| Resenha | Toda Poesia, de Augusto dos Anjos

William Henry Barribal (1874-1952)
The grand finale by William Henry Barribal (1874-1952)

O MORCEGO

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede…”
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

Augusto dos Anjos, Toda Poesia, p. 93.

Ferreira Gullar inicia o estudo crítico que introduz esse livro citando Murilo Mendes: “a poesia sopra onde quer” (p. 15). Infelizmente, ela nunca soprou tanto pelos rumos de cá. Digo isso, mas a culpa não é da poesia. É toda minha. Não sou um leitor de poesia. Sou daqueles que não lê poesia, ou evita ao máximo a leitura, pelo preconceito de achar que não entendo. Bom, na maioria das vezes não entendo mesmo. Leio, leio e não entendo. Daí meus amigos, que estão anos-luz à frente de mim nesse campo de apreciação, eventualmente me dizem que poesia não é só para ser lida, mas é para ser sentida. Aí é que está, acho que nunca me senti da maneira como eles se sentem, por isso digo que esse vento nunca soprou na minha pele a ponto de arrepiá-la.

Todavia, não sou assim tão frio em relação à poesia. Tenho me identificado com algumas, e desde que me permiti ler mais, essa poesia tem soprado em mim. Claro, ainda na forma de uma brisa beeem suave, mas tenho curtido, especialmente Cecília Meireles (vide Humildade, 1954), Edgar Allan Poe (vide The RavenA Dream Within a Dream To Miss Louise Olivia Hunter) e mais recentemente Augusto dos Anjos, que é sobre o que trata este texto. Depois que passei a estudar e fazer pesquisa em literatura, me vi nessa necessidade de ler mais e apreciar poesia. Para essa missão, um dos autores que escolhi logo de cara foi Augusto dos Anjos, tanto por ser um autor nacional, como por ser um dos mais elogiados, indicados e cuja crítica me causou interesse. Digo tudo isto, para que estejam cientes de que ao contrário das minhas resenhas sobre livros escritos em prosa, este não é um campo no qual me sinto seguro para falar sobre. Mas vamos lá…

Augusto dos Anjos

Como eu já disse, Augusto dos Anjos é um dos poetas brasileiros mais editados e elogiados. Paraibano (outro motivo que me fez escolhê-lo), sua poesia apresenta características bem peculiares, que fazem com que ele seja ora caracterizado como simbolista, ora como parnasianista e até mesmo como pré-modernista. Isso porque, seus textos poéticos se dividem em três fases distintas, herdando características dos dois primeiros movimentos e antecipando elementos da poesia modernista que viria a ganhar ênfase a seguir. Mas como não sou a melhor pessoa para falar das tecnicidades desse gênero, focarei a partir daqui na minha experiência do primeiro contato com o autor. Provavelmente eu deva ter lido poesias de Augusto dos Anjos durante o meu ensino médio, mas não lembro de nada. Mas aqui, através dessa edição que reúne toda sua poesia, o primeiro poema a me chamar atenção e que mexeu um pouco comigo foi o que abre este post: O Morcego

A surpresa da identificação foi o que mais me fez gosta de O Morcego. Como o autor consegue num jogo de palavras expressar um sentimento que é comum a muitas pessoas. O ritmo me causou um efeito muito bacana, foi o que me levou a ler este mesmo poema de novo e de novo. Mas não foi o único, Solitário surgiu durante a leitura como se tivesse sido feito para mim. Outros que me agradaram muito foram Versos Íntimos, Ao Luar O Deus-verme.

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Solitário, p. 120.

augusto-dos-anjos-por-william-medeirosÉ bem complicado falar de um livro de poesia, especialmente esse, pela quantidade de textos com características distintas. Sendo um volume que reúne toda a poesia do autor, não há um fio temático que conduza o arranjo da obra. Da mesma forma, fica difícil falar individualmente de cada poema. Devo dizer que não é fácil ler e compreender os textos de Augusto dos Anjos, especialmente os de sua última fase, mais madura e complexa. No entanto, essa edição traz um longo e completo estudo crítico da vida e obra de Augusto dos Anjos assinado pelo também poeta Ferreira Gullar. Um dos elementos mais interessantes que pude perceber ao longo dos poemas é a aproximação e fascinação do autor com a ciência. Sua linguagem é erudita, mas não exageradamente, e repleta de termos que remetem a um cientificismo cru e visceral.

O autor consegue criar imagens fortes, muitas vezes grotescas, que nos acompanham por muito tempo. Pelo menos comigo aconteceu assim. Augusto dos Anjos fez eu me aproximar um pouco mais da poesia. Espero que, como disse Murilo Mendes, a poesia continue soprando onde quiser e que ela sopre mais forte sobre mim. Partindo de alguém que não costuma ler poesia, fica aqui minha indicação para quem quiser, assim como eu, experimentar algo que até então não é uma constante na rotina de leitura. Leiam e comentem.

Nota: 💚💚💚💚💛

Ficha Técnica

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Clique para ampliar

Título: Toda Poesia
Título Original: Toda Poesia
Autor(a): Augusto dos Anjos
Editora: José Olympio
Edição:
 2016 (5ª)
Ano da obra / Copyright: 1912 – 1914
Páginas: 320
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