| Resenha | A Revolta da Cachaça, de Antonio Callado

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AMBRÓSIO — (…) Tentei fazer você compreender, ou reconhecer, o que você sabe melhor do que todo mundo. Estou de saco cheio de fazer papel de marginal, o cara que fica na praia espiando o barco, no meio-fio olhando automóvel, sempre na beira, na margem. Vim aqui cobrar a fama que você me deve. Vim pra morar, pra morrer. Mas no meio do rio ou da rua. Chega de margem.
Antonio Callado, A Revolta da Cachaça, pág. 102.

A julgar pela minha admiração por Nelson Rodrigues e, recentemente, Willian Shakespeare, além das horas bem gastas nos mais diversos tipos de espetáculos que pude participar, gosto de pensar que sou um grande apreciador de peças de teatro. Apesar de tentar variar as leituras, sempre acabava me apropriando dos mesmos nomes e títulos já conhecidos nesse meio, até que percebi outros dramaturgos sendo citados e comecei a me apegar a esses nomes. Um deles, sobre o qual esse texto se refere, é o carioca e também romancista e jornalista, Antonio Callado.

Responsável por uma produção riquíssima, o autor é elogiado especialmente pelas críticas abordadas nas suas peças, somadas a um humor “ágil, fino e certeiro”. Dentre os principais temas discutidos no seu trabalho está a relação “homem branco – homem negro” e como esta se desenvolve na sociedade e, a partir daí, começa-se uma discussão (extra-livro) sobre a tão mal aplicada Democracia Racial. Para protagonizar esses dois extremos, temos: Vito, um dramaturgo branco em busca de ascensão e maior visibilidade e sua esposa Dadinha, também branca; e Ambrósio, um ator negro que cansou dos papéis secundários dedicados a esse público.

Revolta da Cachaça.jpgComo forma de contextualizar, a Revolta da Cachaça foi um acontecimento histórico, datado entre os anos de 1660-1661, no Brasil, onde fazendeiros e escravos lutavam por conta do aumento dos impostos cobrados aos fabricantes de aguardente. Essa rebelião teve como protagonista o negro João de Angola e é nesse ponto que o acontecimento real e a produção metalinguística de Callado se relacionam entre si: Ambrósio pretende representar este “Herói” nos tablados, perdendo o status de figurante em detrimento do protagonismo. Mas, assim como nas demais esferas, essa modificação de status se mostra mais difícil do que parece, em especial porque ela depende de um sujeito “branco” que não ganhará nada com isso.

Com o enredo bem simples, a peça se inicia quando Vito recebe um presente inesperado – um tonel de cachaça – de um remetente não identificado. Enquanto pensa no presente misterioso junto com sua esposa, chega Ambrósio e se apresenta como remetente. A partir daí, o último justifica o envio e, banhado a muito álcool, tenta ressuscitar a tal peça – prometida por Vito doze anos antes – em que ele protagonizaria. Como a maioria das conversas regadas a bebida alcoólica, os personagens não medem as palavras dando ao leitor uma boa diversão enquanto tenta compreender o que realmente está acontecendo.

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Apesar de curto, leve e bem humorado, o autor consegue levantar uma problematização sobre nossa sociedade que merece uma atenção especial. Apesar de produzida originalmente em 1983, as discussões levantadas por Callado ainda se mostram bem atuais, o que me deixou extremamente triste, pois mais de 30 anos se passaram e a sociedade em que estou inserido ainda reproduz os mesmos erros, perpetuando o problema por mais alguns (muitos?) anos. Assim como percebi em Rio Negro, 50, de Nei Lopes, os artistas brasileiros – em especial os negros – vêm tentando contar sua história tal qual ela realmente aconteceu, sem máscaras ou maquiagem. Mas ainda temos muito caminho para percorrer.

Como falei no início, não conhecia a produção literária de Antonio Callado, mas desde já adianto que ele entrou para lista dos autores que merecem ser lidos, encenados e discutidos. A edição está muito bacana e com o ótimo projeto gráfico. Como forma de reafirmar tudo que foi dito, a discussão sobre negritude muito me agrada, então fico aberto aos possíveis debates que esse tema (relacionados ou não a esta obra) possa produzir. Comentem!

Nota: 💚💚💚💚💛

Ficha Técnica

A Revolta da Cachaça, de Antonio Callado
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Título: A Revolta da Cachaça
Autor(a): Antonio Callado
Editora: José Olympio
Edição: 2016 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1983
Páginas: 124
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