A Invasão Nipônica no Brasil nas décadas de 1980 e 1990

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A revolução do mangá nas décadas de 1980 e 1990 e sua chegada ao Brasil

Que os mangás já dominaram completamente o Brasil todos já sabem. O que muitos não sabem, em especial os jovens que fazem parte de gerações mais recentes, é como os quadrinhos japoneses aportaram e se instalaram de vez por aqui. Pois é, para entender o fenômeno é preciso voltar um pouco às origens. Quem, assim com eu, nasceu na década de 1990 provavelmente concordará comigo quando digo que essa foi uma das melhores épocas para esse fascínio causado pela cultura pop japonesa. Hoje, com a quantidade infinita de títulos, seja mangá ou anime, e com a evolução das diversas técnicas, já não se vê mais tantas obras que surpreendam tanto o público como era no início.

Mas, entrando um pouco nessa linha saudosista, recomendo que o jovem otaku volte alguns anos no tempo para rever algumas lições passadas pela old school. Antes de mais nada, é preciso saber que nós tivemos nosso contato inicial com a cultura pop nipônica como uma espécie de extensão da importação que vinha acontecendo nos Estados Unidos no final da década de 1980 e início de 1990. Assim, a chegada dos primeiros mangás aqui no Brasil se deu nesse mesmo período. Mas lá no Japão, nessa mesma época, o mangá já havia tido um pico de ascensão e passava por uma crise de censura que fez surgir uma necessidade de reinvenção do gênero. Foi quando se passou a exigir mais da verve inventiva dos mangakás, e de onde surgiram também alguns dos melhores títulos.

Chegada ao Brasil

Akira Editora Globo
Akira, publicado aqui no Brasil pela Editora Globo

Nessa perspectiva, podemos falar sobre alguns dos títulos que abriram portas para que o mercado crescesse. Em 1988, a editora Cedibra publicou o primeiro mangá no Brasil, Lobo Solitário, de Kazuo Koike. A tradução foi feita com base na edição americana, não direto do japonês; a narrativa não seguia uma linearidade, alguns capítulos foram ignorados e a editoração por vezes cortava parte dos quadros. Logo em seguida, em 1990, a editora Globo aproveitou o embalo do lançamento do filme e lançou o clássico Akira, de Katsuhiro Otomo. Esse também sofreu alterações com base na versão americana, a principal delas é que foi lançado com páginas coloridas.

Primeiros mangás no brasil
Alguns dos primeiros mangás publicados por aqui.

Aos poucos, outros títulos foram chegando, mas sem grandes alardes no mercado, ainda que se reconheça seu papel para instauração do boom que aconteceu nos anos 2000. Mas vamos por partes. Ainda no início da década de 1990 tivemos Cobra (1990), pela Dealer; Crying Freeman (1992), pela Nova Sampa; Mai – Garota Sensitiva (1992) e A Lenda de Kamui (1993), pela Editora Abril. O maior sucesso desse período sem dúvidas foi o divertido Ramma ½ (1998), de Rumiko Takahashi, publicado aqui pela editora Animangá.

Reinvenção dos Mangás no Japão de 1980/90

Enquanto isso, no Japão da década de 90, os gêneros de mangás passaram por uma remodelagem, da qual nasceram muitos títulos que fizeram sucesso por aqui posteriormente. Em seu livro Quadrinhos: História moderna de uma arte global (Ed. Martins Fontes), os estudiosos Dan Mazur e Alexader Danner nos dão em capítulos específicos um panorama de como se deu o percurso do mangá no Japão, em especial nessa década, onde houve uma revolução do mercado como resposta às censuras de uma sociedade tradicional demais.

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Nesse cenário, é possível perceber o surgimento e ascensão de gêneros que fazem sucesso até hoje. Entre eles o lolicom, com seus enredos pouco convencionais de cunho sexual implícito (e às vezes claro como a luz do dia); o gênero garota mágica, que angariou a maior leva de otakus; além do samurai errante e do mangá de comédia. Nesse escopo e dentro desse espaço temporal (1980/90) surgiram sucessos como Dragon Ball (1985), Cavaleiros do Zodíaco (1986), Oh, My Goddess! (1989),  Sailor Moon (1992), Inu-Yasha (1996), Yu-Gi-Oh (1996), One Piece (1997-presente), Shaman King (1997), Vagabond (1998), entre tantos outros que só seriam publicados por aqui na década seguinte.

Todavia, ao tratar desse assunto, não posso deixar de falar de um grupo prolífico de autoras que não só criaram uma geração particular de fãs, como lançou alguns dos títulos mais conhecidos desse período, a CLAMP. Para quem não conhece (não sei se há algum fã de animes/mangás que não conheça, ainda), a CLAMP surgiu como um grupo de sete amigas do ensino médio que produziam dōjinshis, posteriormente o grupo se firmou com quatro membros: Satsuki Igarashi, Mokona, Tsubaki Nekoi e Ageha Ohkawa. O grupo, que era enérgico em aversão à taxação de rótulos e estereótipos nos mangás, produziu nesse período alguns títulos como Tokyo Babylon (1990-1993), Guerreiras Mágicas de Rayearth (1993-1996), Sakura Card Captors (1996-2000) e X/1999 (1999-2003).

Prelúdio para uma explosão

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Como dito anteriormente, com a chegada dos mangás por aqui, o Brasil se preparava para um boom. Tal fato só se deu na prática nos anos 2000, quando muitos dos títulos acima mencionados chegaram por aqui através de editoras que estavam despontando, como a Conrad, JBC e Panini, além da invasão dos animes da televisão brasileira, a maioria era adaptações do que estava sendo publicado em mangá.

Ao olhar o mercado editorial de mangás no Brasil em retrospecto, a partir de hoje, é possível ver como se caminhou na tentativa de agradar cada vez mais o leitor, ainda que muitas editoras ainda não tomem os cuidados devidos e exigidos pelos fãs. Mas se voltarmos para 1990 e até mesmo nos anos 2000, lembraremos da dificuldade que se tinha no acesso a determinadas obras, que muitas vezes eram lançadas em miniedições que, apesar do preço baixo, não tinham mais do que um terço ou metade de um tankōbon original.

Leituras Recomendadas

Para saber mais sobre a história dos mangás, no Brasil e no Japão, recomendo a leitura dos títulos:


Notas

* Esse texto foi publicado originalmente na Revista Neo Tokyo, nº 108.

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