| Conto | Sete Filtros de Um Delírio, de Ludimila Hashimoto

The Fold by Oliver Vernon (2016)
The Fold by Oliver Vernon (2016)

[Casa] escurecida e manchada
pelo toque cálido
e morno do hálito,
maculada, querida,
alegra-te! Que em outra era tudo será diferente.
(Ah, diferença que mata,
ou intimida, boa parte
da nossa mínima, humilde
vida!)
Elizabeth Bishop

No bloco de papel de folhas brancas e quadradas estava escrito “Após o desespero, o mundo dá meia volta. O que estava oculto aparece no seu extremo oposto. Se esta casa for soterrada, terei encarado a raiva sem cobrir o rosto. Só quem cobre o meu rosto é a terra.”

O bloco estava no chão, ao lado de uma caneta, no meio de uma sala ocupada, além dos móveis, não pelo ar, mas pela terra escura e úmida.

Foi o que me contou quem achou.

Sei que vocês estão tristes. Hoje faz sete dias. Conheci Agda como ninguém, e ainda resta uma coisa a ser dita sobre ela. Por isso me permiti recriar os fatos daquele dia. Para vocês, seus raros amigos íntimos, reunidos agora aqui em casa.

Trocamos e-mails durante anos em que ela me falava dos seus dias, de seus hábitos peculiares na rua. Fiquei com seus livros e diários quando ela virou uma espécie de nômade. Li tudo. Reflexões e referências. Vi que ela se lembrava de momentos comigo que eu apagara da memória. Sua memória era convincente de tão convicta.

No dia do enfrentamento final, ela estava sentada no sofá, falando. Não se pode dizer que falava sozinha. Kafka estava no outro canto da sala, deitado sobre o computador fechado, olhos fechados, respiração lenta, e não dormia. Escutava tudo.

Agda intuía que ele não estava dormindo. Intuía muito a respeito dele, e isso era recíproco.

“De cima do viaduto, o congestionamento parecia um imenso enfeite de Natal, luzes encadeadas, amarelas, um cordão de pessoas cansadas. Nas ruas, as crianças eram pequenas demais pra caminhar muito e grandes demais pra serem levadas no colo. Pra quem não tinha carro, as distâncias eram enormes. Eram curtas pra quem tinha.”

Eu reconto esse dia e o que ela falava através da presença do gato. Sem ele não tem história. Porque ele era uma espécie de filtro. Como ela, Kafka também tinha desistido da rua, e passou a viver filtrando o ar em torno de Agda.

Sentada no sofá, ela não parava de falar. Para ele.

“A cidade, meu amor, que me acolheu, começou a me tratar como um corpo estranho. Antes eu corria nas suas veias, depois passei a só olhar de cima do viaduto. Depois veio a época em que fiquei na calçada, cinza, empoeirada como o concreto, e percebi que eu não tinha aguentado. Quem passava desviava de mim como de um amontoado de argamassa em que o pedreiro pôs água de menos e acabou abandonando. Virei uma maçaroca, cílios cinza, cabelos de arame, boca em que pus pouca água, língua colada no céu. Fiquei.

“Antes disso era tão diferente. Eu andava. Percorria o máximo de ruas e plataformas de metrô. Não desviava muito, porque quem estava ficando pra trás do movimento da cidade vinha falar comigo, antes de virar amontoado cinzento, falava, e eu escutava o ronco do seu estômago.

bird-watcher-michael-bridges
Bird Watcher by Michael Bridges (2013)

“Eu gostava da rua especialmente quando o meu ônibus se aproximava do ponto e eu estava longe o suficiente pra ter que correr pra alcançar. Disparava no asfalto, brincando de atropelamento como quem brinca com a loucura, e conseguia subir ofegante, sorrindo para o motorista, que dizia algo como ‘Bora, menina’, e embora íamos, todos na mesma velocidade, na mesma respiração em uníssono.

