| Resenha | Demian, de Hermann Hesse

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Hermann Hesse

A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. […]
Hermann Hesse, Demian, pág. 10.

Quem acompanha minhas leituras atuais deve ter percebido que estou numa vibe de leituras densas e, em sua grande maioria, clássicos da literatura universal. Depois de reler A Morte em Veneza, de Thomas Mann, chegou a vez de falar de outro escritor alemão que tanto me causava curiosidade e receio — Hermann Hesse. Há dois ou três anos eu iniciava meu primeiro contato com o autor com O Lobo da Estepe, mas por alguma razão que no momento não recordo, a leitura permanece inacabada. No fim do ano passado, a Editora Record lançou a edição comemorativa dos 50 anos de lançamento de Demian no Brasil e vi nisto uma oportunidade de conhecer um pouco mais da literatura alemã.

Neste romance, que sempre figurou nas listas de melhores romances homoafetivos, temos um relato biográfico de Emil Sinclair. De antemão, gostaria de deixar claro que as relações homoafetivas são meramente interpretativas. Como tenho preferido atualmente, segue a sinopse disponibilizada pela editora, que melhor explica a história deste que foi um dos romances mais incríveis e complexos que li atualmente.

Sinopse:
Emil Sinclair é um jovem atormentado pela falta de respostas às suas questões sobre o mundo. Ao conhecer Max Demian, um colega de classe precoce e carismático, Sinclair se rebela contra as convenções de seu tempo e embarca em uma jornada de descobertas. Publicado originalmente em 1919, este clássico, considerado um divisor de águas na trajetória de Hermann Hesse, reflete os questionamentos do escritor alemão acerca da relação humana, com suas contradições e dualidades.

Imagem do Impressionista Salvador Dali
Imagem do Impressionista Salvador Dali

Como podem perceber, este é um romance de formação onde o leitor vai acompanhando todo o crescimento físico e emocional desse protagonista através de seus próprios relatos. O narrador faz um retrospecto à sua infância e juventude, na tentativa de perceber onde e quando começou sua longa jornada em busca de si mesmo. Como já está presente no próprio título, Max Demian possui uma grande influência nesse processo. Os dois garotos se conhecem nos tempos de escola e, por razões peculiares, Demian (que é mais velho) acaba tendo que assistir aulas na turma de Sinclair. Como se não bastasse essa aproximação, Emil está envolvido em problemas relacionados ao jovem Kromer e Demian usa seu poder de persuasão com este último, o que acaba “salvando” aquele que se tornará seu melhor amigo.

Como podem perceber, o personagem que dá nome ao livro é bem maduro para a pouca idade e isso faz dele um dos sujeitos mais misteriosos da trama. Esse mistério gira principalmente em torno de suas longas teorias sobre o comportamento humano. Assim, temos a dupla que se complementa a cada fala, pois ao passo que temos um protagonista cheio de questões e dúvidas, temos também um segundo que aparece cheio de teorias e “respostas” para tudo aquilo. Mas Emil ainda é novo demais para compreender tudo que está acontecendo e, com o passar dos anos, os dois amigos começam a perder contato, ficando o protagonista à mercê da própria sorte, ou como eles preferem dizer “de posse do próprio destino”.

Queria apenas tentar viver aquilo que brotava de mim mesmo. Porque isso me era tão difícil? (p. 111)

Hisashi Saito 1980, from Space Teriyaki
Imagem: Hisashi Saito (1980), from Space Teriyaki

Em geral, tenho dificuldade de acreditar em narrativas feitas em primeira pessoa. Fico sempre pensando “até que ponto o narrador pode manipular as informações?”. Mas Sinclair é tão meigo e perdido que ele não seria tão astuto para tais peripécias. Outro detalhe: a forma como ele descreve Demian, por mais endeusada que seja — o que me irritaria em outros casos —, ainda faz deste um personagem bastante humano. Por um momento desejei ter algum Demian a quem recorrer nas minhas angústias. Contudo, essa fala toda é para dizer que Hermann Hesse consegue construir personagens incrivelmente humanos e sensíveis.

Fazendo um apanhado de toda a história temos: uma proposta bem simples (o crescimento e amadurecimento de um jovem), mas cheia de ensinamentos incríveis; ótimos personagens; uma linguagem bem simples e fluida, apesar de parágrafos longos; e um final esperado, mas ainda assim bem construído e, porque não, impactante.

Assim que concluí essa leitura já separei O Lobo da Estepe para minha fila de livros por ler. Agora só me falta conseguir outros livros do autor que tanto me agradou. Desta forma, fica a dica de um ótimo livro para aqueles que gostam de livros densos, ou ainda para os amantes da boa literatura. Esta também é uma excelente dica para leitores despretensiosos, mas que adoram aprender um pouco mais enquanto se divertem. Recomendado!

Ficha Técnica

Demian, de Hermann HesseTítulo: Demian
Título Original: Demian: Die Geschichte von Emil Sinclairs Jungend
Autor(a): Hermann Hesse
Tradutor(a): Ivo Barroso
Editora: Record
Edição: 2015 (46ª)
Ano da obra / Copyright: 1925
Páginas: 196
Skoob: Adicione
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2 comments

    • O livro é realmente interessantíssimo, Rodrigo.
      Adoro essa capa. E sim, esse é um livro que você precisa ler!!
      😉

      Curtir

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