| Resenha | Donnie Darko, de Richard Kelly

Donnie Darko, de Richard Kelly

DONNIE
Eu não entendo. Nem tudo pode ser embolado em duas categorias. É muito simplista.
Richard Kelly, Donnie Darlo, p. 133.

⏪ FEAR |——————————| LOVE ⏩

Poucos filmes são tão intrigantes quanto Donnie Darko, de Richard Kelly. Claro que há vários filmes que se encaixam perfeitamente nessa definição, 2001: Uma Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick) e Cidade dos Sonhos (David Lynch, ou qualquer filme dele) são bons exemplos dessa lista que pode se tornar gigantesca. Mas comparando de uma forma proporcional, ainda assim são poucos. Acontece que não há quem assista Donnie Darko e não se sinta intrigado, entusiasmado, pouco ou muito confuso ou ainda decepcionado. É um filme peculiar e controverso, mas mais ainda idiossincrático. Muitos amam por não ser óbvio, os mais pragmáticos o detestam pelo mesmo motivo, aquela velha necessidade de uma resposta fácil. De uma forma ou de outra o jovem Darko é uma figura difícil de não se apegar, e mais difícil ainda de esquecer.

Eu mesmo já assisti ao filme mais de uma vez — e é um filme que não me canso de ver —, mas só recentemente pude observar Donnie Darko sob uma nova perspectiva e em novo formato. Isso porque a DarkSide® Books lançou o livro que traz na íntegra o roteiro original do filme e uma porção de extras. Para alguns pode parecer oportunismo lançar o roteiro de um filme assim, mas eu preciso discordar. Ler o roteiro foi uma experiência incrível, tanto pelo contato com o gênero textual como pelo fato de ser o roteiro desse filme especificamente. Valeu cada minuto dedicado, mas porque é tão bom? Eu explico.

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O roteiro não é lá muito diferente do que vemos no filme. É claro que sempre há mudanças, seja pelo improviso ou porque muitas vezes as coisas que escrevemos não funcionam muito bem no vídeo ou pelo menos precisa de uma adaptação aqui e outra ali. E aqui estamos falando da versão original de um roteiro de um cineasta em início de carreira tentando fazer seu primeiro filme, se arriscando ao máximo com ele. Assim, se você já viu o filme não precisa de uma descrição da sinopse, se você não viu ainda (para de ler essa resenha e vá assistir urgentemente), aqui vai o principal: a trama narra a história do jovem Donald Darko, um adolescente diagnosticado como esquizofrênico limítrofe que de repente começa a ter visões com um cara vestido numa fantasia assombrosa de coelho. O nome desse amigo imaginário é Frank, a quem Donnie credita o fato de ter sido salvo de uma turbina de avião que caiu no seu quarto.

Logicamente o filme não é só isso. O enredo é simples, mas se torna complexo justamente por isso, pelas sutilezas, entrelinhas e possíveis adensamentos em cada detalhe. Richard Kelly era um cineasta recém-formado, com uma verve ainda crua e aguçada. E foi isso que fez com que ele colocasse todas as suas referências favoritas (da literatura, da música e do cinema) numa ideia que acabou se tornando o clássico cult que Donnie Darko é. Donnie vive os dramas clichês da adolescência americana de uma forma nada clichê. Kelly consegue misturar um drama adolescente com discussões políticas interessantes, num plano de fundo social muito bacana, invocando ainda um mundo fantástico que além de tudo aborda viagens no tempo e buracos de minhoca (influência de Stephen Hawking).

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“Wake up, Donnie.”

Ler o roteiro é reassistir o filme sob um novo ângulo. Kelly conseguiu executar com perfeição aquilo que ele idealizou primeiramente no papel, tudo é muito bem pensando. E o filme não é só uma história bacana e bem executada, é todo o conjunto que nos causa o efeito donnie-darko. A trilha sonora é maravilhosa e casa bem com o desenvolvimento da trama, nos causa nostalgia e nos anima ao mesmo tempo. Os atores estão ótimos em seus papéis, Jake Gyllenhaal nos faz ficar apaixonados por Donnie, por outro lado a figura grotesca de Frank faz o contraste nos lembrando de que há algo feio vindo aí, e é justamente o que ele anuncia: o fim do mundo. A humanidade terá seu fim apocalíptico em 28 dias, 06 horas, 42 minutos e 12 segundos. Seria Donnie o super-herói incumbido de salvá-la? A própria Gretchen (a garota de quem ele é afim) faz um comentário sobre Donnie Darko parecer o nome de um super-herói.

