| Resenha | Holy Cow: Uma fábula animal, de David Duchovny

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O que os construtores de muros e cercas não entendem é que, ao mesmo tempo que mantêm alguém fora da cerca, ficam eles mesmos presos dentro da cerca.
David Duchovny, Holy Cow: Uma fábula animal, p. 159.

Meu primeiro contato com David Duchovny certamente se deu através do seu papel como o agente Fox Mulder em Arquivo X. Embora ele tenha atuado em diversos filmes e séries de TV, foi com o Mulder que Duchovny mais me cativou. Além disso, os episódios de Arquivo X exibidos pela TV Record há algum tempo atrás foram um dos meus primeiros contatos com a ficção científica. Então não dá pra negar a importância de Duchovny para mim, levando em conta que a ficção científica é meu gênero favorito. Mas não estou aqui para falar disso. Acontece que há pouco tempo, Duchovny se lançou também como escritor, um sonho que ele trazia consigo desde antes de se tornar ator. Seu primeiro livro, Holy Cow: Uma fábula animal, foi lançado aqui no Brasil pela Editora Record (que nada tem a ver com a rede de TV supracitada, foi só coincidência, rs).

Muita embora o ator tenha vivido sete anos no papel de escritor na série Californication, só agora o sonho se tornou real de fato. E pelo visto com força total, já que seu segundo romance intitulado Bucky F*cking Dent — esse mais adulto — já está em pré-venda nos EUA. Mas também não é sobre isso que pretendo falar aqui, embora eu considere importante todas essas preliminares, rs. Pois bem, o assunto aqui é a vaca Elsie Bovary, primeira criação literária de Duchovny. Elsie é não só a protagonista e narradora dessa história, como também é uma aventureira que nos leva junto em sua jornada de libertação e autoconhecimento nessa fábula contemporânea repleta de lições valiosas.

Conhecemos Elsie e seu dia a dia em uma típica fazenda americana. Rodeada dos seus semelhantes e de outros animais de espécies distintas, Elsie vai nos contanto como é sua vida bovina em relação à sua família, seus colegas e seus donos. Tudo parece seguir um fluxo tedioso e pré-determinado que deve seguir até o fim dos seus dias. No entanto, certo dia, ao se aproximar da janela da casa da fazenda, Elsie vê a triste realidade dos seus semelhantes que são abatidos em matadouros industriais, e eis que a verdade lhe cai como uma mortalha. Seu destino é morrer e servir de alimento para seus donos, mais cedo ou mais tarde. Mas Elsie não se contenta em ser um mero produto do consumo humano, ela acredita que exista uma razão maior para ter vindo ao mundo. A vaca começa então a refletir sobre seu destino e a cada dia fica mais cabisbaixa e depressiva.

Holy Cow (Personagens)

Em uma segunda ocasião, Elsie vê na TV que ao contrário do que acontece nos matadouros de boa parte do mundo, na Índia as vacas são animais sagrados e venerados como deuses. Eis que daí a protagonista começa a bolar um plano mirabolante para chegar até a Índia, mas como acha muito difícil conseguir chegar lá sozinha, Elsie busca ajuda. Em pouco tempo o time tá formando: a vaca se junta com o peru Tom, que tem a habilidade de manusear um iPhone com o bico, e o porco Shalom, recém convertido ao judaísmo. Tom quer ir para a Turquia, pois acredita que lá é o seu país (em inglês o animal peru e o país Turquia possuem o mesmo nome: Turkey) e Shalom quer ir para Israel, pois acredita que lá estará protegido, já que a maior parte da população é judia e não come carne de porco. A aventura começa, mas não será nada fácil para os três animais burlarem os sistemas de aviação dos humanos e chegarem a três destinos diferentes.

david duchovny holly cow
David Duchovny

A escrita de Duchovny é fluida e bem humorada. O romance, que na verdade é de autoria da vaca (Duchovny se distancia, sendo apenas o autor empírico), é repleto de referências à cultura pop, em especial ao mundo da música. Alguns capítulos figuram uma verdadeira playlist, bem nostálgica por sinal. Mas muito mais do que uma fábula humorística, Holy Cow é um meio pelo qual Duchovny e Elsie discutem diversos temas interessantes. A vaca está em uma jornada espiritual em busca de algo maior e divino no qual possa se encaixar, assim como a maioria de nós (humanos) também está. A vontade de pertencimento de Elsie nos leva a uma reflexão sobre o autoconhecimento e ao nosso papel nessa vida que é tão passageira.

[…] não é tão importante assim que os sonhos se realizem, o importante é ter um sonho, algo que nos faça dar o primeiro passo. (p. 197)

Em meio a tudo isso, temos ainda outros pontos que o autor coloca em pauta: como o consumismo americano (e mundial), o direito dos animais, problemas ecológicos e ambientais, o fator cultural como molde da nossa identidade, amizade, companheirismo e muito mais. Até o ato da escrita e a fórmula para escrever um best-seller entram em pauta sob uma crítica bem interessante. O primeiro livro de Duchovny funciona de várias maneiras muito positivas, se por um lado é um livro que suscita boas reflexões, por outro pode ser visto também apenas como uma fábula divertida que pode lhe render boas gargalhadas. É um livro que pode agradar alguns e causar certo receio em outros, mas ainda assim é uma grande estreia para um grande ator, agora escritor. Duchovny tem muito para contar, vale a pena parar um pouco para ouvir/ler.

Nota: 💚💚💚💚💛

David Duchovny lê um trecho de “Holy Cow”

Ficha Técnica

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Título: Holy Cow: Uma fábula animal
Título Original: Holy Cow: a modern-day dairy tale
Autor(a): David Duchovny
Ilustrações: Natalya Balnova
Tradução: Renata Pettengill
Editora: Record
Edição: 2016 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2015
Páginas: 208
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