| Resenha | Arco de Virar Réu, de Antonio Cestaro

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[…] Vivo entre a exacerbação de uma mente doente, que ignora limites e poderes, e uma encenação ordinária que impõe toda sorte de dúvidas temperadas com dores de intensidades variadas.
Antonio Cestaro, Arco de Virar Réu, pág. 11.

Quanto mais expresso minha felicidade com a literatura nacional, mais ela me surpreende. Há basicamente um mês eu demonstrava minha satisfação ao ler o romance de estreia Rumah, de Bruno Flores e aqui estou (quase sem palavras) para apresentar Arco de Virar Réu, de Antonio Cestaro. Experiente na produção de crônicas, tendo dois livros publicados ‑ Uma porta para um quarto escuro e As artimanhas do Napoleão e outras batalhas cotidianas ‑, o autor agora envereda pelas estradas do romance e desde já adianto que a caminhada foi iniciada com o pé direito. Ainda sobre Cestaro, ele nasceu em Maringá, Paraná, e é editor e fundador do selo Tordesilhas, dedicado à literatura.

Arco de Virar Réu é mais um daqueles romances difíceis de falar sobre, uma vez que ele é narrado em primeira pessoa e os fatos são misturados com algumas digressões próprias da esquizofrenia. Mas não vamos adiantar os fatos. O romance conta a história de um professor de História Social voltada para as pesquisas antropológicas e sua relação com as doenças neurológicas presentes na sua família, mas especificamente no seu irmão Pedro. Diagnosticado ainda na adolescência, Pedro vive numa espécie de realidade paralela cercado de guerras e outros conflitos envolvendo forças militares. Na tentativa de compreender esse “universo” criado pelo irmão, o protagonista começa a perceber que, de forma bem semelhante, ele também vive num mundo próprio, mas que desta vez os conflitos envolvem os povos indígenas, mais especificamente os Tupinambás.

Não sobrecarregamos cavalos com pesos além das armas e de pedras para fazer fogo. As tropas inimigas representam a carne. (p.29).

AntropologiaComo podem perceber no trecho acima, os diálogos de Pedro registrados pelo protagonista (não nomeado) parecem completamente descontextualizados, como em geral acontece com pessoas esquizofrênicas, mas ainda assim o narrador, junto com seu primo Juca Bala, tenta compreendê-los. O primeiro por conta de impulsos científicos, enquanto o segundo pretende incluir essas falas no seu projeto cinematográfico. Ainda sobre Juca Bala, este é um dos personagens mais abordados no romance, dada a sua cumplicidade com o protagonista, uma vez que ele acredita que Juca pode ser o único sujeito disponível a ajudar o irmão e, quem sabe, a ele mesmo.

Narrado de forma propositalmente confusa, o autor consegue colocar o leitor numa espécie de odisseia narrativa onde nada parece ter sentido, apesar de todas as conexões possíveis. Como já é de se esperar, logo no início podemos perceber que o narrador também possui traços de esquizofrenia, ou seja, a doença possivelmente começou a se desenvolver nele também. Mas com a narração em primeira pessoa, o personagem tenta dissuadir o leitor dessa ideia. E acredite, o personagem consegue ser bem convincente quanto à sua sanidade.

Além do narrador-personagem, Pedro e Juca Bala, outros personagens também aparecem na narrativa, com importâncias significativas. Entre eles estão: Dona Tereza, mãe do personagem e seus irmãos, de uma força impar (apesar dos momentos de fraqueza) na história e que cuidou de tudo sozinha após ser abandonada pelo marido; Carolina, que acredito tenha sido esposa do narrador, mas nada fica exatamente claro; Dr. Veiga, que aparece mais para o final do romance com seus diagnósticos e reflexões sobre tudo que vem acontecendo; e Dinalva, uma enfermeira ou cuidadora, também revelada apenas para o final do livro. Independente do tempo de permanência na narrativa, todos os personagens foram bem construídos, apesar de ficarmos na dúvida sobre a existência de alguns deles.

Arco de Virar Réu, de Antonio Cestaro_3

Você vive dentro da sua cabeça. Você não vive no mundo. (p. 112)

Em relação à edição, a Tordesilhas simplesmente caprichou. O projeto gráfico da capa e a diagramação das páginas ficaram impecáveis, o conjundo da obra contribuiu para o conforto da leitura. A escolha da arte da capa e das cores me remeteu a uma espécie de conflito entre a ciência histórico-antropológica (representada pelos índios) e a psicodelia da doença (representada pelas das cores berrantes e lindas). Quanto ao título, não fazia nenhum sentido para mim até o último segundo. Já havia feito algumas conjecturas sobre o porquê da sua escolha, mas nada se equivaleu a justificativa dada pelo autor. Fiquei realmente encantado.

Sem dúvidas este é aquele tipo de livro que precisa ser relido e que, consequentemente, a interpretação da releitura não será a mesma (nem de longe) da primeira leitura. Esta foi uma leitura de experiência ímpar, uma vez que abordou temas que me são muito caros: Problemas psicológicos, no geral, e a Antropologia. A narrativa em primeira pessoa, que em geral me incomoda, foi primordial para a compreensão de como funciona, pelo menos de forma literária, o desenvolvimento dessa doença que é tão complexa. No mais, só espero ter sido claro e ter conseguido plantar a sementinha da curiosidade. Leiam e não se esqueçam de deixar sua opinião nos comentários. Recomendadíssimo!

Nota: 💚💚💚💚💛

BookTrailer

Ficha Técnica

Arco de Virar Réu, de Antonio CestaroTítulo: Arco de Virar Réu
Autor(a): Antonio Cestaro
Editora: Tordesilhas
Edição: 2016 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2016
Páginas: 152
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
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