“Eu sorria porque a cidade me empurrava e eu achava bom ser um grão de açúcar girando com a colher de café. Eu também usava cafeína e também me achava produtiva. O combustível da cidade era o café.”

Telefonemas que ela fazia de cobrança de cartão de crédito exigiam, no mínimo, café. Que era ruim, mas era de graça no canto das baias.

Agda, no auge da sanidade, começou a distribuir a pouca renda que tinha em esmolas microscópicas , como se os que tinham fome fossem irmãos de respiração. Kafka sinalizara que isso era o certo. Ele conhecia o princípio da urgência, e ela teve um surto, não, ela não chamaria aquilo de epifania, e não deu nome ao episódio ao me ligar às três e meia da madrugada para falar que todas as pessoas vivas do mundo estavam fazendo uma mesma coisa, sempre: respirando. Meio dormindo, ouvi a explicação dos limites de todas as variações no ritmo e no tipo de respiração. Não lembro o que respondi do outro lado, mas me lembro de algumas palavras dela: comatosos, iogues, asma, euforia.

Não duvido que ela tenha rabiscado gráficos, partituras cruzando todos os grupos possíveis de ritmos respiratórios, criando compassos de doze, oito, cinco tempos, contratempos, síncopes, silêncios até amanhecer. Devo ter dito que era uma boa justificativa para esmolas, ou que um bilionésimo da população viveria de micro-esmola se pudesse escolher. Não devo ter dito que achei ingênuo o nome que ela deu para a não-música resultante das respirações mundo afora. Antivocalização. Não falei…? Ainda bem se não falei. Apenas respirei junto.

Espiralado no calor do computador, Kafka encolheu a espinha para confirmar a posição do rabo. Não podia se distrair muito.

“Um dia eu andava perto do meio-fio, e dois garotos desciam a ladeira sobre uma bicicleta pequena demais até pra um só. Voavam sem controle, gargalharam um ‘Ai, caralho’, e fiquei acompanhando pra ver se iam capotar. Capotar era o meu maior medo.”

A campainha tocou. Agda não pretendia mais atender. Levantou-se do sofá antes de contar a Kafka sobre os dias em que ficava de pé na Augusta pedindo um lanche pra quem passava a pé, pedindo o whatsapp de quem passava de carro. O mundo estava ficando irreal demais para ela.

Ela foi à cozinha, propositalmente na direção oposta à porta onde tocaram a campainha, oposta à possibilidade de rua.

Fui eu quem toquei, mas fui só mais uma interrupção urbana aleatória.

Pegou o último pedaço de pão para acompanhar Kafka no último prato de ração. Com isso, acabaria a comida e ela não ia sair para comprar. Também não ia pedir. Não queria mais pedir. Pegou um copo na pia e tomou água da torneira.

Kafka foi atrás dela. Estava magro, como ela. O corpo esticado roçou as pernas de Agda, que respondeu:

“Come, por favor. É o que tem. Eu não desisti da cidade. Foi ela que me repeliu. Vamos.”

Mastigaram o pouco, e ela seguiu na única direção que restara. Para fora da casa, mas pelo outro lado. Os fundos. Onde se escondia o extremo oposto da cidade, da indústria e do lucro perpétuo.

Kafka acompanhou, mas não muito de perto. Quando Agda chegou ao parapeito da janela aberta, ele ainda estava no corredor, mas sentia que ela já estava vendo a terra reagir. O que aconteceu nesse dia foi que o mesmo solo dos empreendimentos imobiliários começou a dar meia-volta e sair para respirar pelo quintal. Era o mesmo solo, mas reagindo.

Quando Kafka pulou na cama, semicerrou os olhos ao vento da janela e filtrou o suspiro longo de Agda. O vento empurrou um véu e fez da casa uma passagem, um pequeno portal paulistano. Então ela viu.

