| Resenha | Exorcismo, de Thomas B. Allen

Exorcismo

De repente, o menino se transformou em um furacão de braços e pernas agitados. Bowdern se aproximou ainda mais e colocou a partícula de hóstia na boca de Robbie. Ele a cuspiu. […]
Thomas B. Allen, Exorcismo, pág. 140

Em geral não sou leitor de não ficção, mas isso porque até o momento não havia tido contato com nada que despertasse meu interesse. Não estou dizendo que nunca senti vontade de ler nada que não fosse ficção, mas há uma diferença entre “querer ler” e “pegar para ler”. Depois do lançamento de alguns títulos de não ficção da Editora DarkSide® minha lista desses livros que “quero ler” tem aumentado, mas isso em especial porque a maioria deles (considerando meu interesse) tem relação com o mercado cinematográfico, sejam eles o romance original, roteiros, documentos voltados para a produção, entre outros tantos. No entanto, somente agora eu “peguei para ler” um desses livros e foi uma experiência bem diferente e prazerosa. Em relação às minhas expectativas, devo confessar que esperava informações bem mais técnicas (não imagino como seria isso), mas a escrita do Thomas B. Allen é muito melhor que isso. Vou tentar explicar melhor ao longo do texto.

Antes de qualquer informação sobre o livro em si, algumas informações precisam estar bem claras: (1) Esta é a história real que inspirou William Peter Blatty a escrever seu romance O Exorcista, em 1971, que ficou mundialmente conhecido ao ser adaptado para o cinema em 1973, por William Friedkin; (2) Tudo que está escrito diz respeito à vida de um jovem, que o autor prefere chamar de Robert Mannheim, como uma forma de preservar sua identidade; (3) Este não é um diário ou um conjunto de relatos apenas, mas uma pesquisa extremamente séria e comprometida, além de muito bem fundamentada (aos que creem, claro).

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Cena do filme “O Exorcista”, de 1973.

Sobre o autor, Thomas B. Allen, é interessante ressaltar sua formação/experiência jornalística, desde 1950, e sua curiosidade por assuntos diversos. Curiosidade esta que lhe aproximou do tema em questão — exorcismo — e lhe despertou o interesse em investigar um pouco mais sobre a história original que inspirou um dos filmes que revolucionou o cinema de horror. No entanto, esses temas são vistos como tabus insuperáveis, construindo uma barreira quase intransponível para a verdade (qualquer que fosse ela). Mas como para um bom jornalista tudo é possível, Allen descobriu quem foi um dos padres responsáveis por realizar o exorcismo em questão e, à sua maneira, conseguiu algumas informações até então confidenciais. Vou apresentá-las de forma reduzida para não estragar a experiência de leitura e também porque muita coisa aconteceu ao garoto e sua família e você precisa ler para descobrir.

Robert Mannheim nasceu em 1935 em uma família que passava por dificuldades durante a Grande Depressão. (p.15)

Essa primeira frase do Capítulo 01 já nos joga dentro de um contexto histórico bem difícil. E foi esse contexto que fez com que Robbie e sua família de primeiro grau acabassem tendo que se submeter a morar com demais parentes, como forma de diminuir as despesas. Como era filho único, ele dependia sempre da atenção dos mais velhos, o que nem sempre era fácil, exceto quando esse adulto era a tia Harriet. Ela foi a responsável por iniciar esse jovem, na época próximo dos 14 anos, ao mundo sombrio quando o presenteou com o famoso jogo de tabuleiro Ouija. Como Robbie era muito solitário, esse se tornou seu passatempo favorito, em especial após a morte dessa tia.

Exorcismo, de Thomas B Allen

Segundo o autor, em sua pesquisa, acredita-se que foi a partir desse momento que coisas diferentes e assustadoras começaram a acontecer. Sons de passos e batidas nas paredes começaram a ser ouvidas não só por Robbie, mas por toda a família. Esta por sua vez, sempre bem cética apesar da religiosidade, não fazia associações. Alguns eventos mais intensos, agora envolvendo o cotidiano do jovem, começaram a acontecer, o que também foi associado ao seu mau comportamento, mesmo quando o garoto deixava claro que não era sua culpa. Todos esses eventos são muito bem descritos pelo autor, o que para o leitor dá a sensação de que está lendo um romance, dada a gradatividade dos acontecimentos e a quantidade de clímaces envolvendo a presença dos espíritos, o envolvimento e as decisões dos pais e demais familiares, a entrada e atitudes dos padres responsáveis pelas intervenções (William S. Bowrden e Walter Halloran), entre outros tantos eventos macabros e assustadores.

São essas informações que compõem a primeira parte do livro, que é completamente rica de detalhes. A segunda, para mim a mais interessante, é composta pelo diário do padre Walter Halloran, seguida de algumas notas do autor sobre o livro como um todo, algumas referências e uma lista de fontes utilizadas na construção desta obra. Apesar da escrita de Thomas B. Allen ser envolvente, foi o diário do padre Halloran que realmente me prendeu e colocou esse livro na lista dos melhores do ano. Nesta parte não temos nada literário ou linguisticamente bem construído, mas ainda sim conseguimos sentir cada sensação e angústia presentes nas poucas páginas. Nesse diário vamos seguindo o dia a dia desse padre e seu colega, acompanhamos os preparatórios para o dia “D” e, por fim, sabemos como tudo aconteceu e quais as consequências desse dia na vida do garoto.

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Cena do filme “O Exorcista”, de 1973.

Se eu pudesse, ainda falaria sobre tantos outros aspectos desse livro que me marcaram profundamente, mas o espaço aqui é reduzido e esse tipo de discussão funciona melhor com as pessoas que já conhecem sobre o que estou querendo dizer (por isso leiam e comentem!). Mas, de forma bem simples, gostaria de enfatizar que (1) ler esse livro me causou mais medo e desconforto do que qualquer livro ou filme de terror que tinha lido/visto na vida, até mesmo O Exorcista (1973); (2) a edição da DarkSide está caprichadíssima, como sempre, mas o cuidado com alguns aspectos gráficos do diário me deixaram completamente satisfeito; (3) O projeto gráfico é um dos mais detalhados e bem cuidados que já vi, superando O Demonologista, de Andrew Pyper, que era o livro mais bonito da minha estante até a chegada deste.

Assim, fica aqui minha indicação mais que eufórica. Mas aviso: Prepare-se para incomodar-se bastante e reduzir drasticamente suas horas de sono. Bons Pesadelos!

Ficha Técnica

Exorcismo, de Thomas B AllenTítulo: Exorcismo
Título Original: Possessed
Autor(a): Thomas B. Allen
Tradução: Eduardo Alves
Editora: DarkSide
Edição: 2016 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1994, 2000
Páginas: 272
Skoob: Adicione
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