Se não é fácil explicar o filme (cada um tem sua teoria/interpretação), mais difícil ainda é falar dessa edição da DarkSide. Não consigo colocar defeitos, seja no projeto gráfico incrível, seja no conteúdo. Além do roteiro, o livro traz um prefácio assinado por Jake Gyllenhaal ❤, uma longa e detalhada entrevista com Richard Kelly, o livro fictício citado no filme A Filosofia da Viagem no Tempo, uma sessão de fotos do filme e a playlist das músicas citadas no roteiro. Dou destaque, em especial, para a entrevista com o diretor. Ademais, devo dizer que o livro é não só um item indispensável para qualquer fã ou curioso sobre o filme, é mais ainda uma aula de como fazer cinema. Uma aula em que o próprio roteiro é um exemplo e a entrevista de Richard a explicação, indispensável para quem estuda ou pensa em fazer cinema. Vale muito a pena.

Nota: 💚💚💚💚💚+❤

Donnie Darko, de Richard Kelly

Ouça a trilha sonora no Spotify

Trailer do filme

Ficha Técnica

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clique para ampliar

Título: Donnie Darko
Título Original: The Donnie Darko Book
Autor(a): Richard Kelly
Tradução: Antônio Tibau
Editora: DarkSide® Books
Edição: 2016 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2003
Páginas: 240
Skoob: Adicione
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8 comments

  1. Ahhhh!! Surtei aqui quando vi o titulo kkkk amooooo demais essa obra, ja li o roteiro acompanhada da trilah sonora e agora vou assistir o filme de novo acompanhada do roteiro. Esse filme me deixa louca!! Devo isso a Drika do Redatora de Merda s2

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi Carol,
      Eu sou louco por esse filme também. Sempre que assisto eu me sinto numa montanha russa de sentimentos. Sempre choro no final. Não tem como não se apaixonar por Donnie, se intrigar por Frank. Todos os personagens são bacanas e a sagacidade do diretor é incrível.
      Obrigado por comentar e compartilhar.
      Ontem eu ouvi a trilha sonora umas 05 vezes seguidas, hahaha.
      Beijão!

      Curtido por 1 pessoa

    • Oi, Robson.
      Esse filme é demais, toda vez que assisto fico com um misto de emoções muito legal que me deixam muito reflexivo.
      Obrigado, você que é o cara das resenhas. Adoro todas.
      Abraços!

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    • Oi Barbara,
      Eu amei o livro, sério!!! E a entrevista é muito bacana, sai anotando todas as dicas de livros e filmes que ele deu ali. O cara é muito criativo e sabe aproveitar muito as referências que possui.
      Eu vou conferir o seu post, com certeza.
      Então, minha teoria eu não costumo comentar muito e por isso nem coloquei no post, porque a cada vez que assisto me pego olhando para um ponto diferente, mas eu gosto muito de pensar no Donnie como aquele super-herói mártir que se doa pra salvar todo mundo, em especial a Gretchen. Nossa, eu choro demais. Quando acontece a anomalia do tempo e você vê ela ali, sem ter conhecido ele, é como se ele abdicasse do que eles viveram para a segurança dela “Aqui é seguro, Gretchen”. Tem horas que eu evito pensar no filme como algo apocalíptico de fato, prefiro acreditar que o fim do mundo é o fim do mundo de/para Donnie, entende? O que gosto desse filme é que ele não se esgota nem anula as interpretações.
      Obrigado pelo comentário!
      Beijão.

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  2. Nossa, depois dessa super recomendação não posso deixar de conferir o filme e o livro.
    Confesso que nunca tinha ouvido falar antes, e a capa desse livro é incrível!!! DARKSIDE né nao? hahah❤
    Ontem estava procurando um filme bom para ver com os primos, se eu tivesse lido esse post antes…
    Enfim, na próxima já tenho o filme escolhido🙂

    http://www.booksever.com.br

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi Filipe,
      Poxa, que bacana que gostou e ficou interessado. Acho que é um filme que vc pode gostar, principalmente se você gosta desse tipo de filme que não tem todas as respostas dadas de bandeja e que nos deixam pensando um bom tempo.
      Eu gosto de ver Donnie Darko sozinho, porque fico vendo os detalhes e tudo mais. Mas deve ser ótimo ver em grupo e discutir e trocas impressões.
      Depois me conta o que achou (ele tá na Netflix).
      Abraços!

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