| Resenha | O Fim de Tudo, de Luiz Vilela

everythingmustend
Photo © Oliver Fluck

Conheci Luiz Vilela no primeiro semestre do curso de Letras, quando meu professor de teoria da literatura pediu para que lêssemos um conto de sua autoria. Lembro que li e reli o conto chamado Eu Estava Ali Deitado, na tentativa de ir além de uma leitura superficial. Assisti também a uma interpretação do conto por Matheus Nachtergaele (disponível no YouTube). Acontece que me vi realmente desafiado pelo conto, tanto pelo tema de que trata como pela estrutura do mesmo. Essa pequena incursão pelo trabalho de Vilela me fez colocá-lo na minha lista de autores brasileiros sobre os quais eu preciso conhecer mais. E eis que coincidentemente, a editora Record tem relançado sua obra por aqui. Aproveitei o ensejo para ler O Fim de Tudo, livro que deu a Vilela o prêmio Jabuti de 1973.

Esse é um livro sobre o qual não é nada fácil falar. Primeiro por que é um livro de contos, vinte e cinco no total, e não dá pra falar de todos individualmente. Segundo, pelos temas abordados em cada um dos contos, há muito sobre muita coisa, assim fica difícil generalizar. No entanto, o livro fala basicamente sobre a vida cotidiana, uma das marcas de Vilela, e sobre a não perenidade das coisas. Tudo está fadado a acabar, mais cedo ou mais tarde. Dessa forma o Fim, enquanto instância última para todas as coisas, é o fio que conduz e costura todos os contos, ainda que cada um apresente uma particularidade. O Fim de Tudo oportunamente é o conto que encerra o volume. Nesse conto, dois homens vão pescar em um rio que já foi “muito bom de peixe”, mas o progresso urbano tem cada vez mais destruído o tal rio.

greenbeetle_shop
Photo © Oliver Fluck

Como a maioria dos livros de contos que já li, nesse há alguns muito bons e outros nem tanto. Se por um lado há alguns bem passáveis, como foi para mim o Cadela, há outros inesquecíveis como A Volta do Campeão e Piabinha. Enquanto uns me surpreenderam pela simplicidade, outros me pegaram de assalto por aquilo que estava além, nas entrelinhas. Alguns dos contos são simples diálogos de uma conversa qualquer, totalmente descompromissada, entre dois ou mais personagens, mas que ainda assim conseguem nos passar uma mensagem interessante e uma série de emoções que é difícil transmitir. Ao apresentar o cotidiano como principal tema para seus contos, é praticamente impossível não se identificar com um ou outro. Por vezes, somos o amante desolado pelo fim de um relacionamento, o velho assolado pela chegada ao fim de uma jornada, a criança que se arrisca no desconhecido, somos todos e nenhum.

Não é fácil descrever os contos, porque muitos deles sequer possuem uma trama bem clara, como eu disse, alguns se configuram apenas diálogos curtos de personagens sobre um determinado problema na vida deles. No entanto, gostaria de pontuar alguns deles: O Caixa fala sobre um funcionário de banco muito simpático que um certo dia resolve quebrar sua rotina apenas abandonando seu posto de trabalho; Surpresas da Vida é um dos mais engraçados de todos, um aluno encontra um antigo professor seu, resolvem tomar umas cervejas juntos e em meio a tantos elogios e lembranças uma surpresa, para o aluno; A Volta do Campeão narra a aventura de um idoso que se torna amigo de um grupo de crianças que jogam bola de gude (berlinde, biloca, bolita, gude ou bila, dependendo do lugar), é meu favorito do volume; Piabinha conta a história de dois garotos e um está ensinando o outro a nadar, para isso, o garoto que quer aprender precisa engolir uma piabinha viva, um mito que eu ouvia muito quando criança.

luiz-vilela-620
Luiz Vilela

A leitura de O Fim de Tudo me agradou de uma forma muito positiva. Quase li o livro todo de uma única sentada, tive sensações paradoxais em boa parte da leitura também. Se por um lado eu não queria parar de ler, por outro eu não queria que o livro acabasse. Por se tratarem de textos curtos, provavelmente é um livro que vou pegar para reler um conto ou outro sempre que possível. A linguagem de Vilela é simples e fluida, o que deixa os contos bem gostosos de ler. A sensibilidade do autor, sua habilidade na escrita e na construção dos personagens é o que o tornam o grande escritor que ele é. É impressionante como Vilela nos apresenta a personagens tão profundos em poucas linhas e páginas. Não à toa, entrou para minha lista de leituras favoritas do ano até agora.

Além de O Fim de Tudo, a editora Record já relançou o volume de contos Você Verá e dois romances de Vilela: Perdição Bóris e Dóris. A edição tá bem confortável em questão de diagramação e fonte, embora a escolha da cor branca para o projeto gráfico das capas talvez não tenha sido a mais acertada. Se você já gosta do autor, com certeza vai curtir a leitura; se não conhece, vale a pena. Leiam e comentem!

Nota: 💚💚💚💚💚

Ficha Técnica

O Fim de Tudo
Clique para ampliar

Título: O Fim de Tudo
Autor(a): Luiz Vilela
Editora: Record
Gênero: Contos
Edição: 2016 (2ª)
Ano da obra / Copyright: 1973
Páginas: 240
Skoob: Adicione
Compare e compre: Buscapé | Amazon

One comment

  1. Um gosto antecipado de perda, a inutilidade dos esforços…
    Ótimo livro. Gostaria hoje de poder lê-lo novamente. Infelizmente não o possuo mais.Como adquirir?

    Curtir

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s