| Resenha | Correspondente de Guerra, de Diogo Schelp e André Liohn

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Fotografia: André Liohn (Líbia, 24/04/2001)

Numa guerra, todo mundo é peixe. Os combatentes são peixes, os civis são peixes, os soldados são peixes. Todos estão igualmente molhados. O jornalista também está no mesmo ambiente, e se molha tanto quanto os outros “peixes”. A diferença é que o jornalista pode pôr a cabeça pra fora e respirar algo diferente, avaliar a situação de outra perspectiva. O jornalista é um anfíbio.
André Liohn, Correspondente de Guerra, p. 180.

Houve um momento em minha adolescência em que o jornalismo era minha primeira opção de carreira para o futuro. E mesmo depois de um tempo em que eu já havia iniciado meu primeiro curso superior, todo mundo que eu conhecia chegava para mim e dizia que eu devia estar cursando Comunicação Social. Não lembro ao certo o momento em que ser jornalista deixou de ser uma opção ou um sonho a ser seguido, acontece que é um caminho pelo qual nunca enveredei oficialmente, mas é uma profissão pela qual sempre tive muito carinho e respeito. Tenho uma gama de amigos jornalistas muitos bons e admiro boa parte deles. E por ser uma profissão que se abre para um leque de editorias, não posso dizer que sei muito sobre todas as possibilidades. Ler Correspondente de Guerra foi uma experiência que abriu ainda mais minha visão sobre a importância do jornalismo e sobre até onde ele pode ir.

O livro já chama a atenção pela temática. Logo no prefácio, o autor nos faz refletir sobre o que leva uma pessoa a seguir carreira como correspondente de guerra e, além disso, nos mostra como essa se tornou uma profissão evidente e perigosa. Diogo Schelp, editor executivo de uma das mais conhecidas revistas do país, dedicou sua carreira a cobrir algumas das pautas mais polêmicas e perigosas como narcotráfico no México, criminalidade na Venezuela e ainda os horrores praticados por radicalistas de países do Oriente Médio. Tantas viagens a tantos países deram ao autor não apenas uma experiência rica sobre as mais variadas culturas, mas lhe permitiram conhecer muito mais sobre o papel e a importância de sua profissão para o mundo cada vez mais instável em que vivemos hoje.

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André Liohn durante trabalho na guerra. (Reprodução).

Além do prefácio, Schelp assina a primeira parte do livro, intitulada Os jornalistas e as guerras. Nessa parte, o autor conta sobre sua própria experiência e com isso traz um pouco sobre a sua história. Para além disso, ele faz um histórico de como os jornalistas adentram nesse campo de cobertura e como passaram de meros expectadores que registravam os fatos para alvos valiosos para terroristas e líderes de guerra. Essa trajetória histórica traçada pelo autor mostra a minuciosidade e sua afinidade com o tema. Todavia, ao final da primeira parte fica a impressão de que o autor poderia ter sido um pouquinho menos impessoal, que tudo foi mais uma contextualização. Embora Schelp tenha relação direta com muito do que ele escreve ou dos nomes que cita ao longo do livro, ou ainda com aqueles sobre os quais ele dedica mais tempo para falar, sua parte fica muito no introdutório.

No entanto, a segunda parte, Um fotógrafo e as guerras, assinada por André Liohn nos dá a dose pessoal (emocional até) que falta na primeira. Assim, o livro se completa de uma maneira bem positiva, as partes se relacionam e se encaixam perfeitamente. Schelp traz dados e informações importantes, Liohn traz a experiência direta, aquela vivência visceral que só quem passou pelo que ele passou é capaz de expressar. Schelp conta (no prefácio) como ele conheceu Liohn e como muito tempo depois essa ideia do livro veio à tona. Na concretização  da ideia que é esse livro, Schelp nos conduz para essa atração principal que é a trajetória de Liohn. E este parece que ficou bem à vontade para usar uma abordagem que lhe agradasse e que lhe permitisse nos fazer entender como ele acabou entrando nesse campo tão peculiar e perigoso, que é o de correspondente de guerra, mais especificamente na função de fotógrafo.

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Rebeldes durante a guerra civil na Líbia. (24/04/2011)

Enquanto a princípio fica parecendo que Liohn está tentando enrolar narrando sobre sua infância sofrida, aos poucos vamos percebendo como todo esse seu histórico foi importante para a culminância do que ele veio a se tornar profissionalmente. Além disso, a narrativa bem autobiográfica nos faz despertar empatia pelo próprio Liohn. Seu lado da história é mais do que um relato documental de como sua função é arriscada, mas é ainda uma história de superação, de como devemos buscar sentido para nossa vida e para o que fazemos. Liohn conta que se tornar um fotógrafo de guerra (mas não só disso) lhe permitiu ir além do ato de registrar cenas de uma realidade, fez ele conhecer um pouco mais do que é o ser humano, incitando-o ainda a se tornar um ser humano melhor. Se o que ele fez mudou a vida de muitas pessoas, não há como saber, mas a dele ele atesta que mudou e isso é muito interessante de ver, bem mais do que simplesmente informações de como a coisa funciona.

Para nos inteirarmos ainda mais de como é esse trabalho tão perigoso e de como a humanidade sucumbe para um lado perverso que é difícil de entender e, muitas vezes, de aceitar, o livro traz ainda uma parte extra, Marcas da Guerra, com fotos de André Liohn. Algumas das fotos são chocantes e nos causam certo desconforto. Segundo Liohn, essa é a intenção do seu trabalho: nos tirar das nossas zonas de confortos e nos fazer pensar sobre aquilo que somos enquanto seres humanos.

Correspondente de Guerra é uma leitura esclarecedora. Especialmente para estudantes e profissionais do jornalismo. Ademais, é uma leitura de interesse geral que traz um panorama bacana e abrangente sobre guerras, disputas políticas e movimentos de protesto. Coloca em pauta discussões muito atuais e recorrentes, sobre as quais é importante nos mantermos informados. Vale a pena conferir.

Nota: 💚💚💚💚💛

Os autores falam sobre a obra

Ficha Técnica

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Título: Correspondente de Guerra
Título Original: Correspondente de Guerra
Autor(a): Diogo Schelp e André Liohn
Editora: Contexto
Edição:
 2016 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2016
Páginas: 240
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