| Resenha | O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishiguro

“Agora, pelo que lembro, há uma trilha ali mais adiante e, a menos que a chuva a tenha desmanchado, a caminhada vai ser mais fácil do que a maior parte das que fizemos até agora. Mas há um lugar onde nós precisamos ter muito cuidado. Você está me ouvindo Axl? É quando a trilha passa por onde o gigante está enterrado. (…) Não vai nos fazer nenhum bem passar por cima de um túmulo como aquele, mesmo que seja ao sol do meio-dia. Você está me entendendo direitinho, Axl?”
Kazuo Ishiguro, O Gigante Enterrado, pág. 42.

Quando você começa a escrever uma resenha… mas cadê a inspiração? Cadê? A sua mente transforma-se numa folha em branco, ou melhor, na tela vazia que te observa com um cursor impaciente piscando, ansiando para cuspir as letras. Mas você se esqueceu de algo muito importante, de como começar. E se envergonha. Será que a névoa causada pelo hálito de uma dragoa fictícia invadiu o nosso mundo? E se tiver invadido somente o meu mundo? É hora de lembrar…

Esquecer é doloroso, é uma perda imaterial de fragmentos de vida, de repente um pedaço de memória se foi e não temos mais uma viagem, uma tarde, uma conversa, uma pessoa, ou uma história para contar. No entanto, esquecer os males, livrar-se de lembranças aflitivas e mágoas pode ser um alívio, um conforto à angústia de ter que carregar nos ombros um gigante pelo resto de uma curta existência.

Desculpem o devaneio, mas não é esta a função dos livros? Impregnar-nos de imaginação com a história que nos foi contada?

Esse é o efeito que o O Gigante Enterrado causa ao leitor, e se Kasuo Ishiguro sabia que remoer o passado pode causar dor às pessoas, sua obra atesta que apagar as lembranças pode ser igualmente doloroso. Este é o tema sobre o qual a obra foi construída, uma vez que O Gigante Enterrado é uma fábula sobre o poder da memória e do esquecimento nas relações humanas.

Essa fábula mítica representa a primeira experiência do autor nipo-britânico no gênero da fantasia, narrando a história de um casal de idosos, Axl e Beatrice, que resolve empreender uma jornada numa terra encoberta por uma névoa do esquecimento em busca do seu filho. Reside aí a grande originalidade dessa obra, um casal de protagonistas idosos que parte para uma aventura, o que é algo incomum se a compararmos às grandes sagas literárias de fantasia cujos protagonistas costumam ser homens jovens e guerreiros, salvadores de donzelas em perigo.

Apesar de não deixar de inserir personagens desse tipo, nesta obra acompanhamos a coragem e o amor incondicional de Axl e Beatrice, lutando contra todas as adversidades para darem um rumo à própria vida e ainda se mostrarem dispostos a derrotar um mal que assola todos os povos da Grã-Bretanha. A história se passa pouco tempo após a morte do Rei Arthur, o qual pacificou as terras que viviam em disputa entre bretões e saxões, que antes eram inimigos mortais, por isso ainda existem alguns Cavaleiros de Arthur tentando cumprir a missão deixada pelo Rei.

A viagem transcorre num ritmo lento, assim como a narrativa, com muitas descrições e reflexões acerca daquela terra e dos costumes de seus habitantes. Os protagonistas são bretões e seguem seu caminho parando de vez em quando em aldeias vizinhas para descansar e repor mantimentos. No entanto, nem sempre são bem-recebidos, pois a Grã-Bretanha pós-arturiana segue numa aparente e momentânea paz entre as aldeias de saxões e bretões, apenas porque a névoa encobriu antigas desavenças.

Em seu percurso, Axl e Beatrice cruzam com mais personagens que acabam juntando-se a eles nessa jornada, como o Sr. Gawain, um antigo cavaleiro de Arthur, acompanhado por seu cavalo de batalha, Horácio, o qual foi incumbido pelo Rei para matar a dragoa Querig, que exala uma névoa capaz de “nublar” a memória das pessoas. Outros dois personagens que formam a trupe de viajantes são; Winstan, grande guerreiro saxão, encarregado de dar um fim na mesma dragoa a mando de seu Rei, e o jovem Edwin, um adolescente saxão que foi expulso da própria aldeia por ter o ferimento da mordida de um ogro, ameaçando transformar-se neste ser a qualquer momento.

buried giant gigante enterrado Carrie May

Enquanto Axl e Beatrice desejam reencontrar seu filho, Gawain e Winstam brigam entre si para decidir quem matará a dragoa, e o jovem Edwin busca encontrar sua mãe, que fora levada da aldeia por saqueadores. Além disso, os personagens deparam-se com diversos seres malignos e míticos no caminho, como as viúvas separadas de seus maridos por barqueiros que julgavam se os casais que desejam atravessar o rio realmente amavam-se ou se estavam juntos apenas por costume; além de monges conspiratórios e fadas malignas do rio.

É verdade, boa senhora, mas nós, barqueiros, já vimos tantos viajantes ao longo dos anos que não demoramos muito a perceber o que está por trás das aparências. Além disso, quando os viajantes falam de suas lembranças mais caras, é impossível para eles ocultar a verdade. Um casal pode declarar estar unido por amor, mas nós, barqueiros, podemos ver em vez disso ressentimento, raiva e até ódio. Ou enorme vazio. Às vezes, só o medo da solidão e mais nada. Um amor infinito, que resistiu à passagem dos anos, isso nós só encontramos raramente. E quando encontramos, temos enorme prazer em transportar o casal junto. Boa senhora, já falei mais do que devia. (pág. 57)

Vale notar a referência a obras clássicas da literatura, como a cena em que as viúvas atormentam o Sr. Gawain, semelhante à ação das bruxas que importunam o general Macbeth, na peça Macbeth, de Shakespeare. Além desta, há uma enorme semelhança entre os monges presentes em O Gigante Enterrado e os monges da obra O Nome da Rosa, de Umberto Eco, na qual parece haver uma conspiração maléfica por trás de todo o mosteiro.

Por fim, essa não é uma obra de fácil leitura, pois demanda paciência, já que não apresenta um ritmo tão veloz e cheio de ação desde o início, levando um tempo até que os personagens consigam aproximar-se de seus objetivos. Entretanto, ao final do livro, permanece aquela sensação de que a viagem continuará por mais algum tempo, e aí vemos o quanto ficamos envolvidos com os personagens e a história, e quem sabe não voltemos a encontrá-los futuramente em algum outro livro?

O gigante, que antes estava bem enterrado, agora se remexe. Quando ele se levantar, como com certeza fará em breve, os elos de amizade existentes entre nós vão se mostrar tão frágeis quanto os nós que as meninas fazem nos caules de pequenas flores. (pág. 369)

Curiosidades

  • Dois livros de Kazuo Ishiguro já foram adaptados para o cinema:
  • Leia um trecho de O Gigante Enterrado > AQUI

Ficha Técnica

Clique para ampliar

Título: O Gigante Enterrado
Título original: The Buried Giant
Autor(a): Kazuo Ishiguro
Tradutor: Sonia Moreira
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2015
Páginas: 396
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