| Resenha | O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco

O Pêndulo, lá em cima, de onde pendia, e ao longo do infinito prolongamento ideal do fio, para o alto em direção às mais remotas galáxias, estava, imóvel por toda a eternidade, o Ponto Fixo. A Terra girava, mas o lugar onde o fio estava ancorado era o único ponto fixo do universo. Por isso, não era propriamente à Terra que o meu olhar se dirigia, mas ao alto, lá onde se celebrava o mistério da imobilidade absoluta. O Pêndulo dizia-me que, embora tudo se movesse, o globo, o sistema solar, as nebulosas, os buracos negros e todos os filhos da grande emanação cósmica, desde os éons primitivos à matéria mais viscosa, um único ponto permanecia, eixo, cavilha, engate ideal, deixando que o universo se movesse em torno dele.
Umberto Eco, O Pêndulo de Foucault, pág. 17.

O Pêndulo de Foucault é praticamente uma enciclopédia literária sobre religião, história, misticismo e ocultismo. Essa obra, escrita pelo grande intelectual italiano Umberto Eco, foi o resultado de uma pesquisa extraordinária acerca de teorias conspiratórias, seitas secretas ao longo da história, e diversos sistemas de crenças, desde o método cabalístico distintivo da religião judaica, até os rituais de religiões de matriz africana, como a Umbanda brasileira.

Esse livro tornou-se a proforma dos romances policiais conspiratórios, uma vez que converteu-se num modelo a ser seguido por demais escritores, além de ser uma fonte de informações inesgotáveis para a produção de diversas obras dessa temática. É interessante observar como Eco consegue conjugar com tamanha harmonia o conhecimento erudito de manuscritos clássicos da história cristã com o conhecimento popular e as tendências modernas de “multiinformação” nascidas na cultura de massa.

O livro é dividido em 10 partes representadas pelas dez Sefirot, as dez emanações que formam a Árvore da Vida na Cabala. Essa referência aos dez estágios de Ain Soph, o “Deus” da cabala, na estruturação das partes do romance evidencia a genialidade do trabalho de construção da obra literária por Umberto Eco, uma vez que a organização dos segmentos do romance seguem uma sequência de “pilares” ou “estágios” de desenvolvimento da trama interligados a esse sistema ritualístico ilustrado no livro.

A Cabala, sistema filosófico-religioso do judaísmo com base na atribuição de alegorias e números às letras do alfabeto hebraico, cumpre um papel muito relevante na obra, uma vez que é conferido um tratamento da matemática por uma dimensão religiosa. Assim, a grandeza infinita dos números representa na obra uma bela metáfora da infinitude do conhecimento humano, tanto quanto o caos das fórmulas matemáticas e equações numéricas, que constituem um mistério para a humanidade, estabelecem uma analogia à profusão de ciências e faculdades que surgem a cada dia.

illuminati pendulo de foucault

A trama se inicia com um dos editores da Garamond, Causabon, escondido no Museu de Artes e Ofícios de Paris, aguardando um encontro com seu amigo Jacopo Belbo, que fora sequestrado por uma sociedade secreta dos cavaleiros templários. Este encontro revelaria o mistério do Pêndulo de Foucault, relacionado à teoria do “Plano”, que contém os segredos do universo e uma conspiração global envolvendo os templários.

Após essa cena, a narrativa regressa para 1980, em Milão, quando os três editores, Belbo, Causabon e Diotallevi, se conhecem e passam a trabalhar juntos na respeitável Garamond, uma editora cultural, conhecida por publicar obras eruditas e publicações acadêmicas de prestígio. Um selo alternativo da editora, Manuzio, foi criado com o propósito de divulgar livros mais comerciais sobre ciências ocultas.

Um dia, apresentou-se na Editora o coronel Ardenti afirmando que tinha descoberto um plano secreto de dominação mundial envolvendo o Santo Graal, elaborado pelos cavaleiros templários, que existiam até a atualidade. Ardenti tinha a intenção de publicar um livro contando essa história, a qual despertou grande interesse em Belbo e Causabon. Logo após essa visita à editora, Ardenti desaparece e a polícia passa a suspeitar de Belbo e Causabon, pois foram os últimos a ter contato com o coronel antes de seu desaparecimento.

