| Resenha | Incidente em Antares, de Érico Veríssimo

Incidente em Antares

[…] Claro! É fácil ser justo e compreensivo para com os que morrem. Basta enterrá-los… e eles nos deixam em paz. Agora, é difícil compreender e ajudar os vivos vinte e quatro horas por dia, todos os dias do ano, ano após ano…
Érico Veríssimo, Incidente em Antares, pág. 222.

Considerando todo esse momento de crise política em que o Brasil se encontra atualmente, fiquei me perguntando o que deveria fazer para contribuir com o processo de reflexão em meio a tanta alienação e desatenção frente ao caos. No entanto, quando penso em todos os posicionamentos políticos que já tive oportunidade de ler, acabei decidindo fazer indicações de livros que mostrassem como se deu o processo de formação da nossa sociedade atual, mas a Isabella Lubrano do canal Ler Antes de Morrer fez um vídeo recentemente que diz exatamente o que pretendia fazer (Veja o vídeo AQUI). Assim, como há tempos eu gostaria de compartilhar minha leitura do Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, feita na Universidade, acabei escolhendo indicar este que funciona como uma espécie de “Manual da Política Brasileira”.

Não se assustem com o termo anterior, este é um romance, apesar de toda a carga histórica e documental que ele carrega. De forma bem simples (e como o próprio título já sugere), a história gira em torno de um determinado “incidente” que acontece numa sexta-feira 13, em 1963, num município fictício situado na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina — Antares. No entanto, antes que se chegue exatamente ao acontecimento, o autor apresenta essa cidade, desde sua gênese até o fatídico dia.

O livro é dividido então em dois momentos. O primeiro deles, denominado Antares, é onde essa contextualização acontece. Esta é a menor parte, mas a leitura acontece de forma mais lenta, pois o leitor é imerso em um retrospecto da formação da cidade e o início das gerações das duas famílias rivais (Campolargos e Vacarianos) que disputavam de forma bem violenta a posse das terras em questão. São os patriarcas dessas famílias que protagonizam boa parte dessa trama. Essa parte é recheada de coronelismo e suas oligarquias, tráfico de influência e outras tantas violências específicas da época.

Incidente em Antares. de Érico Veríssimo.jpg

O segundo, por sua vez, denominado O Incidente, é onde de fato tomamos conhecimento sobre o que realmente aconteceu. Na data em questão (1963, meses antes do Golpe Militar), os operários e funcionários antarenses lutam por melhorias, o que acaba provocando uma Greve Geral dos trabalhadores. Neste dia, completamente tomado pelo caos gerado pelo movimento, sete pessoas também acabam falecendo, por motivos variados. Tudo parece bem, até que durante o cortejo os familiares percebem que os coveiros da cidade também aderiram à Greve. Os defuntos insepultos e abandonados na porta do cemitério, decidem que é hora de “levantar” e vagar pela cidade vasculhando e expondo a intimidade de parentes e amigos, em busca de argumentos em prol dos seus “direitos de mortos”. Lembrando que essas informações não são spoilers, uma vez que estão contidas na sinopse e, de certa forma, são elas que atraem o leitor para a obra.

Em relação à primeira parte, como já disse, é bem cansativa. Mas é fundamental para a compreensão do clima em que aquela sociedade estava inserida, bem como os principais motivos desencadeadores da tal greve. Já na segunda parte, bem mais interessante e empolgante, apesar de ser maior, a leitura flui bem mais rápida. No entanto, algumas coisas devem ser consideradas e observadas durante a leitura, para que se faça uma boa compreensão do que realmente está acontecendo. Em primeiro lugar, apesar de termos “mortos levantando dos caixões”, o autor pouco foca no ato fantástico, ficando a cargo dos diálogos direcionarem o leitor a temas como hipocrisia, mazelas sociais, violência e abuso de poder, e ainda toda a negligência ao que se entende por “Democracia”.

— Qual democracia! — replicou o cel. Vacariano — Vivemos numa cafajestocracia, isso é que é. Se dependesse de mim, eu puxava a corrente da descarga para toda essa porcaria ir-se cano abaixo… (p. 94)

Incidente em Antares (Minissérie)
Cena da minissérie homônima: Descida dos defuntos para o coreto central.

Outro detalhe importantíssimo é composto pela personalidade dos mortos. São eles: Barcelona, o sapateiro anarquista; Cícero Branco, advogado influente; João Paz, jovem pacifista torturado até a morte pela polícia; Pudim de Cachaça, como próprio nome já sugere, um bêbado; Menandro Olinda, pianista deprimido; Erotildes, prostituta. Eles seriam completamente ignorados pela sociedade “viva”, caso o último deles não fosse Quitéria Campolargo, a matriarca da cidade. A composição dos personagens faz uma analogia à sociedade civil que pede por justiça e atenção perante as autoridades. Além disso, é importante mencionar que tanto estes como os demais personagens são muito bem construídos, como já era de esperar, dada a experiência de Érico Veríssimo.

Esse foi meu primeiro contato com o autor e foi bastante prazeroso. Diferente do que costumo fazer, acabei conhecendo a literatura de Érico pelo seu último romance, publicado no ano de 1971, os considerados “anos de chumbo” do período da Ditadura Militar, do Governo Médici. Como essa sátira contra o autoritarismo, violência e repressão conseguiu burlar os sistemas rígidos da Ditadura? Não sei ao certo, mas algumas teorias já foram levantadas, entre elas a influência e fama do autor. Se foi isso ou outros fatores, não se sabe ao certo. O importante é que hoje temos acesso a essa obra fantástica. Quanto aos demais livros do autor, ainda tenho a ambição de ler O Tempo e o Vento, mas isso será cena dos próximos capítulos.

Fica aqui uma recomendação para leitura e formação de opinião, em tempos difíceis. Recomendado!

Nota: 💚💚💚💚💛

Melhores Quotes

[…] “Para conseguir o que quer, Tibé, essa gente é capaz de tudo, até de usar meios decentes e legais”. (p. 44).

— Racista, eu? Ora, não seja bobo. Sabes como trato a minha negrada. Eles me adoram. Mamei nos peitos duma negra-mina. Me criei no meio de moleques pretos retinos. Quando leio esses casos de ódio racial nos Estados Unidos, comento a coisa com a Lanja e lhe digo que no Brasil, a gente, graças a Deus, não tem esses problemas, pois aqui o negro conhece o seu lugar. (p. 46)

[…] Só a educação positiva poderá curar o ceticismo que domina as classes superiores, e o indiferentismo ou a revolta que caracteriza as classes inferiores. (p. 305)

— Comunista é o pseudônimo que os conservadores, os conformistas e os saudosistas do fascismo inventaram para designar simplisticamente todo o sujeito que clama e luta por justiça social. […] (p. 384)

Drops

  • Este romance foi adaptado para minissérie de TV, em 1994, pela Rede Globo, sob direção de Carlos Manga, Nelson Nadotti e Paulo José. O elenco era composto de personalidades como Eliane Giardini, Eva Todor, Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Paulo Betti, Paulo Goulart, Betty Faria e Cláudio Corrêa e Castro.

Abertura da Minissérie

Ficha Técnica

Incidente em Antares. de Érico VeríssimoTítulo: Incidente em Antares
Autor(a): Érico Veríssimo
Editora: Companhia de Bolso
Edição: 2006 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1971
Páginas: 496
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
Compare e compre: Buscapé | Amazon

 

2 comments

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s