| Resenha | Tropas Estelares, de Robert A. Heinlein

Tropas Estelares (banner)

A espécie humana é individualista demais, egoísta demais, para se preocupar tanto com as gerações futuras.
Robert A. Heinlein, Tropas Estelares, p. 210.

Às vezes, costumo iniciar alguns textos falando um pouco como se deu o meu contato com determinado gênero ou autor. Se hoje me considero um aficionado pela ficção científica, devo dizer que essa paixão começou há muito tempo atrás, antes mesmo de eu saber sequer o que queria dizer ficção científica. Desses contatos aleatórios e descompromissados, duas obras que me marcaram ao longo da infância e adolescência foram a série animada em computação gráfica Tropas Estelares (Roughnecks: Starship Troopers Chronicles, 1999-2000) e o filme Sob o Domínio dos Aliens (The Puppet Masters, 1994), exibido incontáveis vezes pelo SBT. O filme, em especial, me apavorava. No entanto, só muito depois fui saber que estas eram adaptações da obra de Robert A. Heinlein, daí então soube quem era Heinlein e mais: que ele é tido como o decano entre os escritores de ficção científica.

Com Tropas Estelares, título publicado originalmente em 1959, a editora Aleph estreia a publicação da obra do escritor aqui no Brasil. Embora já tenha sido publicado por aqui na década de 1990, Heinlein nunca teve a atenção que merece. Uma pena se levado em conta que entre seus pares ele é o mais editado mundo afora e cuja obra mais se mantém contemporânea, se é que posso dizer assim. Todavia, o público leitor de ficção científica no Brasil tem crescido cada vez mais, grande parte disso vem do esforço da editora Aleph que há 30 anos se empenha em trazer o melhor do gênero pra cá. Assim, era de se esperar que mais cedo ou mais tarde Heinlein viesse a fazer parte do rol de autores que integra o catálogo da editora, do qual já faziam parte Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. Os três juntos são considerados por muitos como a “Santíssima Trindade” da ficção científica.

Tropas Estelares (cena do filme)
Tropas Estelares (Starshio Troopers, 1997)

Mas sem mais delongas, o livro narra a trajetória do protagonista Juan Rico. Tomado por uma decisão precipitada, numa tentativa de dar apoio ao seu melhor amigo e impressionar a garota por quem é apaixonado, Rico se alista no Exército. Seu único consolo para a decisão do qual fica extremamente arrependido, é que ele poderá voltar pra casa após cumprir dois anos de serviço militar. Assim, passamos a acompanhá-lo desde seu ingresso, sua passagem como recruta pelo acampamento militar até sua primeira queda, que é também sua primeira participação de fato na guerra. Aos poucos, Rico percebe que ter entrado para o Exército talvez tenha sido sua última escolha própria. À medida que vai findando os dois anos e a guerra se torna mais intensa, ele se vê dividido entre voltar pra casa para uma vida que ele nunca quis e ainda como se estivesse fugindo de defender seu país ou se apropriar de tudo que ele aprendeu e seguir carreira militar.

Entretanto, o que parecia ser um dilema capaz de deixar Rico dividido acaba se mostrando muito mais como uma via de mão única. E assim como acontece com muitos de nós, o personagem se vê forçado a fazer uma determinada escolha simplesmente porque é aquilo que os outros esperam que ele faça. Mas o livro não é só isso, não é apenas a trajetória de um jovem em uma aventura militar. É muito mais, embora boa parte dos temas estejam relacionados a esse contexto do militarismo. Tropas Estelares é acima de tudo um livro polêmico pelas ideias propostas, mas até as coisas mais absurdas soam geniais pela forma como o autor as insere e as tece na trama. Todos os elementos de uma boa ficção científica estão presentes: uma ambientação futurista repleta de tecnologias, um herói tentando vencer seus desafios, muitas naves espaciais e batalhas em planetas fascinantes, muitas cenas de ação e sem dúvidas, o que mais me prendeu, os diálogos intrincados sobre política e sociedade.

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Na trama, nosso planeta está em guerra com uma raça alienígena que vem conquistando cada vez mais território através da galáxia. Até mesmo pela tomada de planetas colonizados pelos humanos. Os alienígenas tidos como insetos possuem um sistema de organização semelhante ao das abelhas, com divisão de castas: guerreiros, operários, cérebros e rainhas. O sistema de organização dos insetos são o maior desafio para as tropas humanas, já que as castas inferiores são controladas pela casta dos cérebros, verdadeiros estrategistas que ficam protegidos bem longe do campo de batalha. Enquanto que o ser humano peca pelas decisões precipitadas e desordenadas, já que cada um pensa de um jeito, dependendo apenas de um sistema hierárquico que por muitas vezes mais comete erros do que acertos.

O livro surgiu como uma forma de manifesto de Heinlein contra o fim dos testes com armas nucleares feitos pelos Estados Unidos no final da década de 1950. Muitos dos diálogos e ideias soam absurdos, mas ao mesmo tempo não deixam de ser discussões pertinentes e com as quais ainda nos deparamos hoje. Na trama do livro apenas os ex-militares possuem o direito ao voto, os cidadãos comuns não podem tomar decisões em prol da população. Em tempos como o nosso, em que uns lutam pela democracia e outros pedem a volta da ditadura militar, esse livro oferece muito pano pra manga. Dou destaque também para o diálogo de umas das aulas de Rico, em que se discute o conceito de moral. Heinlein sabe cutucar uma colmeia de abelhas e sair ileso.

O universo vai nos deixar saber, mais tarde, se o Homem tem ou não o “direito” de se expandir por ele. (p.248)

Antes da leitura eu imaginava que a maior parte do livro seria apenas cenas de guerras, lutas sem fim e muitas mortes pra lá e pra cá. Me enganei, ainda bem. Heinlein dosa muito bem as cenas de ação com boas discussões, algo que me surpreendeu muito positivamente. O livro foi adaptado para o cinema por Paul Verhoeven, embora não tenha sido bem recebido por muitos fãs. A adaptação assume um tom mais de paródia e deixa de fora muitos dos pontos que fizeram com que o livro ganhasse o Prêmio Hugo em 1960. Vale muito a pena ler e discutir. Depois me contem o que acharam, deixem comentários.

Nota: 💚💚💚💚💛

Ficha Técnica

Tropas Estelares
Clique para ampliar

Título: Tropas Estelares
Título Original: Starship Troopers
Autor(a): Robert A. Heinlein
Tradução: Carlos Angelo
Editora: Aleph
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1959
Páginas: 352
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3 comments

  1. Olá, Ademar.

    Ótima resenha.
    Muitos tendem a achar que livros de Ficção cientifica são somente lidos/escritos por diversão-passa-tempo, mas como o exemplo de Tropas Estelares conseguimos perceber que apesar do “bizarro” de ser ter uma guerra com uma raça alienígena, o autor consegue colocar pontos pertinentes e tornar a leitura mais “séria”. É uma nova forma de conscientização né?

    Ah, e que bom que a Aleph tá aí na ativa. ^^

    abraços

    Curtir

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