Causabon decide distanciar-se daquele mundo de ocultismo e parte para o Brasil, lá vive um romance com uma brasileira, Amparo, e tem uma experiência num ritual umbandístico por meio do qual sua namorada incorpora uma entidade espiritual, o que causa o término do casal. Assim, Causabon retorna à Itália e volta a trabalhar na antiga editora.

o pendulo de foucault experimento

De volta à Garamond, Belbo, Causabon e Diotallevi, praticante da Cabala, passam a ler todo o tipo de manuscritos sobre ocultismo, misticismo e teorias da conspiração. Após tantas leituras, os três formulam sua própria teoria conspiratória, o “Plano”, que começou como um jogo, uma brincadeira de editores cansados de tantas especulações conspirativas, acaba por deixá-los obcecados, passando a acreditarem que o Plano era mesmo real, uma Conspiração Universal, que envolvia diversas seitas secretas de milhares de anos de existência. A argumentação do narrador é tão convincente, que capta o leitor para a narrativa fazendo-nos acreditar ou pelo menos duvidar do caráter fictício de teorias tão bem costuradas.

Por fim, Belbo é sequestrado por uma das seitas descritas por Argenti, e Causabon deve encontrá-lo na tentativa de resgate à meia noite no Conservatório de Artes e Ofícios de Paris, num ritual em torno do Pêndulo de Foucault, que revelaria segredos tão terríveis os quais comprometeriam toda a humanidade. O desfecho da obra traz uma grande reviravolta na história, à altura de uma revelação estarrecedora da mais extravagante teoria da conspiração.

Essa obra, acima de tudo, aponta os perigos do fanatismo a que um indivíduo ou grupo de pessoas podem chegar por meio da obsessão por informações de sistemas de conspiração secretos, teorias da história oculta e o misticismo elevado a um grau desmedido. Como o próprio Eco afirma, na obra que o consagrou internacionalmente como escritor: “Os livros não são feitos para alguém acredite neles, mas para serem submetidos à investigação. Quando consideramos um livro, não devemos perguntar o que diz, mas o que significa.” (O Nome da Rosa, Umberto Eco).

Por último, O Pêndulo de Foucault não é uma obra de leitura fácil ou rápida, é preciso ter paciência e diligência para chegar até as últimas páginas, esse trabalho, no entanto, pode proporcionar uma experiência literária única, que é a leitura de um verdadeiro manancial de conhecimento humano. Para finalizar, incluo aqui mais uma frase desse autor, que foi um grande literato e um dos maiores intelectuais da humanidade, deixando-nos como herança a inspiração da busca pelo conhecimento: “Quem não lê, quando chegar aos 70 anos terá vivido só uma vida, quem lê terá vivido 5 mil anos.” (Umberto Eco)

O experimento de Léon Foucault

Em 1851, Léon Foucault comprovou por meio de um experimento o movimento de rotação da Terra em torno de seu próprio eixo, utilizando-se da oscilação de um longo e pesado pêndulo suspenso no Panthéon, em Paris. Esse experimento ficou conhecido como o Pêndulo de Foucault.

Polêmica: O Pêndulo versus O Código Da Vinci

o codigo da vinci capaDurante a leitura de O Pêndulo de Foucault é quase inevitável perceber a semelhança desta obra com o livro O Código Da Vinci, de Dan Brown, que popularizou os romances policiais conspiratórios. O mote de ambos os livros é quase o mesmo, uma conspiração em torno do Santo Graal que revelaria um segredo divisor de águas para a humanidade

Sobre a comparação entre as duas obras, Umberto Eco declara: “Eu inventei Dan Brown. Ele é um dos personagens grotescos do meu romance que levam a sério um monte de material estúpido sobre ocultismo. Em ‘O Pêndulo de Foucault’, eu havia inserido um bom número de ingredientes esotéricos, que podem ser encontrados no Código Da Vinci. Os meus personagens, ao elaborarem os seus projetos, levam em conta a importância do Graal, por exemplo. (…) Ao pesquisar para escrever ‘O Pêndulo de Foucault’, eu esvaziei todas as livrarias que já se especializavam nessa “gororoba cultural”. Dan Brown copia livros que podiam ser encontrados trinta anos atrás nos sebos da Rue de la Huchette, em Paris. O sucesso pode ser explicado pelo fato de que os autores desses best-sellers levam tudo isso a sério, e ainda pelo fato de que as pessoas são sedentas por mistérios.” (Fonte: aqui.)

Ficha Técnica


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Título: O Pêndulo de Foucault
Título original: Il Pendolo di Foucault
Autor(a): Umberto Eco
Tradutor: Ivo Barroso
Editora: Record
Edição: 2016 (16ª)
Ano da obra / Copyright: 1989
Páginas: 670
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