Sobre a cama, o gato formava uma diagonal até o peito dela. Dali de onde estava, ele sentia que ela via a terra subir em diversos montes espalhados pelo quintal. Que ela via o chão estourar e as cabeças aparecerem. Os pescoços emergirem como arranha-céus estreitos, invertidos, orgânicos, cobertos de pelo ocre. Pelos no pescoço longo, cílios de toldos pretos, cornos de antenas nas cabeças, revelando girafas com manchas azuis fluorescentes que, quando Agda apertava os olhos, viravam olhos azuis dentro das manchas que subiam como se a ponta das antenas fosse de ferro e a lua fosse de imã.

Blue Giraffes by Lara Beatriz
Blue giraffes (edição: Lara Beatriz, 2016)

Os olhos que emitiam luz azul cobalto eram janelas das almas que respiravam a poluição da cidade. Numa delas, uma Agda bem menor, criança, dançava na sala dessa mesma casa. Os giros do corpo flexível cercado por harpas de vários tamanhos, algumas batendo no teto, dedilhavam as cordas vocais de uma baleia. Eu entrava na sala afastando as cordas esbranquiçadas, translúcidas. Dei risada dos dedos e pés que nunca erravam o instrumento e perguntei:

“O que você quer inventar quando crescer: uma máquina do tempo, uma máquina do espaço, ou uma máquina de traduzir a língua dos gatos?”

“Sem parar de girar: ‘De traduzir a língua dos gatos.'”

Anos depois, no nosso último encontro carnal, Agda me disse que traduzir a língua dos gatos era uma bobagem sem sentido. A comunicação com um gato se dá pela presença, segundo ela. Por relações espaciais entre os corpos, geométricas. Filtragem de vibrações emitidas pelos corpos. Compartilhamento de intuições, algo assim, ela disse. Eu ri da convicção dela e brinquei: São pequenos portais egípcios. E devo ter acrescentado que um gato é uma viagem. Ou só pensei, olhando para os seus olhos, tão grandes buracos negros.

Agora, parada à janela, mas ofegante como se dançasse, estava pronta a sua invenção, sua realidade era filtrada pela presença de Kafka, costas cinza claro e peito branco. A realidade tão imediata de uma única vida, tão inédita quanto é cada mancha no pelo de uma girafa, como ela gostava de pensar e escreveu num dos diários.

Kafka, o jovem escritor tcheco, escreveu sobre isso. Eu tinha a referência nas mãos.

Acho que era só essa a história que eu queria contar hoje. Mas não terminou aqui.

Se as cabeças e pescoços já reviravam muita terra, implodindo escombros antigos, o quintal não segurou o resto do corpo de cada animal irrompendo no ar da madrugada. Fileiras de dorsos derrubaram a terra sobre a casa, numa avalanche que pretendia invadir tudo até derrubar a fachada. A fachada, acima de tudo, tinha que cair.

Os olhos grandes ficaram escuros, sem tempo, com flashes de luz azul, o gato engoliu a raiva de toda uma civilização, ouvi um alarme disparar na rua, alertando sobre a falha no tecido do real. Mas a antivocalização era maior do que qualquer providência (divina).

O resto vocês sabem. Laudos oficiais. Casa construída perto de encosta. Desabamento de estruturas em mau estado de conservação, não sei. Não foi um crime passional, apesar de tudo ter começado com uma paixão. Não foi um acidente, a não ser para quem passa pela rua de dentro da estabilidade de um carro e só vê uma cidade cenográfica, editada. Assim como Agda, eu só intuo. Assim como Kafka, eu também estava lá.

Autor Convidado

Ludimila Hashimoto é psicóloga, tradutora, mãe e escritora. Formada em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) acabou mudando para as letras se especializando em tradução e interpretação pela Associação Alumni. Começou a traduzir para a editora Conrad. Hoje, ela já passou por um rol de editoras que só atestam a qualidade do seu trabalho: Aleph, Record, Bertrand, Veneta e Pensamento. Em seu histórico de traduções constam autores como Alan Moore, Terry Pratchett, Neil Gaiman (graphic novels), Diane di Prima, Hunter Thompson, William Gibson e, especialmente, Philip K. Dick (PKD).

 

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