| Resenha | Carta Náutica das Desimportâncias, de Fabíola Rodrigues

Libri e orizzonti di vita
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CONVERSA FIADA

Quiçá um dia, se eu quiser
Vá lá, se você puder…
Passando por aqui
Entrar e se demorar
Conhecer a nova casa
Tomar um café
E de repente, sem palavra
Sem a arrogância de nenhuma palavra
Olhar nos meus olhos
E me fazer um cafuné

Fabíola Rodrigues, Carta Náutica das Desimportâncias, pág. 14.

Se eu fosse fazer a lista dos estilos/gêneros literários que mais me agradam, sem pensar duas vezes, a poesia estaria numa das últimas posições. Não porque ache ruim ou acredite que ela seja inferior às outras, mas não tenho o hábito de lê-la. Devo confessar que não sou um apreciador pelo simples fato de não compreender a mensagem, ou ainda, por achar que não sou competente para tanto. Felizmente, essa não é uma dificuldade só minha. Meu amigo e também administrador do blog, Ademar Júnior, também têm dificuldades semelhantes, como ele menciona no texto sobre Toda Poesia, de Augusto dos Anjos, o que não justifica, mas serve de apoio. Contudo, sempre tento encaixar algum poeta nas minhas leituras, mesmo que de forma bem simbólica, como uma forma de desenvolver habilidades para compreendê-la.

Apesar de vir degustando os poemas dessa coletânea há algum tempo, só após participar de um minicurso sobre Apreciação de Poesia, numa das atividades de greve da Universidade Estadual do Ceará (onde faço Letras, atualmente) foi que percebi como devemos fazer isso, embora ainda não me sinta pronto. Mesmo achando a escrita da Fabíola bem gostosa de ler, eu me senti frustrado ao tentar descrever a intenção dos poemas e não conseguir. Conversando com um amigo que adora (e entende) poesia, ele disse que algumas poesias têm a intensão de causar sensações e a expressão “Poesia de Sensação” me remeteu automaticamente para essa coletânea que me fez sentir muitas coisas, umas boas outras nem tanto, mas que não conseguiria converter isso em palavras. Desta forma, esse texto se limitará a apresentar de forma simples esse compilado desafiador e, associado a isso, compartilhar o prazer que foi conhecer a história e a produção da Fabíola Rodrigues.

Departure Of The Winged Ship by Vladimir Kush
Departure Of The Winged Ship by Vladimir Kush

Como não conseguirei resumir tudo que senti, ou ainda qual a linha tênue que une (ou separa) todos esses poemas, segue a sinopse disponibilizada na página da Editora 7Letras:

Sinopse: De Nampula a Itabira, da despedida ao encontro, atravessando a ponte atlântica que nos une à mãe-áfrica, o olhar da poeta se desloca, atravessa paisagens inesperadas, nos revela novos sabores e lugares. Faz prosa de poema, circum-navega ilhas preciosas, expõe ao papel amores e solidões alheias – e as próprias, e as nossas. Esta Carta Náutica das Desimportâncias marca a estreia de uma poeta de estilo único, que sabe aliar uma extrema riqueza de vocabulário e de recursos linguísticos (metáforas, aliterações) a um texto que conversa com o leitor como se este fosse um velho amigo.

Uma das coisas que mais me chamou atenção foi o fato da autora tem morado uma temporada na África, temática que sempre me chamou atenção, e ter transferido para seus escritos essas experiências. Apesar do estereótipo relacionado ao sofrimento que se tem ao pensar na África, a autora consegue mostrar que muitas coisas boas podem ser vividas também por lá. Embora seja o livro de estreia da autora, eu consegui perceber que ela já possui um estilo de escrita bem marcante, mesmo variando formas e estruturas textuais (alternando textos curtos, longos, poesia e prosa).

Sobre minhas principais sensações (as descritíveis), em alguns poemas eu fui capaz de sentir certa musicalidade, a qual foi transformada numa sensação de conforto muito grande. Outro detalhe que ficou bem expressivo para mim foi a forma como a autora embeleza o cotidiano (vide citação inicial). Como a escolha das palavras e termos não possui nada muito rebuscado ou desconhecido para mim, me senti bem confortável em continuar. Só um adendo: das coisas que mais me incomodam na poesia, de uma forma geral, o rebuscamento dos termos é o que mais me tira o prazer. E, felizmente, a autora não entrou nessa lista.

Mas não entendam isso como uma poesia pobre, pelo contrário. A autora faz uso de alguns artifícios linguísticos que enriquecem, de certa forma, seu trabalho. É claro que não compreendi tudo que li, mas há uma distância significativa entre meu entendimento enquanto leitor (leigo) e a qualidade do trabalho da autora (que é visível até para leigos como eu). Sem generalizações, claro. O que quero dizer com isso é que esta é uma leitura rápida, caso queira sentar e ler todos os poemas em sequência, o que não foi meu caso. Gostei da experiência de degustar, lendo dois ou três por dia, sem pressa. Tanto que ainda hoje me pego refletindo sobre algum poema específico.

A edição ajudou muito na leitura, tanto a diagramação como a escolha do tipo de papel. O projeto gráfico simples reflete muito bem a ideia central da coletânea, que a meu ver se resume em valorizar as coisas simples e belas do cotidiano, por mais intensas e/ou confusas que elas possam parecer. Essa é a dose de sensibilidade que recomento para aqueles que apreciam poesia e, especialmente, para os que têm medo de arriscar, como eu tive. É uma boa forma de iniciar. Recomendado!

Nota: 💚💚💚💚💛

Ficha Técnica

Carta Náutica das Desimportancias, de Fabíola Rodrigues
Clique para ampliar

Título: Carta Náutica das Desimportâncias
Autor(a): Fabíola Rodrigues
Editora: 7Letras
Edição:
 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2015
Páginas: 88
Skoob: Adicione
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