes? Por quê?

O Poste, com seu oco, com seu modo cinza de ser, com tudo que o rodeia, amava. Pois, sim, qualquer ser pode amar, até o mais terrível, por incrível que pareça.

Em um determinado momento da tarde o Poste viu quatro crianças ao redor de uma garotinha… Essa garotinha chorava. Chorava muito. As outras garotas gritavam e berravam palavras e frases como; “feia”, “burra”, “você não é bonita”, “Acho que tem um monstro na rua”. O Poste não gostou nem um pouco daquilo, ele queria se mover o suficiente para que ele fizesse parar, entretanto, não iriá conseguir. E se ele conseguisse, demoraria muito, porém, a sua maior vontade era chegar na menina e falar. Menina, escuta, não ligue para o que os outros falam, sua beleza é maior que a dela. Não importa ter a beleza externa se a interna é podre. Cultive essa beleza externa que tens. E se alguém vier falar que eres feia… Ande com a cabeça erguida e com um pensamento na cabeça, essa pessoa que falou tem um coração podre. E uma alma perdida.

Às vezes um poste tem mais coração que um humano.

O Poste e a Lua (Imagem do Autor).jpg
Imagem do Autor.

Quando chegou a noite, o nosso personagem estava eufórico com um amor inventado. E observava loucamente, com a atenção de mil espectadores, tão atento que não viu um caminhão ficar do lado dele. Que não viu uma escada se aproximar dele. E só reparou quando ele foi sendo contorcido até sua forma original. E então a tristeza apareceu. Na manhã seguinte, ele se contorceu até a posição que estaria a lua. E na manhã seguinte, uma escada e um homem vinha colocá-lo na forma original. Tantas e tantas vezes foram repetidas. Até que ocorreu a surpresa para o Poste, o entortador não veio. Assim, ele teve como apreciar sabendo que não seria perturbado.

No terceiro dia, após a desistência, chegou o caminhão com a escada, e ao invés de entortar, ele foi retirado.

Hoje ele vive em um lixão, olhando para a lua todas as noites, só esperando o momento que irá ser utilizado, ou quando ele for esmagado, ou quando soterrarem ele, ou quando ele se decompor com o tempo. Ele não sabe o que vai acontecer. E quem saberá? O tempo? A vida? O presente?

E qual o motivo para necessitarmos tanto dessa resposta?

O Poste só quer amar enquanto houver… O presente.

Autor Convidado

Matheus Alencar é estudante de Letras Português na Universidade Estadual do Ceará. Além disso, procura escrever alguns textos nas horas vagas, entre poemas e contos, mas nada publicado no momento. Como é de se esperar, possui como hobby principal a leitura, seguido da observação do mar e das ruas. Como forma de externar os sentimentos, Matheus administra uma página no Facebook (Notas de amor, fiz quais?) voltado para a divulgação de alguns dos seus poemas.

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