| Resenha | 62 Modelo para Armar, de Julio Cortázar

62 Modelo para Armar (detalhe)

— Não seja boba — disse Juan. — Se eu disse o que sentia é precisamente para que você fique. Você bem sabe, tudo o que nos afasta é no fundo o que nos faz viver tão bem juntos. Se começássemos a calar o que sentimos, ambos perderíamos a liberdade.
Julio Cortázar, 62 Modelo para Armar, p. 59.

Meu primeiro contato com Julio Cortázar se deu através da leitura do volume de contos As Armas Secretas. Lembro que gostei logo de cara, especialmente porque me senti realmente desafiado pela leitura dos contos. Alguns me agradaram muito, outros precisaram de mais tempo e cuidado para serem concluídos. Se eu os compreendi totalmente, até hoje eu não sei. Alguns dos contos eu precisei reler por inteiro, em outros eu me via tendo que voltar um ou dois parágrafos para retomar o que estava sendo dito. Colocando dessa maneira, posso estar passando uma ideia de que o livro era chato, mas não é bem isso. A leitura de qualquer obra do Cortázar nunca é tarefa fácil, nunca! Mas o estranhamento que me causa e a complexidade narrativa que ele imprime em seus textos me desafiam de tal forma que, sempre que posso, leio algo dele.

De lá pra cá, eu só me apaixonei cada vez mais pela sua escrita, e mais ainda pela vida do autor, pela sua maneira de fazer literatura e pela forma como ele a encarava. Já li dois livros-entrevista, Conversas com Cortázar e A Fascinação das Palavras, em que ele conta mais sobre sua vida pessoal, o que o inspira e sobre seu processo criativo. Dessa forma, ler sua obra e como ele se coloca diante dela foram os dois pontos que fizeram com que Cortázar se tornasse um dos meus autores favoritos. Uma de minhas leituras mais recentes foi o 62 Modelo para Armar, um romance que na verdade é um desdobramento do capítulo 62 da obra mais conhecida de Cortázar: O Jogo da Amarelinha. Antes de mais nada, devo dizer que de tudo que eu já li dele, este foi sem dúvidas o mais desafiante. Não obstante, é a obra mais experimental do autor.

62 Modelo para Armar (detalhe da capa estrangeira)
Detalhe de capa estrangeira

62 Modelo para Armar começa com uma cena no restaurante Polidor, na qual Juan está sentado aguardando seu pedido, uma garrafa de Sylvanner. Enquanto aguarda, sentado de frente para a parede onde tem um grande espelho, Juan vê um comensal gordo fazendo seu pedido: uma garrafa de Castelo Sangrento. O comensal está às suas costas, de onde ele ouve a voz fazendo o pedido, mas a imagem do comensal está à sua frente refletida no espelho. Esse deslocamento entre comensal (coisa real), voz de um lado e imagem do outro, faz com que Juan tenha um lapso espaço-temporal. Diante de si, Juan tem um livro que ele acabara de comprar, enquanto reluta entre começar ou não a leitura a coisa acontece. Para Juan, a única explicação é que um ser divino (um anjo) abriu uma brecha dimensional que ocasionou tal “coincidência”. Então ele começa a refletir sobre tudo o que o fez chegar até ali. Ele se questiona o porquê de ele estar naquele restaurante naquele exato momento. E ainda sobre o desentendimento que teve com Hélène, possivelmente aquela a quem ele ama.

Essa cena introdutória me prendeu de imediato. Me detive algum tempo nesse processo metafísico em quem Juan se envolve. E relembrando um pouco do que Cortázar nos ensina acerca de sua obra no volume Aulas de Literatura, é possível perceber nesse trecho dois elementos que permeiam constantemente o seu trabalho: o tempo e a fatalidade. Para Cortázar, o tempo não é uma instância estável, mas algo que vai além da compreensão pragmática posta pela ciência. Partindo de experiências próprias, ele insere em sua ficção um conceito de tempo como algo expansível. Ele também aponta como grandes autores usam esse elemento na ficção. Como, na realidade, podemos ter a experiência de sonhar, pensar e/ou narrar acontecimentos que duram semanas, meses ou anos em poucos minutos. Juan vive algo parecido. E, além disso, há a fatalidade, entendida como uma ideia de destino a que os personagens estão sujeitos, expressa no texto pela constatação de Juan, de que ele não poderia estar em outro lugar além daquele e que tudo aquilo estava fadado a acontecer.

Julio Cortázar 01
Julio Cortázar adorava gatos

A trama se desenvolve a partir daí, acompanhando um grupo de amigos, do qual Juan faz parte. E em meio a diálogos muito profundos, Cortázar desenvolve personagens muito complexos, que se enredam numa rede de conflitos amorosos, intrigas, encontros e desencontros e até mesmo de uma espécie de louvor à loucura. A estranheza da narrativa se apresenta especialmente pela mudança constante de narrador, que ora é em terceira pessoa e sem nenhum aviso prévio muda para primeira pessoa, que por sua vez se alterna continuamente entre os diversos personagens: Juan, Hélène, Célia, Austin, Tell, Marrast, Nicole, Calac, Polanco, Frau Marta e Feuille Morte. Nem todos narram, mas estão todos ali em relações não muito claras entre si, assumindo uma voz única e distintas ao mesmo tempo, mesclando discursos direto e indireto. Outro elemento que causa estranheza é o espaço em que acontece. A trama se desenvolve especialmente entre Londres, Paris e Viena, que são todas e uma só ao mesmo tempo.

Desenvolver uma série de personagens simultaneamente, segundo o próprio Cortázar, sempre foi um dos maiores desafios ao se fazer literatura. E é por isso que, para ele, sempre foi muito mais fácil escrever contos que romances. Em 62 Modelo para Armar, vemos como o autor consegue não só lograr êxito, como também consegue manter os elementos que o tornaram um dos maiores contistas argentinos. Se você já conhece e gosta do Cortázar, esse é um bom livro para entender um pouco mais do processo criativo do autor. No entanto, se está buscando um primeiro contato com sua obra, este definitivamente não é o livro certo para você. A estrutura narrativa confusa, em texto corrido, sem capítulos e com tantas alternâncias de vozes, assim como o desafio que a leitura requer talvez torne a leitura um pouco cansativa. Continuo indicando As Armas Secretas como uma boa forma de começar a ler Cortázar. Abraços, até a próxima!

Nota: 💚💚💚💚💛

Ficha Técnica

62 Modelo para ArmarTítulo: 62 Modelo para Armar
Título Original: 62 Modelo para Armar
Autor(a): Julio Cortázar
Editora: Civilização Brasileira
Tradução: Glória Rodríguez
Edição: 2016 (4ª)
Ano da obra / Copyright: 1968
Páginas: 256
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